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... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

Fechar o circulo

Às vezes procuro, e não a encontro. Ainda não descobri os esconderijos que sei que tem e que protege com unhas e dentes. Quando a encontro, muitas vezes está alheada compenetrada em transformar uma situação desfavorável numa forma de brincar, de contrariar quem, ao impor-lhe um castigo, desejava vê-la triste. E de costas lá no fundo da despensa, vai brincando com os brinquedos que foi levando para aí e guardando religiosamente para a vez seguinte que fosse para lá enviada, por um zangado e omnipotente dedo em riste.

 

Se quando a encontro aí, me aproximo devagar e lhe pouso a mão no ombro com ternura, levanta o olhar e dá-me um sorriso débil, enquanto nos seus enormes olhos, juntando-se à tristeza permanente que neles habita, surgem lampejos de perguntas às quais não sei dar resposta 

 

porque me deixaste aqui tanto tempo,

porque não me ajudaste, porque não a impediste,

porque a deixas-te fazer-me tudo, reduzir-me a nada.

 

Dobro os joelhos e, pondo-me à altura dela, abraço-a e peço-lhe desculpa. Digo-lhe que não consegui, que não pude enfrentá-la, que não pude enxotá-la, que não lhe pude dizer que estava errada, que magoava... quis, quis muitas vezes mas não fui capaz.

 

Ela volta-se para o pequeno fogão, mexe um qualquer cozinhado que tem na caçarola, e deixa a pairar no ar "se quisesses mesmo tinhas feito", frase gravada no nada que se agita no ar quieto. Concentro-me no perfil, no queixo que fecha com força, nos gestos que traem alguma emoção que recusa deixar sair. 

Agarro-a pelo ombro e obrigo-a a ficar de frente para mim, olhos nos olhos, sem palavras. Abraço-a com força, levanto-a comigo, e com ela ao colo deixo a despensa, a casa, enquanto lhe sussurro ao ouvido "... não te vai voltar a fazer mal, não te vai voltar a fazer mal, não te vai voltar a fazer mal..." e galgamos ruas, passeios, estradas, prédios, casas, carros, meses, anos... e vê-mo-nos aqui, hoje.

 

Eu sentada com uma pequenita que pode ter quatro, seis, oito anos enroscada no meu colo a dormir confiante enquanto lá fora chove, está vento, mas isso não a preocupa.

 

Sente-se mais segura, a pequenita.

 

Passo a minha mão direita no seu cabelo liso, cabeça encostada que está ao meu ombro esquerdo, e ela mexe-se por forma a enroscar-se mais em mim. Por uns parcos segundos abre o olhos e embora ainda exista neles uma sombra de tristeza, já não existe mágoa.

 

E agora deixamos sarar as feridas de uma vida, assim abraçadas, enquanto o vento lá fora açoita as árvores mas nem ele, nem ninguém que já o tenha feito, nos voltará a tocar.

 

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