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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

O retiro - dia 3. (Acreditem que foi MESMO assim...)

08.04.16 | Fátima Bento

Acordei para o meu terceiro dia com a sensação de 'aproveita hoje que amanhã acaba'...

Tomei o pequeno almoço já de fato de banho vestido, levantei as toalhas na receção e desci para a piscina.

Quando entrei fiquei surpreendida pela positiva com a temperatura ambiente, superior à da véspera, o que me pareceu um bom principio. Já tinha despido o top, indo começar a tirar as calças, e eis que surge uma funcionária do hotel a pedir muita desculpa mas que a piscina se encontrava fechada

(bom eu JURO que não arrombei nada!)

devido ao banho turco estar a ser reparado

(ora, tivesse-me eu lembrado de o experimentar na véspera e era mais uma flor a juntar ao ramalhete...)

Faço o reparo de que me deveriam ter informado minutos antes, na receção, quando levantei as toalhas, ou haver uma qualquer indicação visível... e eis que vejo dois trabalhadores surgirem, como se chamados à boca de cena.  Ante o meu espanto, ela continua 'peço desculpa, vão ser só mais uns dez minutos, se não se importa de voltar daqui a pouco' e eu a repetir o tudo bem não tem importância enquanto me vestia (?!?) e que já se ia tornando habitual - ao mesmo tempo que, por dentro, repetia a meu mantra.

Decidida a continuar a, pelo menos TENTAR tirar coelhos da cartola, dirijo-me ao balcão de receção do SPA. Posso fazer um spa de mãos ou pés, ou quem sabe uma pequena massagem (serviços pagos à parte) enquanto espero para poder usar o que paguei para usar, penso. Solicito o serviço e "não é possível. A técnica não se encontra aqui, tem de marcar com antecedência...” alego que devia ter sido informada no momento do check in, dão-me razão (obrigadinha...) e, entre o perdida e o teimosa, insisto para a tarde. A resposta mantém-se negativa, 'posso tentar ligar mas digo-lhe já que quase de certeza, não vai ser possível'.  E arremata com a repetição de ' tem de marcar com antecedência’. Ok, obrigada (por nada), viro costas e meto-me no elevador direto para o quarto. Onde estavam a proceder à arrumação, pelo que esperei no lounge que ficava em frente à porta. Sem me passar dos carretos!

              sou mesmo aplicadinha nas coisas, quando é para descansar É PARA DESCANSAR, ouviste, Fátima?

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E quando acabam a faxina do aposento, enfio-me por ele dentro, direto para... a caminha pois. Where else?

Nada irritada, mas bastante incomodada decido não descer para almoçar. Deixo-me ficar mais tempo de papo para o ar e como um pacotinho de bolachas de água e sal e uma gelatina. 

E recomeço: visto o fato-de-banho, pego nas toalhas e desço à piscina. A temperatura ambiente agradável da manhã tinha descido. A água estava ainda mais fria (!!!) que na véspera e eu fiquei na espreguiçadeira a não-pensar-em-nada enquanto não enregelei com o fato de banho molhado. Quando tal aconteceu, passei pela casa da partida receção num pulinho sem receber os 200 euros, entreguei as toalhas subi ao quarto e repeti a rotina da véspera: liguei o ar condicionado primeiro, enfiei-me na cabine e a seguir, na cama. Desta vez ainda tiritava (acho que era nervoso miudinho - muita coisa a correr menos bem... - uma vez que já não havia razão para sentir frio). Mais uma horinha de sono, e jantar.

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AH! O JANTAR!

Chego ao restaurante e sento-me, notando que as mesas estão disposta de forma um pouco diferente - e que há mais dois empregados de que nas outras noites. Peço o meu prato, vou debicando o meu vinho, começo a comer um risotto de pato absolutamente divino quando... o restaurante é invadido por umas dezenas de, presumo, médicos, ou técnicos de saúde, a julgar pelos temas de conversa, que me estragam literalmente o jantar. Primeiro, e principalmente por isso, porque fazem uma barulheira insuportável, e depois, porque estar a comer e a ouvir 'discursar ' (presumívelmente seria um dos oradores do congresso, ou lá o que foi, a quem se tinham esquecido de informar que a palestra terminara) sobre a artéria X, a artéria Y e a veia não sei dos quantos e o... olhem, o raio que o parta! Acabei o restante pato em dois tempos, sorvi duas garfadas de risotto (ainda estou com o prato atravessado, de não o ter usufruído!) engoli o resto do vinho, fiz sinal ao empregado, assinei o papel e desandei de rompante porta fora! 

