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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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07
Out18

O gato

Fátima Bento

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Ninguém sabia o que a pequena caixa tinha dentro. Sabiam que tinha uma fechadura, mas nunca ninguém lhe tinha visto a chave. Nem sabiam sequer o material de que era feita, apenas que não se partia quando caía ao chão - coisa que raramente acontecera, já que a avó sempre a guardara em prateleiras altas, onde os miúdos nem chegavam depois de crescerem..

 

Ninguém adivinhava o conteúdo, mas a avó pedira que lha levassem ao hospital. Foi a única coisa que pedira.

 

E camisa de noite, robe, pantufas, avó? Quero lá saber disso! Se for preciso, ando com as camisas do hospital, a mostrar o traseiro a toda a gente, que me importa?Traz-me a caixa castanha, só quero a caixa castanha!

 

Birrenta, a avó. 

 

E lá foi a equipa de futebol, manos e primos, todos netos da avó, bisnetos à mistura, direto para a divisão a que a avó apelidava de biblioteca e que era um pequeno quarto forrado com estantes até ao teto, tão carregadas de livros que nem se conseguiam contar, e onde estava um cadeirão de orelhas e um pequeno aquecedor a óleo, mais um candeeiro de pé - nunca ninguém percebera se ela tinha alguma vez lido os livros que se encontravam por detrás, uma vez que a única vez que lhe perguntaram ela franziu o cenho e vociferou, disparates, vocês só se interessam por disparates, olha agora! arremessado com tal impacto que nunca mais lhe perguntaram. Ficou assinalado como um dos "mistérios da avó".

 

Um dos primos, filho da Carlota, a segunda filha da avó a partir da mais velha, teve um dia a ideia de criar um Caderno dos Mistérios da Avó, onde figuravam desde aqueles envelopes antigos que ela guardava no fundo da última gaveta da cómoda, já amarelecidos pelo tempo, de que nunca falara a ninguém, passando pela forma sui generis com que a avó matraqueava as teclas do piano enquanto todas as crianças dançavam a bom dançar, acompanhadas pelas gargalhadas da senhora que não acertava qualquer harmonia e se justificava com um, para quem aprendeu sozinha, toco mesmo bem!, e ria outra vez, e as crianças faziam coro e riam e dançavam até os dedos da avó se cansarem, Também figuravam os bolos bons de lamber os dedos que ela fazia sem receita, medidas ou balança. 

 

Mas o maior, mesmo o maior de todos os mistérios da avó, era o conteúdo caixa castanha.

 

E assim se explicava a azáfama de toda a trupe quando se enfiou biblioteca dentro - alguns até tiveram de ficar de fora, que a divisão era pequena para tanta gente - em busca da caixa castanha. Percorreram prateleira a prateleira, lombada a lombada, deixaram cair palavrões, mas a caixa? Onde estava a caixa?

 

Até que a Matilde, a mais novinha das bisnetas da avó, de quem tinha herdado o nome, apontou para o alto e disse ali, ali! 

 

E foi assim, sem compreender como é que uma criaturinha tão pequenita conseguira ver a caixinha numa prateleira tão alta que o Artur, que tinha quase dois metros, teve de ir buscar o escadote para alcançar.

 

E foi uma corrida de volta ao hospital com a caixa bem segura, ai que é desta que vamos saber o que ela tem dentro, é desta que a avó conta, num alvoroço em que pareciam todos miúdos das mesmas idades.

 

Lá chegados só não correram para o quarto da senhora porque o bom senso exige um certo decoro no que concerne aos corredores dos hospitais, mas mal se viram à porta do quarto, entraram todos à uma, braço estendido empunhado a caixa, Está aqui! Está aqui! 

 

Só depois repararam na maquina com gráficos coloridos e números, e bips ritmados, e a seguir a enfermeira entrou aflita, que não podiam estar ali, nunca tantos e naquele momento, ninguém. A avó abriu os olhos e foi buscar ao seu âmago as forças para mandar calar a enfermeira naquele tom que usava para pôr as tropas em ordem e concluiu, tragam-me a caixa. 

 

Com respeito a Matilde aproximou-se da avó com o mesmo nome e colocou-lhe a caixa entre as mãos de dedos magros e ossudos. A avó sorriu-lhe o sorriso mais doce de todos os sorrisos doces, disse-lhe para se chegar mais perto, e sussurrou-lhe ao ouvido, após o que lhe tocou com as pontas dos dedos nos lábios enquanto fazia o som shhhh. A menina aquiesceu. 

 

Toda a família saíu devagar, em silêncio, cientes do momento que se avizinhava. Antes de sair, a pequena Matilde olhou para trás, e viu a avó abraçada à caixa, o seu maior tesouro.

 

Foram todos para a sala de espera, e entre cafés e silêncios ricos se passaram as horas seguintes. Os pequenos dormiam ao colo dos pais quando a enfermeira voltou a entrar na sala para anunciar o que sabiam. Entre lágrimas e abraços as crianças foram acordando estremunhadas, perguntando o que se passava, os pais explicando que havia mais uma estrela no céu. A enfermeira inquiriu se se queriam despedir-se da avó Matilde antes de a levarem - como se fosse necessária a pergunta - e toda a família se dirigiu para o quarto, passos lentos da tristeza que lhes pesava no coração, semblante carregado de dor. No grupo destoava a pequena neta com o nome da avó, que sorria e caminhava resoluta, furando a comitiva, enquanto pensavam coitadinha, não sabe o que é a morte... chegados ao quarto, Matilde neta dirigiu-se à cama de Matilde avó trepou para cima desta e, antes que alguém tivesse tempo de dizer espera, pôs a mão no decote da avó e puxou o cordão de ouro de onde pendia um medalhão. Abriu-o, ante o olhar estupefacto de todos, e tirou de dentro uma pequeníssima chave, que estendeu à mãe. 

 

A mãe, meio a medo pegou na pequena caixa e abriu a fechadura. Dentro estava um saquinho plástico com um pó fininho, e a foto de um gato branco.

 

Foi isto que a avó te disse? Perguntou a mãe a Matilde. Xiim. E dixe tameim que não xoraxem, que ela tava felix porque ia ter com o melhor amigo dela, e vai tá xempe a olhar por nóx todox.

 

#desafiodeescritacriativa

 

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