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... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

Homenagem

Desafio caixa de lápis de cor

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Ela queria morangos vermelhos, com certeza, ela adorava os pequenos frutos adocicados, e ele ia levar-lhos arranjados, dispostos numa bonita taça, enfeitá-los-ia com uma chiffonade de manjericão, fina como fios de cabelo, e ela ia adorar. 

 

Tendo pegado na embalagem com morangos - tão vibrantes, tão bonitos! - dirigiu-se à caixa para efetuar o pagamento. Continuou a repetir para si que ela ia ficar tão contente quando os visse, num tabuleiro com o individual de algodão, as bolinhas numa cor tão viva a combinar com os frutos, e sentiu um  quentinho a espalhar-se no peito quando imaginou o seu sorriso e o brilho nos seus olhos. Ela pegaria num morango e segurá-lo-ia entre o indicador e o polegar - optava sempre por deixar o garfo, adorava comer com as mãos quando podia - e levá-lo ia à boca. O morango contrastaria com a alvura dos seus dentes e quando o trincasse o suco tentaria escorrer pelo lábio inferior. Ela riria e limparia a gota cor de sangue com o dedo, lambendo-o em seguida. 

 

Declinou o saco - vai precisar de saco?, com um sorriso mecânico, chapa quatro, tão diferente do sorriso dela que lhe acendia estrelas nos olhos - abandonando a mercearia com a caixinha nas mãos. Ela não concordava com o uso e abuso dos sacos em plástico para transporte de compras. Um dia explicara-lhe que aqueles ecológicos que se vendiam em todos os hipermercados advinham da reciclagem de garrafas plásticas. Na altura duvidou, já que ela se estava a basear na informação dada por uma cadeia inglesa, mas ela tinha argumentado que não fazia sentido que cá a "receita" fosse diferente. Aceitara com reservas e com pouco interesse. Agora, no entanto procurava as suas palavras na memória, sôfrego da sua voz, das suas opiniões.

 

Entrou em casa e pousou o correio e o telemóvel na mesa e as chaves no vide poche que ali se encontrava desde sempre. A casa estava fria e silenciosa e um arrepio percorreu-o, silencioso e rápido. Afastou a sombra, rapidamente, e avançou para a cozinha. Colocou os morangos num passador de rede e fez a água correr sobre este, agitando-o. Ela estaria talvez na banheira, lá em cima. Sempre adorou banhos de imersão, pensou sorrindo - e de repente ocorreu-lhe que poderia ter comprado uma garrafa de espumante, usaria alguns morangos e levar-lhe-ia um mimosa de morango - ela agradeceria-lhe com um brilho maroto nos olhos... e as comissuras dos seus lábios levantaram-se com outras recordações invocadas... o calor da sua pele, as gotas de agua que escorriam do seu cabelo, o abraço infinito, o encaixe perfeito dos seus corpos...

 

Hoje faltara-lhe o beijo ao entrar em casa, o salto gracioso que faria do sofá onde estivera a pintar as unhas dos pés, o verniz esquecido na mesa de centro. Teria corrido para ele como tantas vezes e tê-lo-ia enlaçado num abraço próximo enquanto os seus lábios se tocavam. Afastou um pensamento cinzento que pairava sobre si, e pensou nela lá em cima no seu banho demorado, espuma até às orelhas, como dizia, talvez uma ou duas velas acesas, a música a tocar convidando ao relaxamento total. 

 

Ouviu a campainha tocar mas omitiu o seu chamado, ocupando-se dos morangos. Deitou-os numa tigela, pegou na faca e começou a retirar o pedúnculo, passando-os para uma outra taça, mais pequena, onde os foi dispondo em pirâmide. Ocupado a tarefa de forma quase meditativa apercebeu-se que quem batia à porta insistia, mas não lhe apeteceu abrir. Manteve-se naquele espaço, praticando uma espécie de atenção plena.

