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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

04
Set17

Como é que se lida com isto?

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Há sete anos atrás escrevi no Diário de uma dona de casa 2.0 sobre um exercício que a Professora Helena Marujo - que leciona Psicologia Positiva na Universidade de Lisboa - fazia, nomeadamente quando as pessoas não conseguiam (assim sem pensar muito) dizer o que as faz feliz, ou pelo menos, quando foi a última vez que se sentiram felizes.

 

- é incrível a quantidade de pessoas que balbuciam e não sai nada...

porque não sabem a primeira, nem se lembram da segunda...

 

E então o exercício que usava para desbloquear e pôr em perspetiva uma série de ideias que andam a voar dentro das nossas mentes tem tanto de simples como de, à primeira vista, macabro: consiste em fazer hoje, bem e de saúde, o próprio epitáfio. Isso ajuda a que as pessoas se descubram, tentem ver-se pelos olhos dos outros. O exercício tem efeitos positivos - pelo menos na grande maioria das vezes.

 

Hoje lembrei-me vagamente do que escrevi na altura, fui à procura e confirmei: na minha lápide estaria apenas a palavra mãe - porque foi isso que eu escolhi ser: ficar em casa com os miúdos 24/7, e estar 100% disponível (na medida do possível, que existem situações que não controlamos e fazem esse 100% mirrar).

Acrescentava na altura que uma frase mais compostinha seria Uma mãe (quase) perfeita. E afirmava, - acreditando piamente - que os meus filhos tirariam os parêntesis e a palavra dentro deles...

 

GRANDE IDIOTA...

 

Ora se há coisa que a minha descendência direta relegou para último plano foi o que investi de mim no processo maternal. As memórias estão distorcidas recordando apenas o menos bom e o mau, consistindo isso maioritariamente nas fases em que passei por crises depressivas agudas - e em que só não me suicidei porque, apesar de achar naquele momento, que eles ficariam melhor sem mim, não lhes queria impor o selo de serem filhos de uma suicida, da culpa que despertaria neles inevitávelmente (as crianças acham sempre que são culpadas) e de terem que superar o facto. Por isso fui furando os dias, a custo, atravessando-os como um bulldozer. Mas contar-se-hão pelos dedos das mãos os dias em que não saí, de todo, da cama, mesmo nas piores fases.

 

Dei-lhes tudo o que tinha para dar. Não havia mais nada nem mais ninguém. Ao contrário do que prego, e preguei nas formações parentais, coloquei os meus filhos, e nem em primeiro lugar: em único.

Não estive parada... fui fazendo parte das A.P. das escolas por onde iam passando, e co-organizando festas, celebrações... escrevi um livro de pedagogia, trabalho de fim de formação, um bê-a-bá para pais de primeira viagem (até isso é carimbado como arrogância da minha parte, mesmo sendo um trabalho, e apesar das pressões para o fazer não o ter publicado por achar que, apenas por ser mãe, não tinha autoridade para ensinar nada a ninguém... ainda assim)

 

E agora é a verbalização da incapacidade de perdoar o tempo que passei na cama (em agonia depressiva), por ter deixado um vazio no meu lugar, um void, e o fazer sentir sozinho (a presença da irmã não conta (e dessa também tenho queixas e acusações, não pensem que me safo...) 

 

E andei seis anos a saltitar de psicólogo em psiquiatra e em psicólogo... por ele ter uma depressão. Se a tivesse de facto, não compreenderia?

 

Digam-me: como é que se vive com isto? 

 

Porque eu não sei...

 

