Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

José Saramago - as regras e exceções.

Em relação a atropelos à língua portuguesa, e quando escrevi este post, ainda pensei em alargar a abordagem às exceções. Melhor ainda, À EXCEÇÃO, assim, com maiúsculas.

Presumo que por esta altura, se leram o post supracitado, e acompanharam os comentários, já saibam a quem me refiro. E se não o leram AINDA - estão à espera de quê? :) - também não será difícil presumir quem é cavalheiro em questão.

Já não lia nada dele há algum tempo - tempo demais, se posso confessar - e essa ausência foi sentida mal peguei no ainda não lido e recomendado "As intermitências da morte". 

Saramago é um escritor delicioso que brinca com a gramática como um malabarista com bolas, ou maços

ou o equilibrista de pratos

e o seu caminho iniciou-se com o dominar perfeitamente os segmentos de reta, as perpendiculares em ângulos diversos, as curvas, semicurvas, todos os jeitos e trejeitos certos da geometria das palavras. Só assim, sabendo exatamente o como correto, pôde mudar as linhas de lugar e dar luz a renovados formatos.

Ao contrário da história dos pontos-finas-minúsculas, a forma como José Saramago pontua, as vírgulas, a ausência de parágrafos, a inexistência de separação nos diálogos que não as maiúsculas que dividem os interlocutores mantém-nos em pontas de pés, estimula a massa cinzenta. E sim, volto atrás algumas vezes, não por me ter perdido, mas para saborear melhor a poesia da forma, a criatividade do efeito.

Não haveria, por isso, razão para 'usar o nome do Senhor Escritor em vão' e o embrulhar naquela amálgama de mau gosto que referi no outro post. Saramago é genial e ergue-se com majestade, onde os outros embriões de aspirantes a escribas nem sobre bancos se suportam.

E para acabar, passo a citar

(...)Umas quantas luzes de sintaxe elementar e uma maior familiaridade com as elásticas subtilezas dos tempos verbais teriam evitado o quiproquó e a consequente descompustura que a pobre moça, rubra de vergonha e humilhação, teve de suportar do seu chefe direto.(...)

in As intermitências da morte

 

É assim: para desmontar, há que saber como funciona e porquê. E depois vamos pensar fora da caixa, criar neologismos, fazer toda a espécie de experiências, qual brainstorming esperando que no final o resultado seja positivamente diferente. Ou quiçá, mesmo um primeiro passo no caminho do brilhantismo...

saramago-frases-1.gif

Weekend: um filme (ou uma experiência), que vale mesmo a pena.

No domingo passado, fomos ao cinema a dois.

 

e segundo me constou quase toda a gente foi,

no mesmo dia, ver o mesmo filme...

 

Claro que estou a falar em Mestres da Ilusão 2/Now you see me 2. Confesso que o primeiro me passou um nadinha ao lado, e só o vi há pouco tempo no pequeno écran... e independentemente da qualidade do mesmo, não me agarrou...

 

 

... teche, dona Fátima!...

 

Vai daí resolvi que não me apanhavam desprevenida à segunda... e fui em grande: além de ver em cinema, vi em 4DX. A medo, que se os abanões e demais efeitos fossem excessivos, receava perder o filme com o barulho das luzes... mas não perdi. O filme é bom, uma cinematografia à prova de bala, não vejo nada que pudesse ser muito melhorado

 

e não costumo ser assim muito generosa quando analiso um filme...

 

Quanto aos atores, o que dizer? Jesse Eisenberg está igual a si próprio, i.e, fabuloso

 

(trivia: sabiam que ele está em palco neste momento no West End londrino? Em The spoils, ele não só protagoniza como é o criador da peça. One man show, at his best!)

 

E depois, há o Woody Harrelson. Com uma filmografia de ficar em sentido, um actor com um A muito, mesmo muito GRANDE.

E neste desfile de estrelas, juntam-se mais duas que primam pela qualidade a todos os níveis: o gigante Morgan Freeman, a quem não falta fazer nadinha - mas que continue a fazer o que lhe apetecer que a gente agradece e aplaude.