 

Empilhou as folhas de manjericão, e enrolou-as cuidadosamente em seguida, apertando-as.Pegou na faca e cortou o rolinho em fatias muito fininhas. Espremeu umas gotas de limão por cima dos morangos - o limão ia tão bem com o morango, um casamento celestial, pensou. Não era por acaso que as limonadas de morango - que ele insistia serem com não de, ao que ela respondia com uma das suas gargalhadas cristalinas, verdadeira musica o som do seu riso - tinham sido as primeiras limonadas de outra fruta que não apenas o morango a vingarem na sua preferência.

 

Tinha começado a polvilhar os morangos com a chiffonade quando ouviu a chave rodar na fechadura da porta, e adivinhou quem era antes de se voltar. Quando ouviu a voz da irmã a chamar o seu nome gritou na cozinha! sem se  voltar. Ouviu os saltos desta no corredor numa cadência acelerada que denunciava a sua ansiedade. Quando se virou com a tigela na mão, a irmã dirigia-se para ele, pálida, com uma questão a bailar-lhe no olhar aflito.

 

Sentiu que algo estava errado, e tinha a certeza de que sabia o que era, mas não queria pensar nisso agora, tinha de levar os morangos lá acima, antes dela sair do banho, fazer-lhe a surpresa que tinha estado a preparar com tanto carinho. Quando lho disse, a irmã deixou escapar um soluço sofrido, e ele pensou que o som que lhe escapou parecia o de um gato bebé a miar baixinho. Agarrou-lhe no braço Francisco tu não estás bem Francisco, e ele sacudiu-o, tinha mesmo de entregar os morangos, tinha mesmo... a irmã abraçou-o e por cima do ombro desta viu o cunhado que entrava com ar sofrido então, cunhado... e de repente a verdade atingiu-o. 

 

O quarto estava escuro, e só se ouviam os aparelhos que garantiam que tudo se passava como era suposto, e todos os seus órgãos cumpriam a sua função. Encontrava-se sentado ao lado da cama segurando a mão dela nas nas suas, quando os alarmes começaram a tocar numa cacofonia assustadora. Foi então que entraram enfermeiros seguidos do médico, e ele foi levado para fora do quarto. Não sabia quanto tempo tinha passado, se trinta segundos, trinta minutos ou trinta horas, mas quando o médico saiu e se dirigiu a ele, ouviu o lamento muito da praxe e quase deitou o homem ao chão entrando intempestivamente no quarto. Ela estava no mesmo lugar e ele acreditou que o médico estava enganado, que era tudo mentira... puxou da cadeira e voltou a pegar-lhe na mão. Acabou por chamar o enfermeiro e pediu-lhe um cobertor extra, a mulher estaria certamente com frio... este colocara-lhe a mão no ombro e dissera-lhe que tinham de a levar. E foi a conter as lágrimas que deixou o hospital, antes que a irmã tivesse tido tempo de chegar. 

 

Pelo caminho convenceu-se de que nada tinha acontecido, e fora à mercearia comprar os morangos. De repente sentiu-se exausto e a realidade agigantou-se engolindo-o num trago. A tigela bateu no chão e ele desfaleceu sendo prontamente seguro pelo cunhado. O pranto desatou-se e soluços convulsivos agitaram-no, as mãos contorcendo-se numa angustia sem paralelo.

 

E no chão ao seu lado estavam os cacos da tigela, os morangos espalhados no chão, naquela que fora a última homenagem aquela que foi o amor da sua vida.

 

- Também deste desafio:

Real

Inesquecível

Rosa

Narciso

Ela

Tua

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a Marquesa a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

Mas qual vermelho qual quê...

... canudo...