Já foi demais, mesmo!

Desço ao bar, pensando - e bem - que, se estavam todos lá em cima, ali estaria algum silêncio, e bebi três Baileys, enquanto li uns capitulos de 'Revenge wears Prada', a ver se acalmava. Quando vejo uma parede a desaparecer (painéis rebatíveis, fantástico!) e a sala a duplicar de tamanho, calculo que os senhores doutores lá de cima já estarão nos cafés e trato de pedir a conta e recolher ao quarto.

Chegada ao mesmo, pego no poncho, enrolo-me nele e decido ir à varanda apanhar ar. Abro os cortinados, até ao fim, e... não é possível passar para a varanda. Abrir, abre: aí uma nesga de 20 ou 25 cm, e depois os cortinados não a deixam abrir mais. Só me faltou fazer o pino, mas não havia mesmo maneira.

Pensais vós que me saltou a tampa? Não, não saltou. Para quê? Pensei, num suspiro, que era mais uma a juntar às reclamações que ia colocar em lista e entregar no dia seguinte aquando do check out.

Na última manhã, depois do pequeno almoço dei uma volta pelo exterior e fotografei, coisa que não me tinha apetecido fazer antes.

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DSC_0128.JPG(o meu quarto não era nenhum destes...)

Depois fui ao quarto, arrumar as últimas coisas, sentei-me à consola e fiz a minha lista. No momento de pagar, agrafei um cartão de visita, e entreguei. Pediram-me muitas desculpas (de desculpas, trouxe a barriga cheia!) e disseram que iam entregar à direção.

Último acto desta tragicomédia:

antes de sair, decido ir tomar um café ao bar que abrira às 10:00h (eram 12:30h, mais ou  menos) e pedi para me guardarem a bagagem no depósito enquanto o fazia. Claro com certeza!, e lá desci. Esperei. Bati com o anel no balcão do bar para me fazer notar; andei às voltas de um lado para o outro - os saltos altos no pavimento faziam ruído. Já a bufar, sento-me numa das poltronas, saco do telemóvel e ligo para a receção. Atendem como uma chamada exterior - que o era - e eu informo que "acabei de fazer o check out, e há dez minutos que estou no bar à espera E NÃO ESTÁ CÁ NINGUÉM. Fazem o favor de mandar alguém para me tirar um café?"

Vem uma das rececionistas, e peço também uma garrafa de água. E a conta, já (senão saía de lá no final do dia, a julgar pela amostra...) . Acto continuo informam-me que o café e a agua são oferta do hotel.

OBRIGADINHO!

(e agora estão com inveja? Estão? Pois é, uma pessoa tira uns dias para descansar e só não arranja uma úlcera porque a mente é mais forte que a matéria, pelos vistos. CARAMBA!)

O retiro - dia 2

07.04.16 | Fátima Bento

{raios me partam, que é muito mais difícil escrever um post a apresentar coisas boas e menos boas, que encadear as ideias em ordem positiva. Ando nisto desde a publicação do primeiro post sobre os três dias de 'reclusão' e repouso, de tal modo que tenho até fugido a escrever sobre outros temas, com esta coisa presa debaixo da voz. Mas o que tem de ser tem muita força, e ou vai ou racha...}

 

Terminei o post sobre o primeiro dia estava eu a tomar o pequeno almoço às 8:30h, apesar da insónia precoce que se repetiria na noite seguinte (que por muito que não queiramos, temos um limite de horas de sono; é flexível mas não exageremos...) não foi? Bem, depois subi e enrosquei-me, mas não vou fazer um retrato detalhado dos meus dias, porque foi sempre mais ou menos isso: comer, descansar, duche, piscina, bar.

Fui ao quarto buscar um poncho, já a imaginar-me à noite sentada na varanda enroscada no mesmo... com a fabulosa vista da estrada principal (o que não entendo, sinceramente). Teoricamente aquele quarto deveria ter uma vista resguardada... 

