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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

03
Mar21

Narciso

Desafio caixa de lápis de cor

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Entrei no carro e apertei o cinto. Acendi as luzes, liguei a ignição e fiz-me ao caminho. A noite estava silenciosa e sentia-me o único na estrada, pesava-me a solidão. Passei por alto as estações de rádio, uma após outra, buscando algo que me fizesse companhia e só encontrei música. Cansado de procurar, deixei o habitáculo encher-se com melancolia.

 

Fazes-me falta. Não sei quando me apercebi disso mas a verdade é que me fazes falta, e tenho de ser honesto comigo. Todo o tempo que estiveste ao meu lado e que desperdicei enfunado no meu orgulho, no bem que me fazias sentir jovem e desejado, sedutor e irresistível e olhava-te sem te ver, encantado por me ver refletido no teu olhar apaixonado, mal reparando nos teus olhos. Era eu. Por mim te desdobravas em carinhos e mimos que me deleitavam. Tenho agora consciência de que nunca retribuí, não como merecias. Aceitei tudo o que me destes como se fora meu por direito.

 

Abro o pisca e mudo de faixa. Vejo o teu rosto quando te aproximavas e te encaixavas no meu abraço, o melhor abraço do mundo, dizias. Os teus olhos azuis tão claros e transparentes que via sem querer ver o amor que espelhavam. Suspiro. Como é que não tinha consciência de que abraçar-te era como chegar a casa? Como não reparava que nesse momento éramos duas peças que constituíam um mesmo objeto? 

 

A viatura atrás de mim buzina, o sinal passou a verde e ainda não saí do lugar. Avanço. Sinto os teus lábios nos meus. Inspiro e tento recordar o teu perfume, a suavidade dos teus cabelos que percorria com os dedos. E por momentos é como se estivesses ao meu lado, mais uma vez.

 

Acabo de entrar numa pequena vila, casinhas baixas com as luzes acesas. Permito-me imaginar casais como nós nunca chegámos a ser sentados no mesmo sofá, quiçá enroscados, a assistir algo na tv. 

 

Aparentemente o confinamento deu-te espaço para te aperceberes do quão desequilibrada estava a balança. Eu, por meu turno, comecei a sentir o teu afastamento como uma pequena dor que se fazia sentir quando algo te trazia à minha memória... não sei quando esse algo se tornou quase permanente, e a dor deixou de ser assim tão pequena. No entanto, nada te disse, talvez ancorado no meu narcisismo, com a certeza de que, ultrapassados os momentos que nos mantinham afastados, te voltaria a sentir nos meus braços e poderia enfim contar-te tudo o que não te dissera antes.

 

Reduzo a velocidade, retardando a chegada ao meu destino. Um arrepio percorre-me e aumento a temperatura do ar condicionado. Debalde, o frio que me tolhe vem de dentro. E volto a ver-me ali, sem necessidade de máscaras e distancias, bastava estender o braço para te tocar. Algo nos teus olhos desencorajou o gesto, e percebi que te perdi. Nem escutei quando o disseste em palavras que terás escolhido para não me magoar o ego. Tinha perdido o comboio das emoções.

 

Preparo-me para aceder ao espaço onde deixarei o automóvel. Cheguei finalmente ao local onde vou passar o fim de semana. Sozinho.

 

Faço o check in, entro no quarto e dirijo-me ao espelho onde perscruto o meu rosto, linha por linha. Mais uma vez interrogo-me sobre que viste neste rosto cansado e gasto. Eu fiquei com o meu orgulho, a minha posição, e tu com a tua alegria e gaiatice, esse teu riso e olhar travesso que agora recordo e é como se se quebrasse algo cá dentro.

 

Face à inevitabilidade do teu não regresso, olho-me nos olhos e oiço-me dizer:

- Tarde demais meu velho. A vida pode dar segundas chances, mas não desta vez.

 

- Também deste desafio:

Ela

Tua

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a MarquesaConcha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

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