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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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09
Ago16

Qual é o teu maior medo?

Fátima Bento

A pergunta foi feita assim, largada qual papel anónimo num qualquer cesto para reciclagem, qual é o teu maior medo? Penso que vamos ter de esperar um bom bocado pela resposta, já que não sei nem faço a mínima ideia, sempre me foi reconhecida a bravura de não ter medo de nada, que ouvi aplicada nas situações mais diversas, enquanto cá dentro a criança estava silenciosa sob ameaça, sem conseguir esconder todos os papões dentro do armário, o que lhe provocava alguns tremores discretos, e invisíveis a quem me elogiava a bravura.

Onde está o meu calcanhar de Aquiles? que tenho de desvendar e pôr à mostra mesmo em surdina, que seja só para eu ver.

Vejo-me pequenita, numa sala de aula vazia, quadro de ardósia e estrado, na secretária da professora uma cadeira de ângulos austeros a gritar o desconforto que provoca a quem nela se sente, vazia. Estou sentada no chão, sobre o estrado, a um quadro de parede de distância do lugar ausente da chefe da sala, e escondo a testa nos joelhos, enquanto abraço as pernas em soluços mudos. O relógio da parede deixa escorrer as horas sem mudar os ponteiros de sítio, e ao passar do tempo nada muda, continuo no mesmo lugar nos mesmos preparos de lágrimas ranhosas, a professora ausente, a sala ausente de turba condizente com a sua função.

 

Sinto um arrepio e olho em volta; distingo as vozes, cheiros e sons que asseguram a minha presença na igreja devotada à sagrada cafeína em que me encontro, grandes baldes de misturas doces e aveludadas sob tampas brancas, é para levar ou beber aqui, qual é o seu nome, já chamamos, Fátima!. E enquanto tamborilo os dedos na mesa a que lancei amarras enquanto espero, noto que a resposta à pergunta é tão clara quanto o liquido no copo de água que pedi para hidratar a espera. Óbvia e pasmo!, insidiosamente desconfortável, que me quero capaz, capaz sozinha.

 

 

Tenho medo de não ser gostada. 

 

Quisera conseguir agradar a todos, porque a indiferença me dói mais de que o ódio ou a raiva. Tenho medo, mais de que de não ser alvo de sentimentos fofinhos decorados com nuvens cor-de-rosa, de ser atirada para o oblívio, de me ser retirado corpo, presença e sombra, de ser transformada em menos que uma memória, invisível que me queiram e possam, na sua indiferença. 

Não existe em mim pinga de receio, penso enquanto me dirijo ao balcão de recolha como um cãozinho bem treinado que escuta o seu nome, obrigado, Fátima!, de estar ou ficar sózinha, mesmo se a maioria das vezes gosto de companhia, gosto da cumplicidade que não se consegue quando estamos acompanhados apenas de nós próprios. Mas não agito um crucifixo, de retro!, aos momentos de solidão - ou sózinhez? - que me deixam a sós com as minhas dúvidas, os meus pensamentos, as minhas cogitações, já que gosto bastante da minha companhia e não me custa estar nua em frente ao espelho.

Mas em resposta à pergunta no título, tenho medo que não gostem de mim a ponto de me prenderem num esquecimento falso que dói tanto como se fora sincero e verdadeiro. 

Crescida que fiquei mais de que com o passar dos dias, com os mergulhos que dei fundo, cada vez mais fundo, acompanhada ao longe por um salva-vidas atento, e interveniente se solicitado ou necessário, entendi nas entranhas, sem a juda do cogito, que não é possível aspirar à unanimidade do gostar - e que por si é um contracenso. E daí a começar a deixar fluir a personalidade que se esconde debaixo de um sem-número de camadas de teias de aranha construídas por falsos pressupostos servidos em bandejas de prata com campanulas enganadoras do conteúdo, é um pulinho.

Mas isso... isso serão outras núpcias...

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