Ah, e eu disse piscina, não foi?

Pois que na tarde do segundo dia vesti o fato de banho, e uma vez que não tinha no quarto o roupão mencionado na reserva, enfiei umas leggings de fitness, uma camisola leve e  largueirona, calcei as sapatilhas e desci à área de spa - acesso que me tinha inflacionado o preço do quarto, mas como eu sem agua não sou nada, tinha garantido previamente o acesso à piscina interior.

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As espreguiçadeiras eram deliciosamente confortáveis e o ambiente convidava ao relaxamento total. E decidi experimentar a piscina, entrando pelo lado do jacuzzi. A agua pareceu-me fria para piscina interior, mas vamos lá ligar os jatos de ar que já me vou sentir mais quente... os verticais funcionavam, mas já os lombares... nada. E nesse momento, embora ainda agarrada ao meu motto " não me vou aborrecer", digamos que estava a ser difícil manter-me tranquila e bem disposta... digam-me para que servem os jatos verticais de um jacuzzi...? Os lombares, é obvio, os laterais, que saem de baixo, acabam por dar apoio, embrulhando-nos na agitação das aguas. Mas só os segundos? Poramordasanta!

Bom, empenhada que estava em tirar o melhor partido do que dispunha, inventei 'uma omoleta': sentei-me na ponta do "banco/degrau" (chamem-lhe o que quiserem!...) mesmo à frente de um jato. Encostei os ombros ao rebordo da piscina e sim, aquilo tocava-me na zona lombar. Mas arriscava a sair dali toda 'torcida', que nem relaxava decentemente os dorsais e ainda magoava a parte superior da coluna... Premi o botãozinho e desliguei os jatos. Pensei em dar duas braçadas mas a água estava FRIA, e não apetecia nada.

Saí da piscina e enrolei-me numa das toalhas, deitei-me na espreguiçadeira, e assim que me senti razoável, troquei a toalha húmida pela seca - que parecia estar aquecida! - e peguei no suplemento de beleza da Telva de março que folheei e ainda li duas ou três paginas...

... mas ganhou o meu lado friorento e saí de lá, entreguei as toalhas na receção, inquirindo sobre a temperatura da água e recebendo a explicação que por lei tem de estar abaixo dos 30° "entre os 28° e os 30°" (pois, pois...), e subi ao quarto.

Mal passei a entrada e enfiei-me de imediato na casa de banho. Abri o duche ainda antes de despir o fato de banho - o que não era necessário já que a água aquecia em segundos. Devo ter estado quase uma hora na cabine, e saí desta diretamente para debaixo do edredão, ligando antes o ar condicionado. Ainda pensei que se adormecesse a serio perdia o jantar mas estava-me bem nas tintas! BRRRRR....

Bom, sempre acordei a horas e desci para jantar de vestido anos 70 e botins de camurça. Acho que a única coisa em que me podem chamar conservadora é que não me apanham a jantar de calças. Nada contra quem o faz, mas acho mais apropriado saia ou vestido. Ah, e com uma clutch em tapestry preto e branco que não combinava nem chocava com nenhum dos visuais, e que andou sempre comigo: cabia o telemóvel e o e-reader, que me acompanhava na hora das refeições.

after diner.jpg

Depois do jantar tomei um digestivo no bar e regressei ao quarto.

E

o dia seguinte ia ser ainda um bocadinho mais SUI GENERIS...

Ontem fui ao cinema, e...

05.04.16 | Fátima Bento

Sabem quando um filme vos deixa de barriga cheia, porque foi tão bom? Sabem quando um filme vos deixa atordoados, com a sensação que o nível de oxigénio da sala terá baixado

            com certeza

para nos sentirmos assim estonteados, um-quê-de-agoniados-embora-sem-chegar-à-náusea, e sem percebermos bem porquê? 

Operação Eye in the Sky (adaptação do titulo original um nadinha ao lado, já que o nome da operação nem é esse, embora a expressão seja, corretamente, muito usada no filme)

            mas o que é que isso interessa?

consegue isso tudo. E muito mais.

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Antes de mais nada, quero dizer que o filme é extraordinariamente bem conseguido. E não, não é só por estar recheado com a fantástica prestação de Helen Mirren, nem com a presença do icónico Alan Rickman, nem de um desempenho escorreito de Aaron Paul... é pelos pormenores, pelos alinhavos com linhas de seda, pelos acabamentos reforçados, pelos pequenos pormenores bordados à mão.

