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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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04
Mar18

Três cartazes à beira da estrada - Corrida aos Óscares #9

Fátima Bento

Three billboards outside Ebbing Missouri.JPG

 

Three billboards outside Ebbing, Missouri é um filme que não é sobre nada do que parece. 

 

Mildred (Frances McDormand) aluga três cartazes que ficam numa estrada onde ninguém passa, com frases a inquirir o xerife Willoughby (Woody Harrelson) de porquê não terem havido desenvolvimentos no que concerne à violação e assassinato da filha, sete meses antes. A atitude de desafio da mesma vai pôr a pequena cidade de Ebbing a ferro e fogo.

Dixon (Sam Rockwell, numa performance soberba), é um policia preconceituoso, homofóbico e racista. No filme, desde inicio é-lhe atribuída a tortura de um afro-americano sob prisão, facto que não nega. Fê-lo porque ele é assim, e "no seu mundo" tudo se resolve com recurso à violência, mesmo que esta seja gratuita.

 

Três cartazes à beira da estrada nem sequer é só sobre os americanos; é sobre cada um de nós. É sobre aqueles que se agarram a todo o custo aos destroços de um naufrágio para não morrer afogados, quando até sabem que se colocarem os pés no chão conseguem erguer-se acima da linha de água - mas que para o efeito têm de enfrentar o que os impediu de o fazer mais cedo.

 

Os três cartazes que Mildred coloca na beira da estrada são uma forma de redenção aos seus próprios olhos por tentar fazer pela filha depois de morta o que não fez em vida - o carro que não emprestou ou o dinheiro para o táxi que não deu. É uma forma de evitar o espelho, de admitir que falhou.

 

A "redenção" de Dixon (renegada pelo realizador, alegando que a personagem é deliberadamente complicada e difícil*) leva-nos a pensar que ninguém é completamente bom, ou unicamente mau... há pessoas estragadas, mas que podem sempre surpreender-nos com algum tipo de comportamento positivo.

 

Três Cartazes à beira da estrada é um filme que nos faz ver a vida como ela é. Que faz cada um de nós encarar-se sem filtro. Que nos faz rir e imediatamente a seguir pensar porque é que eu estou a rir disto, é só triste. Segundo o realizador, este é um filme destinado a fazer-nos sentir antes de pensar*. 

 

[In Three Billboards outside ebbing Missouri,] the sadness is sadder, the jokes more outrageous, and the space between the two smaller. (Martin McDonagh)

 

 

Foi o primeiro filme que vi (excetuando Get Out, que estreou dias antes da 89ª Entrega dos Óscares), e dos nove, foi talvez o que me dificultou mais a análise. É um grande filme, um filme que nos fica na memória, e que apontei desde o primeiro minuto como o vencedor inequívoco da cerimónia de hoje.

 

Mas neste momento já não tenho tantas certezas... daqui a pouco mais de uma hora, as minhas apostas, aqui...

 

 *citações a partir de um artigo no The Guardian

 

04
Mar18

Update às 100 perguntas - duas semanas

Fátima Bento

20882821_FY5Av.png

Parte 2/10

 

Mais um Tag que atrasou devido à danada, mas que fica aqui posto em dia

 

     1. Eras capaz de fazer nu frontal para uma revista? Se sim, em troco de que valor?

Era. A questão, mais de que o valor a receber, era o tipo de foto... há fotos de bom e mau gosto.... de bom grado baixaria o cachet para poder ter uma palavra a dizer sobre a(s) foto(s)

 

     2. Qual foi a canção em que demoraste imenso tempo até perceberes que estavas a cantar a letra de forma errada?

Ih... não sei. Há uma musica, This is me, que quando me entusiamo digo reaching for the stars, em vez de reaching for the sun, mas sei e reviro sempre os olhos...