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As últimas 24 horas bateram recordes recentes de dificuldade acrescida. A insónia que me acometeu esta noite - li até às duas, apaguei a luz, brinquei ao frango no espeto* até às quatro, hora a que me dirigi à casa de banho, literalmente já a subir paredes... e continuei a rodar, olhos esbugalhados cravados onde sabia estar o teto... às seis foi a vez do marido se levantar e uma meia hora depois voltei a segui-lhe as pegadas - mais um bocadinho e mandava instalar uma porta rotativa no lavabo, eishhh!! - e não, a insónia não teve nada a ver com as idas à casa de banho; estas deveram-se, isso sim, ao nervoso miudinho de varar a noite de cauda a rabo (raio de expressão que não faz sentido nenhum)...

 

Já nascia o dia quando, deitada de lado e com a Babette em cima de mim - rabo na minha cintura, bracitos sobre as minhas costelas - me senti a deslizar para os braços do Morfeu... e às dez, tungas, os três felinos em cima da cama a esperar pacientemente pelo meu despertar, e o meu olho a abrir espevitado. Nem quatro horas dormi, canudo!

 

 

E então a esta hora em que devia estar a escrever vermelho, nem pensar consigo (seja lá na cor que for), pelo que desisto, não há possibilidade de escrever mais que este texto. Por isso amanhã, vermelho, nunca antes das três - e estou a correr um risco valente em colocar uma hora no meu horizonte periclitante. 

 

Estou, claramente, velha. Ele é taquicardia, ele são suores, o raciocínio embotado...

Amanhã. Amanhã já hei-de estar para as curvas. Hoje não estou, de todo, em mim...

 

   

      * é quando a gente roda e roda na cama, tal qual os frangos que assam nas máquinas de infravermelhos...

 

Comentários são abraços

que até dispensam distanciamento social

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Penso que seja sabido, no entanto afirmo - ou reafirmo - que adoro receber comentários. Quando recebo a notificação e os leio, quando venho até aqui para responder, sinto aquele quentinho bom... não tenho problemas em assumir que sou uma palerma dos afetos, dou-lhes uma importância imensa, chego a achar que projetos como este não fazem sentido sem este entra e sai de pessoas que tem coisas para dizer ou um abraço ou beijo para deixar. 

 

Não faço qualquer distinção entre os comentários que me deixam, todos e cada um me alegram a alma! Mas tenho de vos contar que na quarta feira, um dos muitos que deixaram ao conto da semana, me emocionou.

 

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E explico porquê: não foi só porque a Maria quis voltar, e voltou mais tarde (o que foi tão bom), nem foi pelo agradecimento, estando implícito de que gostou do texto (e isso deixa-me tão feliz)... foi por ter dito não sei o que escrever e ainda assim o ter escrito e deixado ali

 

Quantas vezes já lemos um post, pensámos a mesma coisa e saímos do blogue sem dizer nada? Foi fantástico ler o comentário da Maria porque teria sido tão fácil não escrever, e ainda assim, deixou o abraço da vontade e um beijinho na despedida.

 

Quando voltei a pegar no blogue, este ano, sinceramente não sabia ao que vinha. Sem saber muito bem como, gerou-se esta interação maravilhosa entre pessoas que têm uma paixão comum - a escrita - e de certa forma passámos todos a fazer um bocadinho parte das vidas uns uns dos outros. Isso, meus queridos, é uma experiência mais que gratificante. Mais de que a notoriedade que muita gente procura atingir através do blogue, isto que se criou é o que sempre procurei e não sabia.

 

A essência deste blogue tornou-se claramente a interação entre mim e os que por aqui passam. E tenho noção de que, no dia em que todos se cansarem de cá vir, de comentar - comigo e uns com os outros (é tão bom quando isso acontece!) - me vou sentir perdida, vou ter de repensar tudo, até o espaço que ocupo na blogosfera, e reinventar-me. Mas se, ou quando, isso acontecer, vai ter valido tanto a pena esta viagem fantástica e toda a companhia que me têm feito!

