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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

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06
Mar14

Até que NEM a morte nos separe

Fátima Bento

Olha, garanto que já não me levanto a meio da noite do conforto da minha cama para espiar pela fresta da porta do teu quarto, zelar que estejas pacificamente a dormir. Nem me levanto do sofá, ou me dirijo de outro canto da casa ate à mesma divisão em que te encontras para verificar se a tua respiração é regular e garante um sono profundo e tranquilo. Já não acordo de noite à espera de ouvir-te a chamar-me do quarto ao lado. A musica já pode tocar mais alto durante o dia, pois não tenho de antecipar nenhum murmúrio. 

Já não vou ao teu quarto, junto da tua cama, perguntar se queres alguma coisa: no seu lugar está agora uma enorme secretária, e na parede onde encostava a cadeira em que me sentava para te fazer festinhas com os dedos enrolados em toalhitas húmidas para refrescar (filha eu estou velhote, dá-me miminhos... mas tens as mãos tão quentes!), estão agora duas estantes recheadas com os meus tesouros...

Há precisamente seis meses atrás, chamaste-me e pediste água. Deite, mas não conseguiste engolir. Quiseste dizer qualquer coisa, mas a água na boca não deixou, por isso rodaste o teu corpo para mim, elevaste o braço e prendeste-me num abraço. E ficaste, assim, nos meus braços.

Ainda te sinto.

E eu, que não acredito em nada,

ou melhor, acredito em muito pouco

dei comigo aqui há tempos no cemitério, sentada na beirada daquele ainda monte de terra debaixo do qual está caixa onde te deitaram. 

E eu, que não acredito em nada

ou melhor, acredito em muito pouco

sei que vou voltar ali mais vezes, me vou sentar na beirada e vou pensar as longas conversas que teria contigo se ainda aqui estivesses, vou lembrar as inúmeras histórias que me contaste, vou rir como das tantas vezes que rimos (até ao fim, a última vez que me lembro de uma valente paródia foi na véspera do último abraço... só nós dois, como gostávamos tanto...)

E eu, que não acredito em nada

ou melhor, acredito em muito pouco

sei que vou voltar ali enquanto for gente, de quando em vez, só porque sim.

Porque se existir um arco íris, ali é, de certeza, o seu início.

(... eu depois conto-te, pai ...)

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