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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

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01
Mar18

Os meus 1'36'' de glória... antes do esborrachamento da minha dignidade

Fátima Bento

Em pirralha fui superprotegida. Quando andava na primária a mãe e a avó achavam que eu não podia sequer sonhar em apanhar frio e era vestida com duas ou três camisolas interiores, mais outras quantas por cima, casaco de malha e casacão (na altura tanto quanto sei ainda não tinham nascido os kispos). 

 

Ora, no intervalo, era ver os meus colegas a correr, a brincar às escondidas e à apanhada e eu, qual boneco michelin, a sair a porta, sentar-me num muro e a ver os outros correr - eu lá me conseguia mexer dentro daquilo tudo??? E ainda por cima era tudo muito justinho ao corpo, que era para ficar mais quentinha, e eu bem queria levantar os braços... mas mal conseguia afastá-los do corpo. Um pequeno pesadelo (de proporções épicas). 

 

Ora paginas tantas acabo a 4ª classe e vou para o 1º ano da preparatória (atuais 4º e 5º anos), sem estar habituada a fazer qualquer atividade aeróbica (OU a brincar, que fosse!) a jogos de grupo que envolvessem competências físicas, quando me apresentam as aulas de Educação Física: trauma e tormento (grande título, quase tão bom como Fogo e Fúria): ainda tenho pesadelos com o cavalo e o plinto (não me lembro do coiso com esse nome, mas está bem). E a trave. Arre.

 

E depois haviam as aulas no exterior com os desportos de grupo. Como diz a Luísa Sobral na musica João

 

...e nunca sou escolhida/quando fazem equipas /para o futebol

se alguém fica doente/entro para suplente/e fico sentadinha a apanhar sol

 

Era assim, era. Até que que os suplentes adoeceram e eu tive de jogar.

Futebol.

Com dois pés esquerdos.

 

Vocês imaginem lá, se conseguirem: eu, e a bola a mal me tocar nos pés, sempre a ser roubada. Até que tomo posse de bola, faço uma finta, e avanço para a baliza, sem medos.

A adrenalina corre-me nas veias. Sou tão rápida, tão imparável, que ninguém sequer me tenta tirar a bola. Eu avanço para a baliza. A guarda redes  (ainda me lembro do nome dela, Cristina) faz um esgar que no meio da minha nuvem de omnipotência desportivófutebolistica assumo como medo. Medo puro, porque eu estou imparável, sou a última coca-cola do deserto. Em frente à baliza, remato com força. Ela nem se mexe. Eu fico eufórica: Pulo grito, ajoelho-me no chão, preparo-me para desatar a correr campo fora para celebrar a vitória, mas ao virar-me, estranho: todos, mas TODOS os meus colegas estão colados ao chão E a olhar para mim de boca aberta.

Ao inicial ah-ah, sou boa ou não sou? que me passou pela cabeça, seguiu-se um porque é que eles estão todos a dizer não com a cabeça devagarinho? Viro-me para trás, para a baliza, onde a bola jaz junto à rede e a Cristina diz-me: - a baliza não era esta.

 

Esta é a tua!!!

 

dafuq.jpg

 

Esta história ainda hoje me faz chorar a rir. Não me lembro se a humilhação que senti foi avassaladora, ou se foi assim um pequeno espirro. Lembro-me que me trocaram imediatamente pela guarda redes, e que cada vez que alguém se aproximava da minha baliza para rematar, eu me encolhia a um canto com medo de levar com a bola e doer. Perdemos por tantos quantos os colegas que se dirigiram à baliza com a bola nos pés.

 

Mas uma coisa que nunca esqueci foi aquela sensação de invencibilidade total, aquele peito cheio, aquele prazer enorme em conseguir fazer uma coisa que se me tinha desde sempre afigurado impossível. Foi asneira, foi, meti uma autogolo de um lado do campo ao outro, mas lá que me senti a melhor do mundo senti.

 

E isso ninguém me conseguiu tirar!

 

Até hoje!

 

- e o que me tenho rido sozinha cada vez que me lembro! Este foi um trauma em potencial que não pegou!

 

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