 

E porque, sem todos os que aqui passam, esta felicidade feita de abraços, beijos, carinho e palavras não existiria, quero - mas quero mesmo, está bem? - agradecer a todos os que têm deixado abraços na caixa de comentários. Tendo por base os comentários da última semana, quero de agradecer e abraçar a Cristina, a Ana,MissLollipop, a Maria A., a Gaivotazul, a Rute, a Célia, Isabel, a Luísa, a Ana Mestre, a Choc,a Anita, a Charneca Em Flor, a Bii Yue, a Peixe Frito, a Concha, Marquesa, o José da Xã, a Maria,Margarida, o Último, a Olga, a Tri, a Aqui Há Coração, tal como o João-Afonso Machado, a Marta e a  Rita Pinto, não esquecendo anónimos e quem comentou sem link.

 

Obrigada a todos por pintarem este lado da minha vida com todas as cores e matizes. E se não consigo ir a todos os vossos blogues espalhar abraços, levem já um daqui, com a promessa de que pela minha parte vou tentar organizar-me para conseguir fazê-lo mais amiúde.

 

Porque eu Posso #16 - Texto da Ana de Deus

7 anos de porque eu posso

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"quando sai da casa onde cresci, fui sozinha construir a minha vida a trezentos quilómetros de distância. tinha vinte e seis anos. senti uma certeza inabalável de que era o passo certo e nunca a questionei. a minha mente estava serena. continuo segura de que tudo tinha de acontecer como aconteceu. estou infinitamente grata por tudo. mesmo pela minha desordem esquizoafectiva se ter revelado quando eu tinha trinta e oito anos. eu acredito que a Vida cuida sempre. acredito, por experiência, que todas as vezes que peço ajuda ela manifesta-se. raramente é o que eu estava à espera, mas é o melhor para todos. para mim, acreditar que posso, são saltos de fé."

 

E será tão bom, Ana, ter essa certeza no coração, essa esperança que te enche a alma e te apazigua nos momentos menos bons... muito obrigada pela partilha 

 

Por aqui andaram, nas últimas quatro semanas, os textos daqueles que decidiram festejar os sete anos deste blogue. Além deste, da Ana De Deus, foram publicados textos da Bii Yue, da Célia, da Charneca Em Flor, da Cristina Aveiro, da Isabel,  do João-Afonso Machado, do José da Xã, da Maria Araújo, da Marta, da MissLollipop, da Rute, do Último, e da Rita Pinto, da Inês (via FB) e da Helena (via FB). 

 

Depois dos contribuitos de todos acho que devo também dar o meu, por isso na próxima segunda feira publicarei o meu texto sujeito ao tema porque eu posso.

 

Para todos, um excelente fim de semana 

 

Vermelho bate-bate-coração

Brainstorming da cor vermelho

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Semana onze, meus amores, semana onze! E não é que o tempo passa a correr? Eis-nos chegados ao vermelho, cor...

 

  • da maçã da branca de neve;
  • dos morangos;
  • da melancia;
  • das cerejas...

 

E já chega de fruta. O vermelho remete-nos para

 

  • a raiva, a fúria;
  • o alegado temperamento quente das ruivas;
  • a sensualidade;
  • a prostituição (red lantern district)...

 

Mais coisas que me ocorrem

 

  • os números dos relógio-despertadores de há uns anos atrás;
  • os vestidos das sevilhanas;
  • o verniz de unhas que mais gosto (vermelho, não encarnado...):
  • a cor das rosas mais bonitas;
  • malaguetas;
  • sangue;
  • Benfica;
  • bagos de romã (eu tinha dito que chegava de fruta, não tinha?)
  • rubis...

 

E então vamos lá a ver o que vos ocorre a vocês... assim, Olga, MarquesaConchaA 3ª FaceMaria AraújoPeixe FritoImsilvaLuísa De SousaMaria, Ana D., CéliaCharneca Em FlorMiss LollipopAna MestreAna de Deus,  Cristina Aveirobii yue, José da Xã e João-Afonso Machado, cheguem-se aqui à minha beira e desvendem o que o vermelho vos faz lembrar... coisas boas suponho

 

Então vamos lá:

três,

dois,

um...