 

     3. O que é que te disseram na tua infância que te marcou negativamente e nunca mais te esqueceste?

Nem mereces a água que bebes. Saiu da boquinha da minha mãe e não terá sido a coisa pior que me disse, só a que me ocorreu, assim sem pensar muito.

 

    4. Já fingiste algum orgasmo?

Já, mas depois contei a verdade. Existem umas quantas razões que nos podem levar a fazê-lo, mas nenhuma é preferível a um sincero não era o mais importante; porque deixem-se lá de tretas, a viagem, quantas vezes, é melhor de que chegada ao destino?

 

     5. Pelo quê é que deixavas tudo? 

Por nós. Por mim e pelo meu marido. Pelos meus filhos, com reservas, que eles seguem o caminho deles, e têm muitos mais anos à frente deles de que nós.

 

     6. Voltarias a namorar com o teu primeiro namorado?

Muito provavelmente. Não me lembro de quem foi, mas não me marcou pela negativa, senão lembrava-me. Portanto se voltasse atrás, não vejo razão que me levasse a não fazer o mesmo.

 

     7. Já tiveste alguma experiência paranormal?

Já, aparentemente, sim. Mas a paranormalidade é algo que AINDA não foi explicado pela ciência. Tout court.

 

     8.Tens alguma tatuagem que gostasses de fazer mas que nunca tenhas tido coragem para?

A tatuagem que achei importante fazer, fiz. As próximas também hão-de ser feitas, tenho toda a coragem do mundo.

 

     9. Já tiveste sexo num primeiro encontro?

Não vou jurar, mas acho que não

 

    10.Qual é o primeiro alimento que te recordas de comer?

Papa de banana com laranja (sem bolacha maria, que lá em casa nunca puseram). Ainda hoje gosto.

 

Parte 3/10

 

     1. Na tua vida adulta, qual foi o valor mais baixo que já tiveste na tua conta bancária?

Sei que entrei no negativo. Nada que não tenha solucionado em horas, mas entrei no vermelhinho...

 

     2. Já algum suposto grande amigo te desiludiu a ponto de terminares a amizade?

Já me afastei, mas nunca terminei uma amizade. Parto do principio que pode haver uma explicação que desconheça.

 

     3. Se fosses um fruto qual serias?

Ahahahah... uma manga. Corta-se com algum cuidado, mas é sempre dura de roer à volta do caroço...

 

     4. Se tivesses que participar na Casa dos Segredos, irias entrar com que Segredo?

Não iria. Mas está bem, pronto, fui uma menina da mamã, adorada até à medula por puro altruísmo. Ou é suposto dizer a verdade? É que nunca vi o programa...

 

     5. Imagina que estás a concorrer ao Master Chef. És líder de equipa e por causa do teu comando a tua equipa é a derrotada. Tens o poder de escolher se queres participar numa prova eliminatória ou enviar um colega. O que farias?

Ia custar-me horrores, admito. Mas participava na prova, que gosto de assumir a responsabilidade pelas cagadas que faço.

 

    6. Estás a dormir completamente nua. De repente, um bando de bombeiros entra de rompante no teu quarto porque o prédio está a arder. Qual seria a tua primeira reação? 

Procurar o roupão para não sair para a rua nua. Se não encontrasse, parabéns (ou pêsames) a quem me visse como vim ao mundo.

 

     7. Qual foi a coisa mais tonta que fizeste, sabendo de antemão que não ia correr bem, mas mesmo assim fizeste e não correu bem?

Levei o meu filho, na altura com dez anos, comigo na montanha russa do Indiana Jones (quando ainda se andava de costas), porque achei que ele ia gostar, mas a pensar isto não vai dar certo. Não deu.

 

     8. Qual era a tua paixoneta de infância?

O rapaz loirinho dos Pequenos Vagabundos...

 

     9. Qual seria a pior forma de morreres?

Queimada, antes de poder desmaiar por inalação de fumo.

 

  10. Qual foi o período máximo de tempo que mantiveste a tua árvore de Natal montada após o término das festividades?

É mais o contrário... já não a faço há dois anos...

