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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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10
Fev21

Imortal

Desafio caixa de lápis de cor, semana #4 - verde escuro

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Nada afastava a sensação de ter estado ali antes. Ela lembrava-se claramente de dedilhar aquelas teclas num frenesi, de tocar com exaltação uma e outra obra, como se a musica brotasse de dentro de si numa torrente incessante.

 

No entanto não sabia tocar piano.

 

Mareavam há dois dias e, segundo o programa, levariam pouco mais de 24 horas até aportar. O vapor cumpria todos os requisitos anunciados na brochura, e sentia-se tão relaxado quanto lhe era possível, rodeado de oceano por todos os lados. Sempre se sentira mais leve perto do mar, pelo que aquela era uma situação exemplar. Cansado de vaguear pelo deck, escolheu uma espreguiçadeira e sentou-se nesta, recostando a cabeça e fechando os olhos que, a despeito de se encontrarem protegidos por lentes escuras, se franziam sob a quente e intensa luz do sol.

 

Aceitara o convite da Compagnie Générale Transatlantique para duas exibições na viagem inaugural do Normandie sem sequer pensar duas vezes; necessitava sair de Paris, e aquela era uma excelente oportunidade. Deixava para trás a pessoa que mais amara na sua vida de adulto e que quase o tinha feito esquecer os momentos felizes que passaram juntos, quando pôs termino à sua ligação. E se a razão fora outra, talvez conseguisse entender, mas desistir de ser feliz por medo? Bernard teria deixado a sua ascendente carreira de pianista de bom grado e mudar-se-iam para a Provença, assim ele o tivesse querido. Numa casa de campo isolada na verde região, poderiam ter sido tão felizes! No entanto, o amante preferira renegar a sua natureza e viver para sempre incompleto num casamento infeliz. Tinha sido essa a sua escolha e Bernard não tinha duvidas que ele seria um marido devotado,  compensando em ternura e carinho a ausência de paixão no leito.

 

Limpou uma lágrima que começara a escorrer pelo rosto quando viu que um camareiro se aproximava. Pediu-lhe uma agua gaseificada, mas emendou o pedido para um gin. Duplo. Daí a uma hora teria de recolher ao quarto, e vestiria o smoking. Jantaria na mesa do Capitão da embarcação e, findo o jantar, teria lugar o recital em que interpretaria peças de vários compositores naquela que seria a noite mais especial da viagem inaugural do SS Normandie. 

 

Recolheu ao seu camarote antes do necessário; a nuvem negra que o acompanhava e que pensou ver dissipar-se mal se visse em alto mar, teimava não só em manter-se arreigada a si, como se tornava mais escura e pesada a cada hora que passava. Naquele momento, não fora o gin e duvidava que conseguisse ainda respirar, tal o buraco que sentia no peito. Tomou um duche, vestiu-se e dirigiu-se à mesa de cabeceira onde estava o livro que trouxera por companhia, e de entre as suas paginas retirou uma foto, a única que tinha de Frédèric. Acariciou o papel brilhante como se fora a pele do retratado, deixando mais uma vez que aquela saudade amarga o envolvesse. Guardou a foto no bolso interior do casaco e com o ar mais decidido que conseguiu, saiu do quarto pronto a enfrentar e superar a provação das próximas horas.

 

O som dos aplausos efusivos ainda reverberavam nos seus ouvidos quando saiu para o deck. A noite estava calma, estrelada e inesperadamente amena. Acendeu um cigarro e aproximou-se da amurada, onde se debruçou, olhando o mar escuro ao fundo. Começou a caminhar meio ao acaso, na direção da proa da embarcação. Ali chegado, voltou a debruçar-se sobre o parapeito e soluçou, dando livre curso às lágrimas que lhe ensopavam a alma. Nunca mais, sabia, nunca mais teria Frédèric nos seus braços, não volteria a perder-se nos seus olhos, naquelas íris verde sarapintadas de pequenos pontos tom de avelã, que tão bem conhecia. Nunca viveriam domingos preguiçosos entre café, torradas e jornais que um dia seriam espessos como livros, os cadernos divididos pelos dois. Tudo tinha sido sonho e imaginação sua. Só sua.

 

Então apercebeu-se que tinha tomado a decisão antes de embarcar no porto de Le Havre. Até mesmo antes de deixar Paris, talvez no momento em que Bernard lhe comunicara o seu noivado. O convite da CGT só lhe facilitara o processo que o trouxera até ali.

 

Passou uma, outra perna para o lado de fora da balaustrada, segurando-o atrás com as duas mãos. Pensou no rosto de Frédèric na foto guardada junto ao seu coração, nos seus imensos e sorridentes olhos verdes. Com um suspiro soltou as mãos e caiu no breu do oceano. 

 

Foram os aplausos efusivos que a despertaram, ainda com os dedos parados sobre as teclas e os olhos marejados de lágrimas. Um arrepio percorreu-a quando sentiu que aquelas lágrimas eram as de Bernard, as lágrimas que vertera em desespero. Conseguia sentir a sua impotência, a sua imensa e infinita tristeza. Retirou as mãos, e foi como se um véu se erguesse. Apoiou a mão na lateral do piano para se levantar e foi quando sentiu uma pequena placa de metal sobre os seus dedos. Debruçou-se para ver o que tinha gravado e leu:

Do SSNormandie 1936-1939

 

 

- Também deste desafio:

Conforto

Acalanto da memória

O menino de sua mãe

 

Neste desafio participo eu, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

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