E finalmente, o caso muito sério, Mark Ruffalo. O homem que me consegue atordoar com a sua capacidade de encarnar personagens - como o  inimitável desempenho de Mike Rezendes em O caso Spotlight/ Spotlight, que de resto lhe rendeu o Óscar de melhor ator secundário este ano. Isto só para dar um pequeno exemplo. Um caso mesmo sério de talento e que ainda não mostrou tudo o que tem para dar, garanto.

Ora o que é que uma mistura explosiva como esta podia dar? Uma de duas coisas: ou uma imensa mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, ou um filme 5 estrelas.

Querem saber o veredito? Vão ver - vale mesmo a pena, mais não fosse pela espetacularidade - e depois decidam. Diga eu o que disser, a opinião que conta é a vossa.

Screen-Shot-2016-05-27-at-11.13.38-AM.png

E se me quiserem fazer a vontade, partilhem o que acharam. Ali em baixo, nas "Opiniões, ta-taus, miminhos... AQUI!", if you please 

Raio de mania de atropelar a língua portuguesa - e não, não estou a falar do AO... (coisas que me encanitam #1)

{Pois que quanto ao Acordo Ortográfico, acho que já toda a gente adivinhou - ou leu por aqui algures - que sou a favor, ou pelo menos não tenho nada contra. As consoantes mudas são uma coisa que me faz espécie desde miúda, por isso abaixo com elas. E então, obviamente, o título em epígrafe não contempla o mencionado acordo}

 

Adiante, pois.

Se há coisa que me encanita - mas é que encanita MESMO! - é esta mania - podem chamar-lhe moda, que acredito que seja disso que se trata - de tanta gente se borrifar para as maiúsculas.

 

que os meses do ano não tenham direito a maiúsculas até advogo,

AO oblige

 

mas que comecem um texto com minúscula, e a seguir a cada ponto final se siga outra, põe-me quase fora de mim. Não consigo ler assim.

Aliás, conseguir LER, até consigo, o que me é particularmente doloroso é tentar criar lógica no que estou a ler.

Tropeço nos pontos finais como se estes fossem vírgulas, levanto-me, volto atrás a ler a mesma frase e pauso devidamente porque AQUILO É UM PONTO. Porreiro. E depois aparece outro, mais um, e lá volto eu atrás, a reler, a procurar o buraco da agulha onde devo enfiar a linha que é a ponta da meada. 

Até que chega aquela altura em que DESISTO.

Porque não vale a pena, um livro, um texto, um post, não merecem a trabalheira que tanta tentativa e erro me dão. A sério: há tantos, mas tantos livros, textos e posts que são bons - ou até razoáveis - que não vale o equilibrismo cognitivo.

A primeira vez que me deparei com o "estilo" foi num livro do Walter Hugo Mãe - perdão, walter hugo mãe. E não, não "consegui" ler a obra - porque mesmo ao lado estava outra escrita de uma maneira... digamos clássica. Ou se calhar alguns até defenderão, "arcaica".

A mim, tanto se me dá.

Nunca mais comprei um livro do senhor por isso não sei se foi caso único ou se é habitual e costumeiro. 

A seguir a um ponto final segue-se uma letra grande. Eu sei isso desde a primária, quando batismo ainda se escrevia baptismo. E vá, saia de lá essa prerrogativa de que faz mais sentido continuar a fazer uso das consoantes mudas como se "actor" fosse mais acurado de que "amanhã. ele disse-lhe que voltaria amanhã. e fê-lo por saber que ela estaria de novo de novo sozinha. ela sorriu e aquiesceu".

A mim atrofia-me. 

Mesmo, mesmo a serio.

Weekend: um filme

Bem sei que ontem estreou o "Mestres da ilusão 2/Now you see me". Já comprei os bilhetes para o ir ver no domingo, em 4DX (yeahhh), pelo que devem saber o que achei daqui a umas duas semanas, ou assim... por ora, aqui têm uma sugestão para um filme que ainda está em exibição em praticamente todo o lado E que vale tanto a pena ver...que o vi duas vezes em quinze dias.

Leram bem.

Uma vez com o filho e a segunda, com o marido.

Estou a falar da película que mais me fez rir em, pelo menos, um ano. A sério. Das duas vezes chorei desalmadamente na mesma cena. Uma sucessão de gags que valem o seu peso em ouro!

