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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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01
Set17

António Lobo Antunes, 75 anos de tanta vida que nos dá

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É dificil escrever sobre o que gostamos realmente.

 

Ando a ler há anos - sim, a expressão é mesmo esta  ando a ler/vou lendo -  os livros de crónicas do António Lobo Antunes - assim meio à socapa, que as crónicas são que se vão lendo, menores, tendo em conta a obra do Escritor ... mas o António consegue ser assim: põe-me a lê-las aos bocados, devagarinho, e sem usar marcador de páginas. E volta e meia, ah deve ter sido aqui que fiquei, não li esta, e ao chegar ao fim, afinal até tinha lido, que estranho, não me lembro de nada disto. Pois que as personagens se re-inventam no nosso imaginário de cada vez que lemos.

 

Tenho uma relação não de amor-ódio, mas de amor-receio com a escrita do António. Nos livros ele estende-nos a mão na capa e pergunta queres vir?. Aceite o convite, dá-nos a mão na primeira página e acompanha-nos um bocadinho. E depois... bom, depois damos por nós sózinhos e às escuras, alumiados pela luz dos nossos medos, a sós com a pessoa que somos cá dentro. Os livros do António não contam estórias: os livros do António fazem-nos recordar histórias. Histórias que não conseguimos pôr em palavras, que saem das nossas vísceras, e viajam até à garganta e de volta, e andam acima abaixo, arrepiam a espinha, e às vezes fazem doer. Fazem doer a sério. Mas quando fechas o livro já não és o mesmo que o abriu: és um bocadinho mais. Um bocadinho mais tu.

 

Começar um livro do António é assim como que debruçar-nos sobre a toca do coelho na árvore da Alice de Lewis Carrol, e depois cair, desamparadamente e sem tempo. E António aqui será o gato de Sheshire, presente mas invisível, e a lagarta, que nos atira com um enigma e pronto. E a resposta a esse enigma está sempre dentro de nós, cabe-nos descobri-la. E com a escrita do António e os olhos da alma bem abertos, descobrimos.

 

Lobo Antunes para mim é uma tela de Jackson Pollock ou de Cy Twombly. É eu. Eu escarrapachada na tela entre pinceladas, ou escondida nas letras. E não sou eu que estou na entoação que dão às palavras na peça que já fizeram, ou nos diálogos dos personagens no filme. Os livros de Lobo Antunes não tem esquadria, espraiam-se para fora do volume, envolvem-nos como uma nuvem de fog. Os livros de Lobo Antunes não aceitam cabresto. Neste dia, em que o António estará a ser homenageado de inúmeras as maneiras, não posso deixar de considerar que ele merece todas as homenagens que inventarem fazer-lhe.

 

Ler as crónicas é um bocadinho fazer batota, assim como comer um rebuçado às escondidas... as crónicas não nos deixam cair na toca, ao contrário, fazem-nos saltar no trampolim, e acabar cada uma com um sorriso.

 

O que é bom, é tão bom que só pode ser pecado.

 

O António faz hoje 75 anos, 75 anos de uma vida repleta de letras, do prazer que provoca em quem o lê. Por isso impõe-se dar-lhe os parabéns, mas mais que isso, dizer-lhe:

 

Obrigada, António!

 

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