 

Voilá ! E eis que estou em dia!

 

03
Mar18

Chama-me pelo teu nome, Corrida aos Óscares #8

Fátima Bento

Call me by your name.JPG

 

Diz-se que se deve deixar o melhor para o fim, não é? Muitas vezes os planos saem furados, mas desta vez, saiu-me melhor o despacho que a encomenda...

Call me by your name foi o o nono e último filme candidato que vi. E que filme.

 

Nos anos 80 um arqueólogo/historiador, Dr Pearlman (Michael Stuhlbarg) contrata um assistente americano, Oliver (Armie Hammer) para ali passar o Verão enquanto o ajuda no seu trabalho. Elio (Timothée Chalamet, absolutamente fantástico!), de dezassete anos descobre, naquele Verão a sexualidade e a emoção, com tudo o que lhe está ligado.

 

Chama-me pelo teu nome, passou de um nome num cartaz com fundo azul para o terceiro melhor filme que vi para as estatuetas. A história é contada com uma ternura para lá de perfeita. Existe um pudor, uma contenção, uma verdade no que o filme mostra, que nos faz sentir o que poucos conseguem. Chapeau a Luca Guadagnino. Chapeau também a André Aciman, autor do livro (que já está no meu ereader, à espera de vez para ser lido) e a Jeremy Irons pela adaptação do mesmo.

 

Dificil pegar neste tema, nesta história e fazer um filme melhor. Não fora o papelão de Gary Oldman, e eu estaria a torcer por Chalamet com unhas e dentes.

 

Quando falo nas cenas que me ficam de alguns dos filmes deste ano, o diálogo entre o pai e o filho, já perto do final da película, deixa-nos a todos fora de pé...

 

Right now you don't want to feel anything. You might not ever wanto to feel anything(...). In my place, most parents would hope the hole thing goes away, pray their son's land on their feet, but I am not one of those parents. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster, that we go bankrupt by the age of 30, and we have less to offer each time we start with someone new. But to make yourself feel nothing, so you have not to feel anything, what a waste...

(...)Right now there's sorrow, pain - don't kill it, and with it, the joy you felt.

 

Haveria tanto, mas tanto mais a dizer sobre este filme; talvez um dia o faça, provavelmente quando acabar o livro. Por ora, basta-me a beleza que me arrebatou há umas horas atrás, a ternura, as recordações que evocou.

 

Fico-me com o final do filme, e o cambiante de emoções no rosto de Elio debruçado sobre a lareira. Se isto não é de grande ator, não percebo nada de cinema...

 

03
Mar18

Cinco coisas boas esta semana

Fátima Bento

five.JPG

 

Esta semana foi um pouco corrida: so much to do, so little time... mas a vida tem maneiras de nos fazer abrandar.

Grande vitória (que não quero cantar antes do tempo) tem sido conseguir escrever e postar as criticas aos nove filmes candidatos... faltam dois, um será para hoje, outro para amanhã... e depois, então, mando foguetes - e faço as minhas previsões. Contem com um post sobre a entrega antes de me deitar na madrugada de segunda (de resto, como tenho feito nos últimos anos - e a adrenalina deve estar a mil...)

Bom, mas vamos então às cinco coisas boas da semana útil que acabou ontem...

 

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Fui para Lisboa de guarda chuva atrás (coisa que detesto, antes apanhar chuva!). As ruas estavam todas molhadas, mas não choveu enquanto andei nelas. Cheia de medo que estava da recaída (que é sempre pior que a gripe e pode deixar sequelas), pude ficar tranquila. E voltei à terapia - duas semanas sem ir é muito tempo... foi como rever um amigo.

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Vi um filme fabuloso, The Phantom Thread/ A Linha Fantasma. Não estava à espera de ficar tão positivamente surpreendida. Ainda hoje se passeiam momentos na minha memória e é isso que faz de um filme uma obra única.