 

 

- é aqui em baixo, como de costume 

 

Porque eu Posso #15 -Texto da Rita Pinto

7 anos de porque eu posso

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"No verão de 2017 e antes de entrar no mercado laboral percebi que tinha que fazer algo para sentir um pouco o meu contributo para um mundo melhor.

 

Comecei a pesquisar em organizações, sites, missões... e surgiu a oportunidade!

Grécia foi o destino escolhido!

 

A 1 de julho de 2017 aterrei em Atenas num campo de refugiados sírios de várias idades!

Impossível descrever a experiência vivida, as histórias de vida, os momentos partilhados. Bebés, crianças, jovens adultos com momentos de vida marcantes, sofredores de uma guerra que não escolheram e onde sem decidirem foram colocados perdendo os seus direitos, conquistas pessoais e vida que levavam até aí.

 

Foi um mês tremendamente enriquecedor, onde me foquei em perceber o outro lado, ou seja, as dificuldades por que passam tantas pessoas neste mundo.  

 

E onde dei valor a cada oportunidade e coisas que ganhei ao longo da vida.

 

Se o puderem fazer uma vez na vida, façam!"

 

Obrigada, Rita por nos fazeres acreditar que, com jovens como tu, o futuro não será tão cinzento como às vezes nos parece. Acredito, sinceramente, que deve ser fantástico aprender e crescer com as histórias de vida com que te deparaste. Bravo

 

Amanhã publicarei o último texto subordinado ao tema "porque eu posso" - e não  vale a pena fazer suspense, porque só falta ela: o texto de amanhã é da autoria da nossa Ana de Deus. Segunda feira, num extra, publicarei o que EU fiz porque eu posso. Passem por aqui para ler ambos!

 

Terça feira será o dia em que lanço o novo giveaway: O livro mistério - de abril.

 

Até amanhã 

 

Ana De Deus a Bii Yue, a Célia, a Charneca Em Flor, a Cristina Aveiro, a Isabel,  o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Maria Araújo, a Marta, a MissLollipop a Rute, o Último, e a Rita Pinto, mais a Inês (FB) e a Helena (FB) , aceitaram este desafio. Acompanhe a publicação dos textos dos participantes aqui e no blogue do autor do texto, às segundas, terças, quintas e sextas de manhã.

 

Real

Desafio caixa de lápis de cor

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Mal terminou o sexto ano, ouviu o pai dizer que não ia continuar a estudar porque tinha de ajudar nas despesas da casa. Não adiantou o professor ir até à sua casa a seguir à missa; naquele domingo o pai escutara-o, e dissera-lhe que Conceição tinha que se fazer uma mulher, não eram os estudos que lhe iam encher a barriga. O professor ouviu e ainda olhou para a mãe da rapariga, em busca de algum sinal de compreensão, mas Maria Anunciada não tirou os olhos do chão durante toda a conversa, enrolando a ponta do avental. Quando o patriarca se levantou da cadeira colocou a boina na cabeça e se dirigiu para a porta, o professor percebeu que a conversa tinha sido dada por terminada e saiu, frustrado, decidindo que era melhor não continuar a encher a cabeça de Conceição com o que não passaria de sonhos.

 

E foi assim, a pequena de treze anos acabou por ficar em casa a cuidar dos irmãos, por forma que a mãe pudesse ir para o campo, trabalhar ao lado do pai. Conceição fez-se então mulher cedo, com a obrigação de cuidar das gémeas e do bebé pequeno, acumulando as tarefas domésticas e tendo sempre o jantar na mesa a horas dos pais voltarem das fazendas. 

