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... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

Ela

Desafio caixa de lápis de cor

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Todos conheciam a casa que se erguia a cerca de quinhentos metros dos limites da povoação. O exterior era lamentável: no jardim cresciam ervas daninhas que, em determinados lugares, chegavam à cintura de um adulto. A pequena escada que dava acesso ao alpendre tinha os restos mortais de um corrimão pendurados do lado direito, e o chão tinha buracos que constatavam que a madeira tinha apodrecido. Encostados à parede, onde grandes lascas de tinta descascada deixavam à mostra os tijolos que já tinham perdido a cor laranja que os caracterizava, vasos de terracota acinzentados continham os esqueletos do que teriam sido em tempo plantas viçosas. Os vidros encontravam-se escurecidos, prova de que já não eram limpos há muito. Poderia pensar-se que a casa estava abandonada; mas essa não era a realidade.

 

Os rapazes mais crescidos muitas vezes esgueiravam-se até ali depois das aulas, e escondiam-se entre os arbustos do baldio em frente, tentando vislumbrar a velha que habitava a casa desde não se sabia bem quando. Comentavam entre si que seria uma bruxa, e inventavam histórias sobre o que fazia em noites de lua cheia, sacrifícios com animais e demais fantasias, o que era excelente para deixar as raparigas assustadas e à beira do grito, que tantas vezes forçavam.

 

A verdade é que morava naquela casa há mais tempo de que sabia. E gostava que as pestes tivessem medo dela. Detestava miúdos, o barulho e a confusão que faziam, pelo que lhes assombrava as visitas com gosto, surgindo no alpendre com uma velha vassoura em riste, olhando à volta, circunspecta, à procura dos pirralhos do costume, preparada para os insultar com palavras numa língua inventada, vociferada numa cadência de poema obscuro que pensavam ser feitiço. Esse era o momento em que, invariavelmente saiam dos seus esconderijos e corriam rua fora, em direção ao largo da aldeia onde ririam gargalhadas nervosas e acusavam o outro de quase ter borrado as calças.

 

Na aldeia todos sabiam o dia em que, todos os meses, ela se dirigia à mercearia para comprar o necessário para assegurar a sua alimentação. Era o dia em que os  aldeões se recolhiam em casa e observavam o vulto, magro e de costas bem direitas, a atravessar a praça, por detrás das cortinas que enfeitavam a vidraça e protegiam o interior das suas casas de olhares intrusivos. As velhotas de terço nas mãos benziam-se à sua passagem, que as lendas e o diz-que-disse e diz-que-viu corriam soltos nas línguas e imaginação de todos. 

 

Há muitos anos atrás, das primeiras vezes que saiu de casa depois da tragédia, o olhar inquisitivo e a curiosidade ávida das pessoas deixavam-na zangada, mesmo furiosa. E um dia deixou que essa mágoa travestida em fúria ocupasse o espaço à sua frente e elevasse uma barreira que isolou o acesso de quem quer que fosse. Foram assim lançados os alicerces para o mito atrás do qual se escudava até hoje.

 

Recordava o passado como se nem fosse a sua vida; outra, talvez, como se tivera mais de que uma. Tinham adquirido aquela casa para aproveitar o ar do campo, para que as crianças corressem sem cercas nem cercados, respirando liberdade. Eram duas, gémeas, e o seu nascimento dera ainda mais sentido à sua vida, amava-as mais que a si própria. Uma manhã despedira-se dos três e dirigira-se à nova casa para receber os móveis e preparar tudo por forma a começarem a nova fase das suas vidas.

 

Já com tudo pronto, sentou-se no alpendre junto aos vasos de margaridas cor de laranja recém transplantadas, aguardando a sua chegada mas a noite caiu e nem sinal deles. Quando a  policia chegou, de madrugada, encontrou-a ainda sentada no alpendre, e ali ficou de olhar perdido no vazio enquanto os agentes repetiam a pergunta entendeu minha senhora? Não se lembra de ter sido levada para dentro mas acordou na sua cama, não sabe quanto tempo depois, e ali ficou dias, semanas, o corpo forte e bem torneado a transformar-se num galho seco e estéril.

 

E era por isso que detestava miúdos, o barulho e a confusão que faziam, que continuaria a assombrar-lhes as visitas com gosto, porquanto neles residia a ligação a um passado que queria esquecido e a um presente que desejava se mantivesse isolado. 

 

E continuaria a antecipar a sua presença no terreno do outro lado da estrada já que esta era era a prova, talvez a única prova, que continuava a existir.

 

- Também deste desafio:

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Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

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