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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

17
Mar21

Inesquecível

Desafio caixa de lápis de cor

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A luz de fim de tarde entrava pelos vidros das janelas amansando a fúria da canícula que se tinha feito sentir nas horas de maior calor. Nessa altura nem se conseguia estar à beira da piscina, só dentro desta, e ainda assim, a ânsia por uma sombra que nos cobrisse a cabeça tornava-se quase imperativa. Dias havia em que uma brisa soprava, e embora tantas vezes fosse uma brisa morna, outras raras havia, em que era um ventinho que refrescava. 

 

Independentemente, esta era a hora de abrir todas as janelas da casa e fazer circular o ar já não saturado daquele calor opressivo, primeiro sinal de que o dia estava a caminho do seu término, e era possível respirar fundo e aproveitar o sol que, cansado, dava tréguas e embrulhava tudo numa cálida luz âmbar. 

 

Depois de as abrir todas as janelas, dirigiu-se à cozinha e colocou gelo dentro de um copo alto. Deitou um pouco de gin e acabou de o encher com agua tónica, juntando-lhe ainda uma casca de limão, e dirigiu-se para o quintal. As crianças aproveitavam para dar os últimos mergulhos e braçadas, e ela sentou-se na espreguiçadeira e fechou os olhos. Começou a ouvir a agitação dos miúdos cada vez mais longe e sem dar por isso caiu num torpor bem-vindo.

 

E de repente, estava lá de novo. Era manhã e a tonalidade que tingia o céu fazia adivinhar uma dia quente, como tinham sido todos desde que, dias antes, tinham chegado ao Cairo. Haviam embarcado na véspera no barco para fazerem o cruzeiro no Nilo que os levaria por Karnak e Luxor, locais que faziam parte do seu imaginário desde desde pequena. Ao seu lado, ele dormia tranquilo, o seu corpo bronzeado contra o branco dos lençóis de algodão. Passou ao de leve as pontas dos dedos pelo seu cabelo, tendo cuidado para não o acordar. Estavam casados há pouco menos de duas semanas e ela sentia-se tão feliz que mal cabia na própria pele. Levantou-se sem pressa e dirigiu-se à pequena casa de banho onde tomou um duche rápido, vestiu um vestido de linho amarelo claro, calçou-se e saiu da cabine. Chegada ao varandim, inspirou profundamente, aproveitando o ar ainda fresco da manhã que começava. 

 

Vindo não sabia de onde, num silêncio a que começava a habituar-se, o homenzinho surgiu junto dela e perguntou no seu habitual francês macarrónico café, madame? ela juntou as palmas das mãos, inclinou a cabeça numa breve saudação que acendeu pequenas estrelas aos olhos dele, e respondeu oui, merci, e sentou-se numa das cadeiras que se alinhavam em fila ao longo do convés. Pouco depois tinha na mão um copinho de vidro decorado com arabescos em dourado contendo o tão oportuno liquido castanho, tão doce que em nada se parecia com o que estava habituada a beber no seu país - e ela que jurava só gostar de café sem açúcar.

 

E depois a manhã passou ligeira até ao momento em que o barco parou, se apearam e foram transportados de jipe até à entrada do templo de Luxor, onde a felicidade se juntou à incredulidade de se encontrar realmente ali. Podia sentir o cheiro do deserto, da areia aquecida pelo sol a pique, dos seus protetores solares a dissolverem-se sob os quarenta graus, mas nada era mais indelével que a impressão esmagadora que sentira quando olhara para as estátuas dos sacerdotes que ladeavam a entrada e se repetiam e multiplicavam quando entrados no templo. Todos os tons do deserto cor de areia, aqueles amarelos, tons ocre, toda aquela vida que lhe pulsava nas veias estava ali, em meio a monumentos que faziam presente uma civilização extinta há tantos séculos.

 

As vozes começaram a ficar mais elevadas, e ela entreabriu os olhos. Os miúdos estavam a sair da piscina e enfiavam os chinelos de toalha na mão, entre empurrões e gargalhadas. Endireitou-se e disse para irem tomar duche que sairiam a seguir para a pizaria. A algazarra esmoreceu ao entrarem na casa, e ela respirou fundo com um sorriso.

 

Dois filhos e 12 anos mais tarde, ali estava ela, tal como ele ali estaria no dia seguinte, para celebrarem o aniversário de casamento, encetando pela segunda vez a mãe de todas as muitas viagens que tinham feito ao longo dos anos.

 

E como há dezasseis anos, voltou a sentir as borboletas no estômago - e em meio à antecipação por voltar a um lugar onde fora tão feliz, não conseguiu deixar de se perguntar se o homenzinho silencioso com olhos de estrelas lá estaria mais uma vez e de manhã lhe perguntaria, no seu habitual francês macarrónico, café madame?

 

- Também deste desafio:

Rosa

Narciso

Ela

Tua

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a Marquesa a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

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