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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Jogo de espelhos

13.01.17 | Fátima Bento

Vou no comboio, lavada em lágrimas, a ouvir a mesma canção em loop. A verdade é que a letra da mesma, que é aquilo em que me centro sempre, nem tem nada a ver com o turbilhão que me envolve. Ou quase nada. Se substituirmos um tipo de amor por outro até é capaz de ter. De qualquer maneira dizem que existe uma qualquer forma quase matemática de colocar os acordes por forma a nos pôr as emoções à flor da pele, ou a transbordar olhos fora. Não sei. Só sei que choro.

 

Ironicamente atento no quanto isto das redes sociais faz de todos nós um bocadinho psicóticos. Por exemplo, se agora abrisse o FB e alguém tivesse publicado uma imagem divertida, eu colocaria o like das gargalhadas, mau grado a última coisa que me apeteça seja rir.

 

E, desfeita por dentro, ou não escrevo nada no blogue, ou procuro forma de parir um post o mais possível afastado do que sinto. Porque ninguém gosta de choradeiras nem mimims - a começar por mim, principalmente quando se trata do meu blogue.

 

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Por isso, e sem me perder entre eu e a 'outra eu', as redes sociais criaram um desdobramento reativo que, tenho em crer, é transversal a quem usa estas ferramentas há algum tempo. Claro que, pelo menos em teoria, estamos todos em risco de nos perdermos entre o objeto e o reflexo do mesmo, entre o que sentimos e mostramos, entre quem somos e quem mostramos ser - é aí que entra a psicose ainda que - quero acreditar que na maioria dos casos - de forma moderada.

 

Torna-se difícil assumir num blogue onde damos a cara, onde há quem nos conhece de carne e osso -  e se uns gostam de nós, outros afiam as presas para nos ver a afocinhar no lodo da desgraça - outros nos conhecem só de nome e foto, e de alguma forma criaram um qualquer tipo de expetativa em relação ao que desejam ver de nós, que só podemos tentar adivinhar. E em meio ao dia-a-dia comezinho, às mesmas idas e vindas, às mesmas voltas, ao jantar que foi as sobras da véspera, à falta de vontade de abrir o editor e escrever alguma coisa que espelhe pré-requisitos que podemos apenas adivinhar, acabamos por fazê-lo: pintamos o sorriso e avançamos.

 

Porque escolhemos assim! Ninguém obrigou, ninguém forçou. Entrámos no labirinto e perdemo-nos, amarinhando agora pelo nosso ego acima sem atingir o climax. Ou ingenuamente porque gostamos de escrever e esta é a forma de nos lerem. E enfiámos a nossa presença nas redes sociais numa guita e amarrámos uma ponta ao blogue e acrescentámos uma forma de dever a prender-nos a cada uma delas. E depois abrimos os nossos 'facilitadores' que nos somam os seguidores de todas redes mais o número de visitas que o blogue tem e babamos 'que boa que eu sou!'.

 

Onde foi que, qual D. Giovanni, vendemos a alma?

Onde foi que assinámos a sangue EM TROCA DE NADA (ou de tão pouco) a nossa preceção da realidade vista através de uma rede de chapéu de luto?

 

Onde foi que a dúvida deixou de ser entre qual a pessoa e o reflexo, e passou a ser entre o sujeito e QUAL dos reflexos?

2 comentários

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    Fátima Bento

    13.01.17

    Olá

    Sabes, ando nisto há quase 12 anos e como dizia a outra há dias, já vi de tudo. E se me ponho a ler o meu blog-mãe do início, como já o fiz, dou com tanto erro, tanta gralha, tanta falta de conhecimento (até em centrar fotos!), e ao mesmo tempo com uma ingenuidade, uma espontaneidade que fui perdendo pelo caminho - é mesmo assim, a gente cresce e as coisas crescem a par; mas tem piada acompanhar, agora 'de fora', o caminho que fiz.
    No entanto sei que houve tanta coisa que não está lá - embora eu fosse insuportávelmete queixinhas, ráispartàmiúda...

    E agora, de sopetão assalta-me a ideia da solidão interior que uma pessoa como a Ana Garcia Martins estará agora a sentir por dentro. ELA não se pode vir queixar. Ela tem que dar ao queixo e aguentar com bravura. Esse é um dos preços mais perversos de ter um blogue de sucesso...

    Por aqui sou só um blogue pequenino, não tenho de me preocupar com os meus leitores... só tenho o cuidado de não me queixar - pelo menos não muito... - e de resguardar a minha privacidade e a dos que me são próximos (não foram os ouros envolvidos e era uma desbunda-à-estivador com a linguagem respetiva, volta não volta...), ainda que para isso use e abuse de metáforas quando já não aguento mais segurar tanta merda cá dentro...

    Obrigada pelo mimo, querida. B'jinho's
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