 

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Fiz um jantar que saíu como se nunca o tivesse feito antes, estranho, estranho. Mas estava agradável; isto é, ninguém se queixou e não sobrou nada... a culpa foi de um ingrediente ter uma marca que não fora usada antes, e de eu ter colocado pasta de alho diretamente do frasco, sem usar uma colher. Ficou estranho, mas faz de conta que era outra receita... nota: caril de lulas e gambas é dos pratos que faço melhor...

thu.JPG

Comecei um livro fantástico  - cuja leitura tenho de interromper porque estou em cima do prazo para enviar um livro para o leitor seguinte e tenho de o ler esta semana - que me tem divertido tanto! Não é uma comédia, mas podia ser... Fogo e Fúria, de Michael Wolff há-de sempre parecer-se com uma coleção de piadas secas... que não são piada. De ler - MESMO! - mas com uma imensa dose de ironia - que aliás é inevitável...

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Choveu - como de resto, durante toda a semana. Estando com uma telha dos diabos, saí, fui colocar uma película de proteção de gel nova no telefone, já que a minha se tinha virado num canto, apanhado pelos dos gatos e fibras da camisola e estava com um aspecto blhéc, e fui ao Aldi (é o meu supermercado favorito). Quando voltava parei numa passadeira, numa descida... e levei com um carro em cima. E agora dizem vocês, mas isto não é sobre cinco coisas BOASÉ. Primeiro: ninguém se magoou, nem o meu pescoço, apesar de dois embates - o Rocinante saltou com o primeiro, parou aí um metro à frente, e o outro continuou a deslizar e bateu segunda vez. Fiquei com a traseira metida dentro em V, e com o pára choques partido (mas inteiro) como é óbvio. Mas com a mala a abrir - mas não tenciono abri-la até o carro ser arranjado - e as luzes todas a funcionar. Segundo: ninguém se enervou a ponto de elevar a voz. Quem me bateu tinha a idade do meu filho, e chamou a mãe que veio preencher a participação amigável (acho que é assim que se chama). Estivemos ambas dentro do Rocinante a trocar as informações, tudo muito calmo - a mãe quando chegou vinha muito nervosa, mas no final já ia bastante mais tranquila. Ninguém partiu óticas nem farolins, e espero que o motor do carro do rapaz não tenha de ser puxado, o que é uma gaita... despedimo-nos e cada um foi à sua vida: agora participamos às seguradoras, e é deixar a coisa seguir os trâmites normais.

 

Portanto foi uma semana positiva.

 

- agora, acho que tenho de começar a anotar as coisas boas de cada dia, no próprio. Hoje foi mais complicado escrever isto de memória que nas outras semanas... será a bendita da PDI? 

02
Mar18

Lady Bird - Corrida aos Óscares #7

Fátima Bento

Lady Bird.JPG

 

Em 2009 a Academia alargou o número de nomeados a melhor filme por forma a aumentar as audiências à transmissão televisiva; para isso, foram tomadas medidas para que se apostasse na diversificação do género dos os até dez filmes nomeados, por forma a atrair fãs dos mesmos, que de outra forma não se interessariam pela entrega de prémios.  

 

Por esta ordem de ideias surgem filmes como Lady Bird entre os nove magníficos deste ano. Este filme conta a vida de uma adolescente com aspirações artísticas, que quer sair da zona em que vive e perseguir os seus estudos superiores numa grande cidade como Nova Iorque. Acompanhamos os seus momentos de rebeldia, as suas discussões com a mãe (Laurie Metcalf), peça central no filme - mais de que Saoirse Ronan que interpreta a personagem que lhe dá o titulo - situações normais numa relação mãe-filha adolescente.

 

Existe um sem número de fãs deste filme que o encaram como a história de uma rapariga a perseguir um sonho e a fazer tudo até o conseguir, uma (apesar de tão) jovem cheia de força em realizar o que deseja, contra ventos e marés até o conseguir, por mérito próprio. Uma jovem mulher admirável, portanto. E aqui reside o contrassenso da mensagem: sem o apoio do pai, iria esta para Nova Iorque? Como assumi-lo apenas como uma vitória sua?

