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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

22
Set15

Perguntem a Sarah Gross - tanto, mas tanto...

Já disse e escrevi isto um sem número de vezes, e vou repetir-me: as unanimidades assustam-me. Não é bem assustar, é mais deixar-me 'de pulga atrás da orelha'... quais são as probabilidades de toda a gente gostar da mesma coisa?

Foi com esse espírito, o de 'vamos lá então ver isto...', que iniciei a obra que dá titulo a este post.

À segunda pagina interrompi a leitura - a minha e a do Victor, que anda enrolado com o Jo Nesbo - e afirmei: ráispartóhomem que escreve bem que se farta!

E continuei a leitura.

Devo dizer que, até uma nadinha mais de que o meio do livro,  a coisa esteve tão em lume brando que e fez pensar no titulo daquela obra de Shakespeare "much ado about nothing", embora o nothing, neste caso, fosse um bocadinho mais de que nada. A escrita embalava, e eu deixava-me ir confortavelmente pendurada nas palavras de João Pinto Coelho.

E eis quando as coisas mudam quando Esther e Kimberly se encontram em 1969. A partir daqui o livro começa a parecer-me o que esperava, e em menos de nada ultrapassa tudo o que poderia imaginar. Não são os relatos, que já li umas quantas obras e vi uns quantos documentários que me apresentaram a verdade do nazismo, de Birknau e de Aushwitz... é a forma como o autor nos passa a informação, emocional e visualmente, porque é impossível ler e não sentir, não ver, não desesperar. 

E é de ter sempre presente que, mesmo com retratos pungentes é inimaginável sequer ter a arrogância de pressupor 'fazer uma ideia' do que sentiram e como, de fato, viveram aqueles carimbados de üntermenschen.*

"Perguntem a Sarah Gross" é uma obra-prima. O autor tem curriculum que lhe permite saber do que fala, e tudo o mais, a que se junta um talento esmagador para a escrita, e uma capacidade de imprimir um tempo (ritmo, se preferirem), tão, mas tão perfeito, que agora estás a ver montras, e de repente cai-te um muro de betão em cima e deixas de te conseguir mexer. Essa é a melhor metáfora para o trabalho de JPC, que me ocorre.

Fabuloso? Definitivamente.

Obrigatório? Mais. Muito mais de que obrigatório.

Obrigado JPC. Duvido que quem ganhou o prémio LeYa tenha sequer conseguido chegar à sola dos pés deste livro.

perguntem.jpg

*em tradução livre, sub-humanos

5 comentários

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    Fátima Bento 23.09.2015

    Não desistas, Cláudia!
    Eu, que ando uma esquisita de primeira (este verão já 'mandei para trás' meia dúzia de livros), fiquei verdadeiramente soterrada por este. Sim, adorei 'Os anagramas de Varsóvia' do Zimmler, mas este é orquestrado com uma maestria... não é um crescendo, passas tanto tempo num lago calmo e depois... depois é o mar do norte. e tu estás ali, amarrada de pés e mãos e a única coisa que podes fazer é assistir aos naufrágios.
    PRESSISTE, que vale a pena!
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    Cláudia Oliveira 23.09.2015

    Acho que vou ter de recomeçar do inicio porque já nem me lembro nada do que li. Só da entrevista de trabalho... Vou persistir. :)
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    Paulo Pires 23.09.2015

    Eu comecei a ler este livro só porque reparei que tinha tido 5 estrelas no Expresso e no Público. Fiquei curioso porque sei que isso é muito invulgar num escritor principiante. E um escritor português de que nunca tinha ouvido falar, era estranho. Mas acho que me aconteceu o mesmo que à Fátima, comecei de pé atrás, tenho sempre medo de me desiludir. Puro engano, o romance é monumental! Tem uma intensidade narrativa (sobretudo na segunda metade) como há muito tempo não encontrava num livro. Chega a ser atroz nalguns momentos mas a crueza das descrições consegue ao mesmo tempo ser esmagadora. Grande, enorme livro. Sem qualquer hesitação o melhor que li nos últimos tempos.
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    Fátima Bento 24.09.2015

    Verdadinha, Paulo Pires! E já li, como disse, vários livros com o Holocausto como pano de fundo, e narrativa. Mas este é absolutamente surpreendente no seu todo, e nas sensações que nos provoca.
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