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Porque Eu Posso 2.0

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso 2.0

... e 'mái nada!

Sabem quando um filme vos deixa de barriga cheia, porque foi tão bom? Sabem quando um filme vos deixa atordoados, com a sensação que o nível de oxigénio da sala terá baixado

            com certeza

para nos sentirmos assim estonteados, um-quê-de-agoniados-embora-sem-chegar-à-náusea, e sem percebermos bem porquê? 

Operação Eye in the Sky (adaptação do titulo original um nadinha ao lado, já que o nome da operação nem é esse, embora a expressão seja, corretamente, muito usada no filme)

            mas o que é que isso interessa?

consegue isso tudo. E muito mais.

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Antes de mais nada, quero dizer que o filme é extraordinariamente bem conseguido. E não, não é só por estar recheado com a fantástica prestação de Helen Mirren, nem com a presença do icónico Alan Rickman, nem de um desempenho escorreito de Aaron Paul... é pelos pormenores, pelos alinhavos com linhas de seda, pelos acabamentos reforçados, pelos pequenos pormenores bordados à mão.

Quem viu o trailer oficial do filme, sabe que falamos de terroristas no Kenya, ocidentais convertidos ao Islão, bombistas suicidas, de um teatro de guerra gerido de um QG no Reino Unido, em coordenação com uma equipa de big shots britânicos - composta por representantes dos diversos poderes políticos e encabeçada por um general - em ligação estreita com os norte americanos, país onde se situa o 'compound' de contentores de onde são operados os drones armados.

Mas todas as localizações são absolutamente secundárias, porque ali estamos todos no mesmo lugar.

Plot: devido à reunião de três dos cinco mais procurados terroristas islâmicos sob o mesmo teto, é montada uma operação secreta de captura com apoio de vigilância remota. Ao serem visionados coletes de explosivos prontos a serem vestidos, a Operação muda 'de captura' para 'a abater'.

Entretanto quando o míssil está prestes a ser disparado, uma criança coloca-se inadvertidamente na zona de impacto, o que torna a situação moral, ética e mesmo politicamente confusa.

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Aqui entramos nós. Sim, os espectadores que estamos sentadinhos nos nossos lugares - como sentados estão todos os intervenientes neste 'jogo de guerra'. Não porque tenhamos algum poder de decisão mas porque é a partir deste momento que todo o acumulado de imagens de guerra que nos entram diariamente pelos olhos, toda a informação que digerimos sobre os ataques bombistas, sobre os ataques dito-cirúrgicos, nos faz sentir empatia, ou a ausência dela. É aqui que começa o nosso teatro de guerra privado e interno. 

A pergunta de um milhão de dólares é simples: sacrificamos uma criança como dano colateral, ou sacrificamos 80 alvos potenciais no ataque suicida a um Centro Comercial, nos quais se contarão também outras crianças? A verdade é que continuamos a ver a menina, enquanto os pupeteers vão passando a bola uns aos outros em busca de alguém que dê luz verde ao gatilho; ao mesmo tempo, não conhecemos nenhum dos oitenta alvos, e isso pesará na tomada de posição: nossa e de quem opera os comandos e as decisões.

Alguém levanta a questão: em termos de propaganda, se eles concretizarem o ataque suicida, eles perdem, se este video for tornado público, somos nós quem perde.

            assim de simples...!

E ficamos ali,presos ao assento até ao último segundo do filme, a debater-nos com a nossa hipocrisia, a torcer por um rosto, de quem nos foi mostrado um nadinha do dia a dia, a despeito de oitenta, que como não vemos, e de quem nem conhecemos nada, no nosso imaginário é como se não existissem. E, a serem vitimas, não seriamos nós a puxar o gatilho. 

Não?????

A verdade, assim a frio e sem anestesia, é que puxamos o gatilho em qualquer caso. E sim, custará muito mais disparar a olhar no fundo dos olhos de alguém, de que permitir disparar sobre quem não temos à frente. Vamos dormir mais descansados nessa noite (???). A verdade é que quando o filme acaba, quando nos olhamos no espelho, duvido que alguém goste do que vê. Esta é uma lose/lose siuation, o que faz com que o facto de termos estado de qualquer um dos lados nos mostre um reflexo distorcido, um afinal quem sou eu - o mesmo com que estes operacionais, desde o que dá, ou não, luz verde, ao que diz dispara, ao que prime o gatilho se confrontam em permanência.

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E depois há o outro caso. O caso dos espectadores, como eu, que dão dois passos atrás e se limitam a observar. Porque este mundo transformou-se num mundo de observadores, de achistas, de tudologistas todos cheios de certezas. E nós observamos a pensar não posso fazer nada, não é comigo, quando no fundo É com todos nós. Quer seja dada luz verde ou vermelha, quer se prima o gatilho e se mate a menina feliz dos olhos grandes, ou se permita que as oitenta pessoas sejam chacinadas, não nos podemos demitir de que tem a ver connosco.

Saí do cinema triste, enjoada e tonta. Com a sensação de ter respirado tempo demais com pouco oxigénio.

E com receio de me olhar no espelho.