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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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02
Ago16

Memória de elefante, António Lobo Antunes.

Fátima Bento

Ui, escrever sobre ALA é um risco; para mim e para os outros. Para mim porque me perco, para os outros porque ficam nauseados da admiração que transborda em qualquer texto que escrevo com alusão ao autor.

 

Escritor com E grande.

 

A ver se consigo cingir-me ao essencial sem pegar nas palavras do seu primeiro livro,

 

 

os meus livros não são autobiográficos. Não escrevo sobre mim nos meus livros pois não Piedade*? Não... bem, escrevi os primeiros, o Memória de Elefante e Os Cus de Judas são autobiográficos, mas foi só. Não escrevo sobre mim nos meus livros...

 

assumidamente autobiográfico e desatar a dissertar sobre o que penso, acho e sinto.

ALA escreve, mais que ao correr da pena, ao correr do pensamento. E se nós começamos por pensar no bolo de chocolate que vamos fazer para o lanche de domingo, e de enfiada, às tantas acabamos a recordar o último dia de praia do verão de 2001, e tudo faz sentido na nossa cabeça, o que é que a escrita do autor tem? que o transforma no 'bicho-papão' dos livros-difíceis-de-ler-e-compreender,

 

 

Os meus livros não são difíceis. Acha, que os meus livros são difíceis? Não, não são difíceis...

 

que se compram e deixam na estante, pequeninos que nos sentimos em face a uma obra de tal envergadura, a olhar para a lombada como se temêssemos que ao lhe pegarmos, ele nos engula de um trago.

Isso e se oferecem no Natal, peito cheio de presunção intelectualóide para o pai, o tio, o senhor doutor, o último livro do Lobo Antunes!, porque fica bem - e a Dom Quixote sabe, que escolhe dezembro para lançar o novo, o último, que está nos escaparates dois meses antes, mas assim reacendem-se os ânimos e recorda-se a resposta fácil à prenda difícil.

Quanto ao livro que dá titulo ao post, é o primeiro que ALA escreveu. Ou melhor, publicou, que quando lemos as cartas de Angola que escreveu à mulher, entendemos que escrever, sempre escreveu, mas nada que considerasse suficientemente bom para publicar, e lá estou eu a perder-me nas curvas outra vez, dizia então que é o primeiro livro que escreveu - e eu ainda não tinha lido, apesar de o ter recomendado a não sei quantas pessoas que me diziam o habitual, que-ALA-é-difícil-por-isso-só leio-as-crónicas, então começa pelo inicio, nem tentes agarrar num dos últimos, que é mergulhar de cabeça sem conhecer o rio e a profundidade do mesmo.

 

As pessoas dizem que a minha escrita é difícil de entender porque pegam no livro e querem entendê-lo usando a SUA chave; ora cada livro tem a sua própria chave, e temos 'de nos deixar ir' até a encontrar...

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Memória de Elefante dá-nos uma chave para o estilo de escrita/leitura das obras de ALA: seguimos a linha de pensamento do narrador, com as suas subidas, descidas, curvas e contracurvas, com memórias em mistura com expetativas... como cada um de nós pensa. Sem UMA forma concreta à laia de sujeito e predicado, mas a perder-se nas pregas da memória, nos arrebites da vontade caprichosa que a mente exige como prerrogativa.

 

Memória de Elefante é o primeiro na prateleira. Outros se lhe seguem, perfilados como soldadinhos de chumbo à espera da troada de carga!! saída dos pulmões de um general em miniatura.

 

E é isto.

 

António Lobo Antunes deixa-me à deriva nas palavras, perdida na ideia que quero passar. Se o livro é bom? Não mo vão perguntar, pois não?

 

Opiniões há que apontam ALA como o menino bem a desmultiplicar-se na arte do palavrão fácil, e que reduzem a sua escrita a um exagero de metáforas alinhavadas entre si por um discurso inútil. Quem advoga tais argumentos, nunca o leu, mesmo que tenha ido da primeira à última página de todos os livros que publicou.

 

ALA não se lê palavra a palavra: sente-se nos espaços.

 

 

Nota de rodapé:

em itálico, parafraseadas, frases de António Lobo Antunes aquando do lançamento de 'Da Natureza dos Deuses', em dezembro último. 

*nome da sua editora, que o acompanhava na mesa, aquando do referido lançamento, e a quem se dirigia como que ancorando-se à presença (re)conhecida numa sala cheia de admiradores desconhecidos.

{e assim passo três horas e meia, a polir o que queria perfeito. Ler ALA faz-me disto...}

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