Quem viu o trailer oficial do filme, sabe que falamos de terroristas no Kenya, ocidentais convertidos ao Islão, bombistas suicidas, de um teatro de guerra gerido de um QG no Reino Unido, em coordenação com uma equipa de big shots britânicos - composta por representantes dos diversos poderes políticos e encabeçada por um general - em ligação estreita com os norte americanos, país onde se situa o 'compound' de contentores de onde são operados os drones armados.

Mas todas as localizações são absolutamente secundárias, porque ali estamos todos no mesmo lugar.

Plot: devido à reunião de três dos cinco mais procurados terroristas islâmicos sob o mesmo teto, é montada uma operação secreta de captura com apoio de vigilância remota. Ao serem visionados coletes de explosivos prontos a serem vestidos, a Operação muda 'de captura' para 'a abater'.

Entretanto quando o míssil está prestes a ser disparado, uma criança coloca-se inadvertidamente na zona de impacto, o que torna a situação moral, ética e mesmo politicamente confusa.

Sem Título.png

Aqui entramos nós. Sim, os espectadores que estamos sentadinhos nos nossos lugares - como sentados estão todos os intervenientes neste 'jogo de guerra'. Não porque tenhamos algum poder de decisão mas porque é a partir deste momento que todo o acumulado de imagens de guerra que nos entram diariamente pelos olhos, toda a informação que digerimos sobre os ataques bombistas, sobre os ataques dito-cirúrgicos, nos faz sentir empatia, ou a ausência dela. É aqui que começa o nosso teatro de guerra privado e interno. 

A pergunta de um milhão de dólares é simples: sacrificamos uma criança como dano colateral, ou sacrificamos 80 alvos potenciais no ataque suicida a um Centro Comercial, nos quais se contarão também outras crianças? A verdade é que continuamos a ver a menina, enquanto os pupeteers vão passando a bola uns aos outros em busca de alguém que dê luz verde ao gatilho; ao mesmo tempo, não conhecemos nenhum dos oitenta alvos, e isso pesará na tomada de posição: nossa e de quem opera os comandos e as decisões.

Alguém levanta a questão: em termos de propaganda, se eles concretizarem o ataque suicida, eles perdem, se este video for tornado público, somos nós quem perde.

            assim de simples...!

E ficamos ali,presos ao assento até ao último segundo do filme, a debater-nos com a nossa hipocrisia, a torcer por um rosto, de quem nos foi mostrado um nadinha do dia a dia, a despeito de oitenta, que como não vemos, e de quem nem conhecemos nada, no nosso imaginário é como se não existissem. E, a serem vitimas, não seriamos nós a puxar o gatilho. 

Não?????

A verdade, assim a frio e sem anestesia, é que puxamos o gatilho em qualquer caso. E sim, custará muito mais disparar a olhar no fundo dos olhos de alguém, de que permitir disparar sobre quem não temos à frente. Vamos dormir mais descansados nessa noite (???). A verdade é que quando o filme acaba, quando nos olhamos no espelho, duvido que alguém goste do que vê. Esta é uma lose/lose siuation, o que faz com que o facto de termos estado de qualquer um dos lados nos mostre um reflexo distorcido, um afinal quem sou eu - o mesmo com que estes operacionais, desde o que dá, ou não, luz verde, ao que diz dispara, ao que prime o gatilho se confrontam em permanência.

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E depois há o outro caso. O caso dos espectadores, como eu, que dão dois passos atrás e se limitam a observar. Porque este mundo transformou-se num mundo de observadores, de achistas, de tudologistas todos cheios de certezas. E nós observamos a pensar não posso fazer nada, não é comigo, quando no fundo É com todos nós. Quer seja dada luz verde ou vermelha, quer se prima o gatilho e se mate a menina feliz dos olhos grandes, ou se permita que as oitenta pessoas sejam chacinadas, não nos podemos demitir de que tem a ver connosco.

Saí do cinema triste, enjoada e tonta. Com a sensação de ter respirado tempo demais com pouco oxigénio.

E com receio de me olhar no espelho.

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