 

Se este ano a escolha dos nove a concurso  provoca algum espanto, em Lady Bird atinge o cúmulo do mas que raio e deixa-me a pensar como é que um filme tão comum pode estar na corrida ao Óscar - com nomeações para melhor filme, melhor realização, melhor atriz, melhor atriz secundária, melhor argumento original. São muitas nomeações para um filme vulgar, com uma história banal e um final previsível. Mas a Academia deve manter-se coerente, e se vai nomear filmes diversos, não se pode ficar pelo titulo entre os candidatos a melhor filme e tem de dividir para conquistar...

 

Lady Bird é o único filme de que não gostei, dos nove, e que não consigo - de todo - entender o porquê de ter sido colocado na posição em que se encontra.

 

02
Mar18

Pessoas que gostaria de conhecer ou ter conhecido

Fátima Bento

S09.JPG

Segurem-se.

 

       Adolf Hitler - porque um dos maiores enigmas da História é a cabeça daquele homem. Dava tudo para ter uns momentos para poder tentar entender como funcionava... já as bestas sob a sua alçada, perpetradoras de atos sádicos e inexplicáveis, não me despertam o mínimo interesse.

 

      Mahatma Ghandi - para aprender como ser tão tranquilo face a tantas adversidades;

 

      Jesus Cristo - foi uma das pessoas mais inesquecíveis, emblemáticas e carismáticas da história...

 

       Donald Trump - mais uma cabeça que gostava de analisar... embora duvide que valha a pena.

 

Neste TAG participam para além de mim, a 3ª face, a Ana, a Ana Paula, a Bruxa Mimi, a Catarina, o Carlos, a Charneca em Flor, a Daniela, a Desarrumada, o David, a Gorduchita, a Happy, a Hipster Chic, a Isabel, a Mãe A, a Mariana, a Maria Mocha, a Marquesa de Marvila, a Mimi, a Paula, o P.P, a Sweetener, a Sofia, a Tatiana, a Tita e o Triptofano 

(nomes ordenados alfabeticamente)

Espreitem o que cada um de nós vai respondendo ao longo do ano também podem espreitar pelo tag  52 semanas

 

 

02
Mar18

Momento "lágrima no canto do olho" do dia, e porque não há ninguém na corrida que provoque esta emoção?

Fátima Bento

 (vejam isto em full screen)

 

Já aqui disse que isto este ano não é para ganhar. Mesmo. No entanto poderia haver qualquer coisa que nos desse um arrepio, um frio na barriga, uma canção que pensássemos olha que bem que ficava naquele palco... lamentavelmente, a provocar estas emoções, não há nada.

 

Previsões? Com o Diogo fora na corrida, aposto as minhas fichas todas no Janeiro, porque me enternece de alguma forma, e é tranquila e calma. As fichas todinhas. Se ganhar qualquer outra, vou sentir-me francamente desconfortável... este festival pautou-se por uma imensa falta de qualidade - será que os compositores este ano entraram em pânico quando foram convidados? A imagem que se cria quando fecho os olhos, é cada um dentro de um carrinho de choque de feira, às voltas, sem saber se avança, se recua, nem se vira à direita ou à esquerda... bem sei - ou calculo - que isto do festival seja um campo tão aberto que deixa qualquer um sem balizas. Mas eles só têm de ser fiéis a si, e esquecer o barulho das luzes (que esqueceram praticamente todos, ao menos isso) e darem o seu melhor.

Recuso-me a acreditar que num país onde se faz música tão boa, só uma compositora tenha tido intuição para a canção que nos trouxe aqui...

 

Ok, em Lisboa estamos à espera do que virá de Guimarães... e do resto da Europa - e arredores...