(este é um video promocional e não faz parte do filme)

Falo de "The Nice Guys/Os bons rapazes", com a dupla que tem tanto de improvável como de certeira, Ryan Gosling e Russel Crowe.

A coisa desenrola-se em 1978, em Los Angeles. Holland (Gosling) é um pai viúvo, detetive (aldrabão) de profissão, cagadinho da silva de nascença, e dado à pinga nos momentos mortos e menos mortos. Já Jackson (Crowe) é um tipo gordo, assim tipo para o roupeiro, que dá uns enxertos de porrada à moda de cobranças difíceis, mas sem a parte das cobranças. São só mesmo entregas de mensagens em 4D com uma visita ao hospital mais próximo de bónus.

Por vias da ocupação de um, cruzam-se na entrega de uma mensagem - preencham os campos em branco no que diz respeito a emissor e recetor da mesma... - e, paginas (que não são assim) tantas, dão por eles a trabalhar juntos - e com a ajudante mais inesperada e competente. O caso em mãos passa-se no mundo dos filmes pornográficos - que pelos vistos constituía uma empresa em expansão, na época. 

Delicioso, entre as gargalhadas e o limpar das lágrimas, vemos os Earth Wind and Fire - que ainda mexem, sim senhores - a cantar September. E outras pérolas do género.

E quando acaba, saímos satisfeitos. E muito bem dispostos.

E quinze dias depois bisamos. Isto, claro,quando "nós" somos EU.

Vão por mim; vão ver que, DE TODO, não se arrependem.

the-nice-guys-fr-01-670-380.jpg

Coragem ou cobardia? Existe sequer discussão?

Há uns dias atrás almocei com uma amiga que já não via há algum tempo. Pareceu-me um pouco abatida e deprimida, o que relacionei com o facto dos seus problemas na tiróide terem descolado, e os nódulos estarem bastante maiores, sendo que se preparava para fazer uma biopsia.

O triste disto tudo é que a vida da minha amiga está tão enrolada, tão cheia de nós e embaraços, que, quando lhe disse: "Calma, vais ver que vai correr tudo bem", ela olhou-me nos olhos, bem no fundo, e disse-me com uma tranquilidade misturada com tristeza, que me desarmou:

"Preferia que não".

Assim.

Fiquei a olhar para ela e em segundos acorreram-me à mente os 'N' casos que todos conhecemos, quanto mais não seja de ouvir falar, de pessoas que 'com a vida perfeita' se suicidam, semeando a perplexidade entre os que ficam.

A minha amiga confidenciou-me estar farta de lutar (conhecendo a história de vida dela, não posso deixar de entender), se sentir extenuada, e ter vontade de largar tudo, bater com a porta, mas não querendo magoar quem ama e sabe que a ama. Então, disse-me com uma lógica desarmante, uma situação terminal seria a solução perfeita: ninguém se sentiria abandonado, e ela poderia finalmente, descansar. Claro que seria doloroso e desesperante, mas com dor e desespero já ela tivera contato, e para mais, "nunca pensaria ir para o céu [é uma ironia da própria] a cantar o fandango e a tocar castanholas".

Fiquei colada à cadeira, a mexer o café sem conseguir encarar aqueles olhos claros que não se desviavam de mim. 

Dizer-lhe o quê? Incorrer naquele lugar comum de fazer um inventário do que ela tem de bom na vida - segundo a minha pessoa? Ou, pior, entregar-lhe numa bandeja aquele outro, sem qualquer tato, "não-digas-disparates" (e-não-digas-que-vais-daqui).

Pensei que dava tudo por um digestivo ou um ansiolítico. Levantei os olhos e encarei aquela mulher forte, e senti-me uma alforreca. Uma mulher que encarava a morte sem pestanejar. E eu a arfar por um calmante...

Respirei fundo. Devolvi o seu olhar profundo, e pus a minha mão sobre a dela. Depois de um silêncio cúmplice, disse-lhe:estou a aqui. E aqui estarei.

 

E juro que vou cumprir a minha promessa.

foto.jpg

 

Pág. 1/2