3 comentários

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    Fátima Bento 04.09.2017

    Não foram só os filhos... foram os (nossos) pais, meu e do Victor. 
    E foi, desde que casei (tinha a Inês dois anos e meio) a minha avó, até engravidar do Tomás. 
    E quando o Tomás tinha dois anos, e eu tinha um trabalho de que gostava bastante, demiti-me porque me disseram: a avó ou vai para tua casa ou vai para um lar. A avó trouxe uma empregada com ela, mas o marido (que como pessoa estava nos antípodas do que é hoje) não gostava de ficar em casa com a empregada nos fins de semana em que eu trabalhava, e acabei por ter de me demitir para voltar e ficar com os dois filhos (7 e 2 anos) e a avó (90). Bela projecção para quem teve o primeiro episódio de depressão major diagnosticado aos 12 anos, e seguiu por aí fora com crises coladinhas umas às outras. Claro que foi de caixão à cova. Quando esta finalmente voltou para casa da minha mãe, eu caí no fundo. Nessa altura (e só nessa) lembro-me perfeitamente da necessidade de alienação - mas estávamos de férias e o Victor teve de avançar. Na praia deixava os três sozinhos e ia andar até me cansar. Acabaram as férias e eu no fundo dos fundos. Pode ser dessa altura que o Tomás se lembra/fala.
    Em relação aos dois pais: o sogro, foram idas ao hospital, visitar quando estava internado, apoiar quando se decidiu optar pelos paliativos, nomeadamente ir a farmácias, centro de saúde, levar e trazer onde fosse necessário... mas foi uma ocupação "menor", adorava o meu sogro, vê-lo morrer, há cinco anos atrás, foi duríssimo, mas nesse ano, enquanto estava em casa, ainda fui à praia umas três vezes, pelo que em meio à família nuclear e sogros, ainda consegui algum tempo para mim.
    Sete meses depois do falecimento do meu sogro, o meu pai foi internado com problemas derivados da diabetes (durante a doença do meu sogro também tive de dar apoio ao meu pai que foi operado duas vezes a um cancro na próstata). E a partir daí foram 4 meses em que diariamente passava a tarde no hospital (as enfermeiras já me davam a medicação para eu lha dar) e quando teve alta veio cá para casa (a minha mãe recusou que ele fosse para casa, e eu fiquei feliz porque o queria comigo). Nessa altura foi imersão total, eu só existia para o meu pai. Isto foi há quatro anos. Depois de amputado, andei INEM hospital, ambulância casa 'N' vezes. Na última semana de vida, o número de telefone já era reconhecido no INEM (não me perguntes como). Depois um dia estávamos na sala, eu e o Victor, ele chamou-me ao quarto, abraçou-me e foi. Assim. 


    Entrei para a faculdade em 2006. Mesmo assim congelei a matricula: o Tomás ainda era pequeno e dois anos depois começou a depressão da Inez. E as corridas para o psiquiatra. Depois foi para Londres, feliz - mas continua a tratar-se da depressão, já lá vão sete anos.
    Depois da Inez, não deu tempo para recuperar: o Tomás deixou de conseguir ir à escola e eu comecei a passar o meu tempo entre reuniões com DT's, Direção das escolas (já que isto se foi repetindo ano após ano), até à CPCJ fomos parar (e a escola levou nas orelhas por isso). Era isso e psicólogos. E psiquiatras. Durante seis anos.


    Agora a(s) saída(s) de casa, é coisa que não me custa, DE TODO. A Inez foi, e só me custa que não entre em contacto mais vezes, mas pronto, tem a vida dela. Ele há-de sair, e espero que quando chegar o momento, seja muito feliz.


    Não sofro do síndroma do ninho vazio: tenho planos que pretendo cumprir. 


    E tenho o apoio terapêutico de que preciso para poder lidar com estas situações. Hoje tive sessão e estou neste momento bastante mais tranquila.


    (as recriminações são inflacionadas...)


    Hoje antes de sair de casa, veio ter comigo ao corredor, abraçou-me e disse que gostava muito de mim. E eu fiquei com cara de parva. Retribuí, claro, adoro o meu filho, mas ele com estas atitudes confunde-me...


    Segundo o meu terapeuta estamos a agir da forma ideal, eu e o pai. Vamos esperar que continue assim.


    Obrigado pelas tuas palavras (e desculpa o desabafo)
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    Happy 04.09.2017

    Oh meu deus. Realmente essa vida não tem sido privada de emoções, perdas e lutas diárias. Já entendo melhor o porquê deste teu post agora e de como se procura a melhor saída e a melhor situação para uma que vida que é ela mesma um emaranhado de dificuldades. Parece que viveste numa teia em que tudo vai acabar interligado e os elementos se mantêm difíceis de separar dos problemas do passado.
    Se ele diz que as vossas reações são as acertadas, é só esperar que acabem por resultar e quando o teu filho chegar à fase adulta, consigam enfrentar e ultrapassar tudo isso.
    Um beijinho Image
     
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