01
Mar18

A Forma da água - corrida aos Óscares #6

Fátima Bento

The shape of water.JPG

 

A filmografia de Guillermo Del Toro é povoada por monstros, os seus monstros, como se lhes refere. E em todos os seus filmes ele mostra o monstro e lida com este como sendo o outro, com uma entidade própria e exterior à sua enquanto realizador - e pessoa.

 

Em A forma da água, Guillermo dá o salto e atinge um breaktrough: no filme o monstro  é apresentado de dentro para fora, é interiorizado de uma forma completa e comovente por parte do realizador. Talvez também por isso, por assumir que as criaturas fantásticas que povoam o seu imaginário fazem parte de si, o realizador cria uma obra de arte, com todas as letras.

  

The Shape of Water é um conto de fadas. Eliza (Sally Hawkins) é uma mulher de limpezas, muda por lhe terem cortado as cordas vocais quando ainda era bebé de berço, e do que guarda as cicatrizes. Uma mulher nada frágil, que assume a sua sexualidade sem que para isso sinta falta de parceiro e divide os seu tempo livre com o vizinho Giles (Richard Jenkins), pintor com quem partilha a paixão por musicais antigos.

Quando um ser anfíbio é levado para o seu lugar de trabalho, um laboratório secreto do governo americano em plena Guerra Fria, pelo verdadeiro monstro do filme, Richard Stricklannd (Michael Shanon), Eliza apaixona-se. De alguma forma esta sente-se, mais de que em alguma outra altura, escutada - e correspondida.

 

Este filme, em que a realização tem um papel ilusoriamente fácil, é dirigido com batuta precisa por Del Toro. Nada aqui acontece por acaso, e se me parece que a cena no diner está um nadinha forçada (com certeza muitos discordarão), o momento em que o dr Hoffsteler (Michael Stuhlbarg) se dirige ao gabinete de Strickland, e este se encontra a ler o livro "The Power of Positive Thinking", de Norman Vincent Peale*, é um dos pormenores mais irónicos do filme...

 

É-me difícil falar desta película de forma imparcial, porque estou enterrada nele até ao pescoço: por mim ganhava as 13 estatuetas, e só porque não está nomeado para mais. Receio, no entanto, um desfecho diferente, embora vá estar deste lado a fazer força para que a coisa vire a favor daquele que para mim é O filme deste ano.

 

As cenas finais do filme fazem com que eu não consiga falar quando o filme acaba, e quando o tentei fazer, das duas vezes que o vi, a voz saiu embargada. Um final em que o amor conquista tudo (expressão referida pelo critico cinematográfico Richard Brody no The New Yorker de hoje - leia aqui as suas previsões para os prémios do próximo domingo)

 

Numa palavra: SUBLIME

 

Nota: Este post seria publicado ou amanhã ou no sábado, por ser um dos dois filmes mais fortes destes Óscares. No entanto, e dado que este é o post nº1000 achei por bem publicar a minha critica sobre aquele que para mim é o mais belo filme deste ano. Porque eu vou sempre gostar de contos de fadas, tenha a idade que tiver...

 

 

* Norman Vicent Peale é o autor do livro O poder do pensamento positivo, (entre outros) editado pela primeira vez em 1952, época em que a psicologia, psicoterapia e psicanálise davam os primeiros passos nos Estados Unidos. Este livro que lançou controvérsia, promovia a substituição de pensamentos negativos por positivos, por forma a tornar a vida mais feliz. Daí a ironia...

Peale, que não tinha competências médicas, terá apesar disso sido o pai da  psicologia positiva - a auto-ajuda já fora criada por Dale Carneggie em 1936, com a edição do livro Como Fazer Amigos e Influenciar PessoasMais sobre Norman Vincent Peale, aqui

 

01
Mar18

Os meus 1'36'' de glória... antes do esborrachamento da minha dignidade

Fátima Bento

Em pirralha fui superprotegida. Quando andava na primária a mãe e a avó achavam que eu não podia sequer sonhar em apanhar frio e era vestida com duas ou três camisolas interiores, mais outras quantas por cima, casaco de malha e casacão (na altura tanto quanto sei ainda não tinham nascido os kispos). 