 

Os anos passaram, e foi a vez das irmãs deixarem a escola para a substituir, enquanto o pai lhe vaticinava o passo seguinte: a rapariga, agora com dezoito anos iria trabalhar numa quinta, longe de casa. Chorou silenciosamente na sua cama estreita, assustada com o futuro incógnito. Podia jurar que na manhã seguinte sentiu que a mão da mãe estava pouco firme quando esta lhe entregou o farnel para a viagem. Procurou nos seus olhos um sinal, a confirmação de que ia tudo correr bem, mas esta afastara-se sem uma palavra mal o pai tinha entrado na cozinha e a saudara com um ríspido só espero que sejas mais despachada a trabalhar lá na quinta! Livra-te de me virem com queixas, tu não me envergonhes, que te arrependes... a condizer com o brilho gelado dos seus olhos. Conceição engoliu as lágrimas que ameaçavam sair e seguiu atrás do pai até à velha carrinha sem dizer uma palavra.

 

E era assim que se encontrava agora ali, na camarata onde dormiam quinze mulheres de diversas idades. Levantavam-se com o nascer do sol, tomavam um mata bicho de sopas de broa com café, e seguiam para o campo, onde faziam as tarefas que lhes eram atribuídas pelo capataz, um homem de meia idade baixo e mal encarado. Conceição não gostava dele: mesmo de costas conseguia sentir o seu olhar cravado nela e isso deixava-a tão desconfortável... e não era só ela que o achava estranho: as outras mulheres, mais velhas, trocavam olhares cheios de significados que não conseguia adivinhar, de cada vez que ele se aproximava. 

 

Conceição não era uma rapariga bonita, mas tinha em si a força da juventude e o ar do campo tinha-lhe tisnado a pele de um tom saudável. Silva não conseguia descolar os olhos dela, e tantas vezes quando ela se endireitava e limpava a transpiração com o pano que trazia consigo, estreitava os olhos divisando as suas curvas em contra luz, o corpo firme e bem delineado. E quando ela levava o cantil aos lábios para matar a sede, deixava correr a imaginação solta por caminhos que, tinha a certeza, ela não conhecia - e isso ainda lhe gerava maior perturbação. Passava a língua pelos lábios gulosos e mantinha-a debaixo de olho durante a maior parte do dia.

 

E naquela manhã ela tinha sido chamada a apresentar-se ao capataz. Silva mandou-a sentar-se na cadeira e apressou-se a sair de trás da secretária, quando ela entrou. Foi-lhe dizendo que o seu trabalho lhe agradava e que a apanha da azeitona estava a poucas semanas de distância e era chegada a hora dele escolher quais eram as mulheres que fariam parte do grupo que iria para o olival. Disse-lhe que o trabalho lhe renderia mais uns euros por dia, ouviste, rapariga? Gostavas de ir apanhar as azeitonas verdes, rijas no olival, perguntou enquanto se aproximava. A rapariga aquiesceu, olhos pregados no chão e ele disse-lhe que isso se podia arranjar... ela só tinha de ser amiga, que ele ia cuidar que corresse tudo bem e o seu pai recebesse uma jorna maior e até lhe digo que a sua filha trabalha que se farta, que se deve orgulhar dela. Conceição levantou os olhos, esperançosa de que o seu pai pudesse sentir que a sua filha era uma bênção, e encontrou dois olhos brilhantes de expetativa. Antes de poder fazer um movimento, Silva aproximou-se e agarrou-a, puxando-a contra si, as mãos nas suas nádegas apertando, apalpando, enquanto a sua língua lhe molhava o pescoço ao mesmo tempo que segredava ao seu ouvido coisas que ela não entendia. Chocada, nauseada, Conceição só conseguiu balbuciar não... uma e outra vez, e quando o homem lhe subiu a blusa soltando uma exclamação ante a visão dos seus seios leitosos que contrastavam com a sua tez escurecida pelo sol, a rapariga empurrou-o e saltou para trás baixando a blusa, começando a correr em direção à porta. Poucos passos deu, quando se sentiu a ser puxada pelo pulso. Silva, olhar febril disse, sem mais delongas vais ficar, sim senão chamo o teu o pai para te levar para casa, e digo-lhe, a ele e às tuas camaradas todas, que vieste aqui e te ofereceste a mim para não teres de trabalhar como as outras, grande preguiçosa... Conceição agitou a cabeça negativamente, sem conseguir acreditar no que ouvia. Julgas que não, minha puta? Desafia-me e vais ver...

