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... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

Cacilda, por António Lobo Antunes (publicado na VISÃO 1096, de 6 de março)

Pontos prévios:

  • O titulo do post diz quase tudo o que há para saber: o titulo da crónica, quem a escreveu, onde foi publicada.
  • Toda a gente que me conhece sabe da minha pancada pelo António L. Antunes. 

O que falta contar é a angústia que está subjacente a este texto. Sente-se, em meio aos sorrisos que nos afloram os lábios, a critica social, a impotência, a solidão... podemos ler e cingir-nos às palavras, ou mergulhar um nadinha mais fundo e ler as entrelinhas. Não é difícil, não é complicado. Mas no final, deixa-nos um travo amargo. 

{ Das melhores crónicas dele na Visão nos últimos tempos. Na minha opinião, claro... }

 

« Cacilda

Se alugasse um dos quartos ajudava-me a pagar a renda da casa, se alugasse os dois dormia na sala mas ficava com a renda paga. Encolhendo-me dá para caber no sofá, o problema é a coluna, o médico preveniu

- Tem que dormir direita

e eu, de manhã, toda torcida, sem me conseguir mexer, afligida pela claridade que entra pelas persianas e me acorda logo de madrugada, puxando-me de sonhos confusos, com as pernas dormentes, não mencionando que os hóspedes têm que passar por aqui se querem ir à cozinha e o barulho dos chinelos, pssss, pssss, pssss, arrepia-me. Claro que finjo que continuo a dormir, claro que finjo não reparar nos gestos feios que atiram na minha direção e na palavra

       - Velha 
que, sinceramente, aos cinquenta e seis anos me dói, embora concorde que pareço mais do que a minha idade, também é natural com a vida que tive, o trabalho de limpeza no armazém, o meu marido com o problema do álcool, que o vinho dava-lhe para a bruteza

       - Andas a enganar-me sua vaca

eu que nunca o enganei, palavra de honra, aceitei uma ocasião um beijo de um vizinho e fugi logo, nem sei como aquilo aconteceu. O vizinho, que era viúvo, teve um ataque um mês depois, os bombeiros levaram-no e até hoje. Das duas uma, ou bateu a bota ou está, de boca à banda, num lar, sem conhecer as pessoas. Se aquilo acontecesse comigo o que preferia eu? Bater a bota ou ficar para ali, a receber uma sopinha que nem consigo engolir, de fraldas, a cheirar a comida azeda, no meio de colegas de fraldas, a cheirarem a comida azeda, ao lado de um sujeito que grita o tempo inteiro? Talvez bater a bota e ter sossego, mas quem me irá pôr flores na jarrinha da lápide? E quem me garante que não se ouvem, lá em baixo, as conversas dos vivos

- Sabe o que me disse o médico, dona Isaura?

ou

- Ao menos com ele ali quietinho tenho paz

e bengalas que se afastam no sentido do portão

- Caiu na asneira de confiar em doutores

misturadas com latidos de cães e aquelas máquinas infernais, de consertar passeios, a estremecerem o mundo, obrigando os ossos da gente a chocalharem sem fim. Isto optando por não referir a hipótese de esbarrar com o meu marido entre raízes

- Andas a enganar-me sua vaca?

à procura de um calhau perdido para me aleijar com ele, comigo a tentar escapar de campa em campa

- Deixa-me em paz, Dionísio

ou o vizinho do beijo, a cheirar a comida azeda

- Sua jeitosona sua jeitosona

prendendo-me a saia numa gargalhadinha feroz.

Portanto estou num dilema, como dizia o meu chefe

- Estou num dilema entre despedir o Cosme e não despedir o Cosme 

porque o Cosme se abotoou com uns dinheiros da caixa, a justificar-se

- É por conta dos três meses de ordenado que me deve

e, além disso, media um metro e noventa e tinha um cunhado polícia. Mas alugar um dos quartos ajudava-me a pagar a renda e almoçar de vez em quando uma postazita de peixe com grelos por causa da dieta

(o médico

- Peixinho, peixinho, que é mais saudável do que caviar)

mastigada sem pressa a fim de durar mais tempo. E depois pode ser que o hóspede deixasse umas sobras no balde, no meio de cascas e, com sorte, talvez descobrisse por lá um restito de febra. A falta de dinheiro é um problema, tenho a luz em atraso, tenho o gás em atraso, esta semana, depois de escurecer, vou andar para aí a bater nas paredes, palpando o ar à cata do sofá e magoando a barriga na esquina da mesa. Já não me fiam na farmácia, a dona da mercearia faz que não me conhece, até se fartar de me ver palpar melões e me gritar

- Andor

ela que, durante anos, considerei uma amiga, casada com um homem no género do meu marido, permitindo-nos comparar más sinas e nódoas negras. Ainda pensei procurar o meu chefe mas quem aceita uma empregada de limpeza de cinquenta e seis anos, mesmo mostrando o bilhete de identidade

- Está aqui no cartão, repare

competente, educada, honesta? Talvez o melhor seja deixar esta casa com os tarecos e tudo, e sair para rua ao acaso. É capaz de haver lugares vagos debaixo das pontes ou nas entradas dos prédios, é capaz de existirem homens decentes

- Velha mas jeitosona

desejosos de dividirem comigo os cobertores, o caldo da paróquia e o sabão do balneário público, capazes de me oferecerem metade do seu degrau no coreto

- Agarradinhos cabemos

e dormimos um contra o outro, na eventualidade de não ressonarem muito, com um rafeiro, preso por uma corda, aos pés, aquecendo-nos os joanetes, e passarmos as tardes num banco de jardim, lado a lado, disputando migalhas aos pombos, apanhando-as com um prego espetado no fim de uma vara, ou até, com sorte, apanhando um pombo mais distraído e chamar-lhe faisão.»

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