 

Ora, no intervalo, era ver os meus colegas a correr, a brincar às escondidas e à apanhada e eu, qual boneco michelin, a sair a porta, sentar-me num muro e a ver os outros correr - eu lá me conseguia mexer dentro daquilo tudo??? E ainda por cima era tudo muito justinho ao corpo, que era para ficar mais quentinha, e eu bem queria levantar os braços... mas mal conseguia afastá-los do corpo. Um pequeno pesadelo (de proporções épicas). 

 

Ora paginas tantas acabo a 4ª classe e vou para o 1º ano da preparatória (atuais 4º e 5º anos), sem estar habituada a fazer qualquer atividade aeróbica (OU a brincar, que fosse!) a jogos de grupo que envolvessem competências físicas, quando me apresentam as aulas de Educação Física: trauma e tormento (grande título, quase tão bom como Fogo e Fúria): ainda tenho pesadelos com o cavalo e o plinto (não me lembro do coiso com esse nome, mas está bem). E a trave. Arre.

 

E depois haviam as aulas no exterior com os desportos de grupo. Como diz a Luísa Sobral na musica João

 

...e nunca sou escolhida/quando fazem equipas /para o futebol

se alguém fica doente/entro para suplente/e fico sentadinha a apanhar sol

 

Era assim, era. Até que que os suplentes adoeceram e eu tive de jogar.

Futebol.

Com dois pés esquerdos.

 

Vocês imaginem lá, se conseguirem: eu, e a bola a mal me tocar nos pés, sempre a ser roubada. Até que tomo posse de bola, faço uma finta, e avanço para a baliza, sem medos.

A adrenalina corre-me nas veias. Sou tão rápida, tão imparável, que ninguém sequer me tenta tirar a bola. Eu avanço para a baliza. A guarda redes  (ainda me lembro do nome dela, Cristina) faz um esgar que no meio da minha nuvem de omnipotência desportivófutebolistica assumo como medo. Medo puro, porque eu estou imparável, sou a última coca-cola do deserto. Em frente à baliza, remato com força. Ela nem se mexe. Eu fico eufórica: Pulo grito, ajoelho-me no chão, preparo-me para desatar a correr campo fora para celebrar a vitória, mas ao virar-me, estranho: todos, mas TODOS os meus colegas estão colados ao chão E a olhar para mim de boca aberta.

Ao inicial ah-ah, sou boa ou não sou? que me passou pela cabeça, seguiu-se um porque é que eles estão todos a dizer não com a cabeça devagarinho? Viro-me para trás, para a baliza, onde a bola jaz junto à rede e a Cristina diz-me: - a baliza não era esta.

 

Esta é a tua!!!

 

dafuq.jpg

 

Esta história ainda hoje me faz chorar a rir. Não me lembro se a humilhação que senti foi avassaladora, ou se foi assim um pequeno espirro. Lembro-me que me trocaram imediatamente pela guarda redes, e que cada vez que alguém se aproximava da minha baliza para rematar, eu me encolhia a um canto com medo de levar com a bola e doer. Perdemos por tantos quantos os colegas que se dirigiram à baliza com a bola nos pés.

 

Mas uma coisa que nunca esqueci foi aquela sensação de invencibilidade total, aquele peito cheio, aquele prazer enorme em conseguir fazer uma coisa que se me tinha desde sempre afigurado impossível. Foi asneira, foi, meti uma autogolo de um lado do campo ao outro, mas lá que me senti a melhor do mundo senti.

 

E isso ninguém me conseguiu tirar!

 

Até hoje!

 

- e o que me tenho rido sozinha cada vez que me lembro! Este foi um trauma em potencial que não pegou!

 

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