 

O que se passou a seguir era uma névoa na sua mente - mas não suficientemente espessa. Lembrava-se dos cheiros, da sua transpiração, do chão a arranhar-lhe os joelhos, do sabor a outra pele na sua boca. Saiu de lá tropega do choque que tudo tinha sido, com a voz de Silva nos seus ouvidos ainda te vou fazer gostar, ouviste? Há tanto que não sabes e te vou mostrar... 

 

Conceição perdeu o brilho no olhar, perdeu o viço e se nos primeiros dias as lágrimas lhe molharam o rosto, depressa secaram. A ameaça de perder o trabalho, de o seu pai ser chamado para a levar faziam-na ouvir de novo Livra-te de me virem com queixas, tu não me envergonhes, que te arrependes... 

 

 

A todas as Conceições que ainda hoje, em 2021, têm de se sujeitar aos Silvas desta vida.

Para elas, o movimento #Meetoo não existe.

 

- Também deste desafio:

Inesquecível

Rosa

Narciso

Ela

Tua

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Às quartas feiras o #GrupoDosLápisDeCor, de que fazemos parte eu, a Olga, a Marquesa a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado  publica textos novos inspirados nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada um, ou através da tag Desafio Caixa de lápis de Cor. 

 

 

Porque eu Posso #14 -Texto da Charneca em Flor

7 anos de porque eu posso

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(foto by  Charneca em Flor)

"No Verão de 2006 fiz algo pela primeira vez e, pensando bem, foi a única vez que realizei tal feito. O mês de Julho chegou trazendo o meu aniversário e as minhas férias de Verão. Lembro-me que decorria o Campeonato Mundial de Futebol na Alemanha. Naquela altura estava, mais uma vez, separada daquele que, no ano seguinte, se tornaria no meu ex-marido. A minha mãe não podia tirar férias e não havia nenhuma amiga disponível para ir de férias comigo. Não me apetecia, de todo, ficar 15 dias sozinha em casa, a alimentar a mágoa de um casamento falhado.


Se bem me recordo, a ideia surgira algumas semanas antes de as férias se iniciarem. Num domingo, bem cedo, fui dar um longo passeio com a minha mãe até uma pitoresca aldeia da Costa Vicentina. Não sei se chegámos a ir à praia mas lembro-me de termos almoçado num dos melhores restaurantes da zona. Eu conhecia bem o local e o mês de Julho ainda era relativamente pacato em termos de ocupação turística. Foi nesse dia que resolvi que voltaria lá para passar uma semana de férias, sozinha. Se calhar, tinha a esperança de encontrar um amor de Verão que me fizesse esquecer o meu desgosto amoroso. Antes desse domingo acabar, reservei um bungalow num parque de campismo e comecei a contar os dias até ao início das férias.


No dia 1 de Julho, fiz as malas, enchi o porta-bagagens com tudo o que me podia fazer falta, incluindo um televisor, e fiz-me à estrada. Ia decidida a passar uma excelente semana de férias. No dia 5 de Julho eu celebraria o meu 32° aniversário e não me incomodava nada passá-lo de maneira bem diferente, completamente sozinha.


E porque é que eu fiz isto? Porque podia, porque não devia satisfações a ninguém e porque era independente*. Nada me impedia de pegar no carro e ir até onde me apetecesse.

 

*Infelizmente, ainda estava muito dependente emocionalmente do meu ex-marido. Não sei o que me levou a contar-lhe onde ia, na véspera de partir. Ele surpreendeu-me, aparecendo por lá no dia do meu aniversário e fizemos as pazes. Mas isso… é outra história".

