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... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

Carta Aberta ao PM António Costa

Ex.mo Senhor Primeiro Ministro:

 

Acompanhei, como todos os meus co-cidadãos, os incêndios de Pedrógão, em junho passado, aterrada, incrédula. As 65 vítimas foram 65 a mais. Demasiadas e obviamente escusadas. Vi e ouvi pedirem a cabeça da MAI, e achei precoce. Juro que achei.

 

Em julho e agosto, Portugal continuou a arder. O segundo Grande Incêndio de Mação, lembra-se? Um concelho, tido como o pulmão de Portugal, em cinzas. Pessoas desalojadas, mas perigos maiores evitados: a tragédia não fez vítimas mortais entre os civis; só alguns se limitaram a perder vidas inteiras de trabalho, outros a necessitar de dezenas de anos para voltar a recuperar cultivos que são o seu sustento - mas isso é normal e expetável nestas circunstâncias, decerto achará. Só na mesma região (não mencionando as outras todas...) no final da segunda semana ardia Abrantes - e tanto mais. Nas últimas duas semanas de Agosto, o que ainda não tinha ardido em Mação, ardeu. Vila de Rei começou a arder, o fogo atravessou o Tejo e chegou a Niza.

 

Agora, a 30 de setembro, com temperaturas anormalmente elevadas para a época, dá-se a fase Charlie por encerrada o que resulta em que se

 

  • encerrem centros de vigia e controle/prevenção das/nas florestas;
  • cessem os contratos de aluguer dos meios aéreos de combate aos incêndios;
  • descomissionem-se ativos em serviço, porque passou a época de risco. 

 

- como se a época de risco olhasse para o calendário, e decidisse que era altura de fazer as malas e mudar-se para outras paragens...

 

A 15 de Outubro, de novo o Inferno; agora não se pode desculpar com o clima: pelo menos desta vez haviam indícios claros e explícitos de que existiriam condições climatéricas para se desenvolver uma situação como esta... mas somos sempre uns otimistas, um raio não cai duas vezes no mesmo sitio, só acontece aos outros, e clichés semelhantes, não é?

 

Pois não, não é. Quarenta e duas pessoas perderam a vida no meio de um inferno de labaredas. OUTRA VEZ.

 

A arrogância, a falta de humildade e mesmo de humanidade que mostrou nos últimos dias envergonham-me. Envergonham-me profundamente e repugnam-me.

 

O senhor está a esquecer-se que governa quem e PARA QUEM o colocou onde está - e não se agarre aos resultados das autárquicas, que eu sou uma das cidadãs que no dia 1 de Outubro lhe deu um voto de confiança; fossem as autárquicas agora, a 22, e não daria, porque neste momento eu não confio. E não sou, nem de longe, a única.

 

Retiro aqui simbolicamente o voto de confiança que lhe dei há duas semanas atrás, e mais digo que a haver um levantamento popular como na Galiza, serei das primeiras pessoas a dirigir-me para o lugar indicado. É vergonhoso, desumano, não assumir responsabilidades, não pedir desculpa pela parte que vos toca, Governo que nos representa e a quem cabe proteger-nos, no que falharam rotundamente por duas calamitosas vezes.

 

Retire-se, senhor Primeiro Ministro. Retire-se para um gabinete com um espelho bem grande, onde possa estar sozinho. Reflita sobre tudo o que se passa, sobre tudo o que ouve, lê. Sobre o que sente. Ponha tudo em perspetiva. Depois olhe para o espelho e decida se gosta do que vê. 

 

Saia desse espaço e haja em conformidade com as conclusões a que tiver chegado, sabendo de antemão que deste lado está uma imensidão de gente que poderá também agir em consonância com as suas ações.

 

Os portugueses podem ter memória curta,

mas não sofrem de amnésia.

 

Com (cada vez menos) consideração,

 

Fátima Bento

 

4 comentários

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    Fátima Bento

    18.10.17

    Seria digno que se demitisse. Não consigo abarcar as consequências disso, mas se ELE recuasse, mantinha-se o projecto de esquerda, a ideia não era desvirtuada. SE como o Presidente disse ontem, sem panos quentes, a Assembleia decidir que este governo não tem condições de continuar, cai tudo.

    Claro que é um ponto de honra para os partidos que apoiam o PS (e que o Presidente chamou, cheira-me a slap in the wrist) não deixar cair o projeto, pelo que não acredito na demissão do governo. Agora a reestruturação é um ponto assente.


    Não sei o que vai acontecer na próxima legislatura, nem o que deveria acontecer... entregar o Poder novamente ao PSD parece-me um erro tremendo. E um erro não se corrige com outro... isto é uma confusão tremenda. E estamos a pensar muito a quente - falo por mim, que por mim, ontem, o governo tinha caído...


    Ah, nota que sou apartidária, i.e., voto em quem acho que tem condições para fazer um bom trabalho... até hoje só não votei CDS/PP - até no PPM votei uma vez, há muito tempo...
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    Psicogata

    18.10.17

    Também não tenho partido, voto sempre em quem acho que poderá fazer um melhor trabalho.

    O erro de entregar a gestão do país ao PSD só é um erro porque neste momento o partido não tem um líder forte, talvez tenha em breve.
    Porque se tinha alguma crença no PS e na geringonça perdi-a há muito tempo, os aparentes bons resultados do país não são propriamente mérito do governo, mas do turismo, já que a fórmula de devolver o rendimento às famílias para aumentar o consumo não resultou como esperado e não nos podemos esquecer que a austeridade só terminou na comunicação social porque este Governo reteve brebas e investimento.
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    Fátima Bento

    18.10.17

    Não tenho confiança em nenhum dos candidatos à chefia do PSD. Não conheço nada ipso facto por parte do Rui Rio, e acho piada ao Santana Lopes, que é isso que este provoca: piada - deve ser um gajo porreiro, mas não um bom Chefe de Governo. 
    Não avançou mais ninguém, com a liderança do PSD a ser discutida por estas duas figuras politicas, gosto mais do Santana Lopes MAS não se discute só a sucessão de Passos no partido, quiçá num governo... 
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