 

Grata, Charneca em Flor, por teres partilhado connosco um pedaço da tua vivencia, em que transparece a força que, de certeza, te terá ajudado a atravessar a tempestade que um divórcio pode ser. Somos sempre tão mais de que aquilo que pensamos ser...

 

Estamos na reta final da publicação de textos do desafio dos sete anos do blogue. Amanhã é dia da publicação de textos pelo #GrupoDosLápisDeCor, (esta semana a cor é o verde claro) pelo que quinta feira continuaremos a divulgação dos textos subordinados ao tema porque eu posso. Posso adiantar que faltam dois textos de duas autoras... passem por cá para os ler!

 

Ana De Deus a Bii Yue, a Célia, a Charneca Em Flor, a Cristina Aveiro, a Isabel,  o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Maria Araújo, a Marta, a MissLollipop a Rute, o Último, e a Rita Pinto, mais a Inês (FB) e a Helena (FB) , aceitaram este desafio. Acompanhe a publicação dos textos dos participantes aqui e no blogue do autor do texto, às segundas, terças, quintas e sextas de manhã.

 

Porque eu Posso #13 - Texto da Isabel

7 anos de porque eu posso

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"Eu quero, mas não posso ou será que posso, mas não quero.

 

Quando se é de uma geração e de um sítio pequeno, quando só se saía de casa para casar, muita coisa ficou por fazer e viver.

 

Coisas que hoje são dados adquiridos das novas gerações, mas não na minha. Houve realmente quem o fizesse, mas era uma minoria nem sempre bem vista. Se o poderia ter feito? sim, poderia, mas faltou incentivo e provas de que havia vida fora dali.

 

Fiz o que quis, casei porque quis, tive os filhos porque quis, e não voltaria atrás.

 

Tanto o meu marido como eu, crescemos com o pensamento em que o importante era trabalhar, ganhar um ordenado. E nós, obedecemos porque éramos comodistas e à nossa volta era assim que se vivia.

 

Quando a vida foi acontecendo, fomos fazendo as nossas escolhas e fomos tomando as nossas decisões, porque podíamos. E correram bem.

 

Hoje, quero (queremos) mas existem responsabilidades que ainda não permitem, seguirmos o caminho que saberia bem, o que acreditamos que merecemos.

 

Hoje, talvez pudesse (pudéssemos) sair, descobrir, ter a independência que nos falta depois de anos de trabalho, de horários que não lembram a ninguém, de uma vida a trabalhar quando todos os outros se divertem. 


E é isso que tenho que tentar fazer, comprar um pacotinho de coragem na farmácia, para soltar amarras e acreditar que agora é o meu (nosso) tempo. Que agora sou eu (nós) que vamos andar para a frente em termos de lazer, em termos de liberdade, que somos capazes de ir, sem olhar para trás, sem olhar para quem cá fica.


Mas, são pais, são filhos, são netos, e por isso é tão difícil, por isso eu digo, será que quero? Talvez tenha que aprender a querer"

 

Obrigada pelo teu texto Isabel! É verdade às vezes temos de cortar amarras e seguir a nossa verdade - e tantas vezes é preciso convencermos-nos a sair da nossa zona de conforto. Força amiga ...

 

Amanhã aqui estaremos para a publicação de mais um texto. Junte-se a nós e fique a conhecer o texto e o seu autor.

 

Inté...

 

Ana De Deus a Bii Yue, a Célia, a Charneca Em Flor, a Cristina Aveiro, a Isabel,  o João-Afonso Machado, o José da Xã, a Maria Araújo, a Marta, a MissLollipop a Rute, o Último, e a Rita Pinto, mais a Inês (FB) e a Helena (FB) , aceitaram este desafio. Acompanhe a publicação dos textos dos participantes aqui e no blogue do autor do texto, às segundas, terças, quintas e sextas de manhã.

 

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