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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

07
Abr21

Reguila

Desafio caixa dos lápis de cor

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Acordo e olho para os meus pés, a ver se cresceram durante a noite. E digam lá, se os pés tivessem crescido, eu também seria maior no corpo todo, já que os pés não crescem sozinhos não é? É que nem vos passa pela cabeça o quanto eu quero ser crescido, grande como o meu pai, assim valente, bater-me pelos meus filhos e defendê-los com a minha vida se preciso for - a minha mãe diz que eu sou um bocadinho dramático, mas tenho a certeza toda, todinha, que se fosse preciso o meu pai dava a sua vida por mim. Ou por ela.

 

Oiço a minha mãe a cantar na cozinha, ao mesmo tempo que um cantor canta em inglês. Ela gosta mesmo daquela musica! Já me contou que é a história de um rapaz que gosta muito de uma rapariga (bah, amor e essas coisas belhec), e disse que na canção eles são os dois assim do meu tamanho, mas eu não acredito, que ele tem uma voz parecida com o meu tio Jacinto - só que em inglês! - e o meu tio Jacinto é muito mais crescido que eu! Não é que a minha mãe minta, que não mente, só está um bocadinho enganada, é isso.

 

A minha mãe é a mãe mais linda do mundo, fico todo vaidoso quando chego com ela ao pé dos meus amigos da escola. Quando ela me quer dar o beijinho de despedida fujo, que é para os outros miúdos não gozarem comigo e me chamarem olh'ó menino da mamã! no recreio. Invejosos e parvos, é o que eles são! E tudo porque não têm uma mãe assim linda como a minha, e as deles nem os levam todos os dias à escola. Ela quase nunca ralha comigo... mas fica triste quando não como o lanche. Já lhe disse que o intervalo passa tão depressa que nem tenho tempo para comer, mas ela olhou para mim por cima dos óculos... e ficou triste à mesma.

 

O meu pai trabalha numa empresa muito grande, e eu não percebo muito bem o que faz. Dizem que são projetos, mas o que eu vejo são desenhos em folhas de papel muito grandes, que ele faz numa secretária que fica inclinada enquanto ele trabalha... diz que se chama es... esti... qualquer coisa.

 

Eu porto-me sempre bem. Bom, quer dizer, mais ou menos, falo muito e gosto mais de brincar de que de fazer os trabalhos. Ah, e gosto de pregar partidas! Mas ás vezes faço mesmo asneira, e as coisas não acabam muito bem. Há umas semanas atrás, à hora do lanche, estava com fome e a minha mãe estava a dar de mamar ao meu irmão pequenino - já vos contei que tenho um irmão pequenino? Não? Também não há muito a contar... chama-se Hugo é bebé e passa os dias a fazer quatro coisas: a comer, a sujar a fralda, a dormir ou a chorar; e chora que se farta, o meu mano, vai lá vai!... 

 

Mas estava a contar que a minha mãe estava ocupada, e eu tinha tanta, mas tanta fome que fingi não ouvir quando ela me disse para esperar e pus o pão e a faca para cima da mesa. Abri o frigorifico e quando vi que o Tulicreme estava lá no alto na primeira prateleira, agarrei num banco, pus ao pé do frigorifico e subi para cima. Tinha a caixa na mão e estava a passar o dedo no chocolate, quando o Zorro entrou a correr atrás do gato da minha mãe, que se chama Pompom (belhec), que fugiu por baixo do banco e como o cão é muito maior que o gato, chocou comigo e a caixa do Tulicreme ganhou asas. Primeiro subiu bem alto, e logo a seguir estatelou-se com toda a força no chão... é pá, parecia que se tinha aberto uma fonte de chocolate no chão, ficou tudo, tudo, tudo salpicado de chocolate - e isto aconteceu no momento em que o  meu pai rodou a chave na fechadura e entrou em casa. Ui, que fiquei com um destes cagaços quando ele entrou na cozinha, o gato passou ao lado dele disparado e o cão chocou com as pernas dele, ao mesmo tempo que ele gritou qu'a rai...??? e eu quase caí e a minha mãe entrou na cozinha com o Hugo a fazer beicinho - mesmo a preparar-se para começar a chorar, raio do miúdo - ao colo.

 

O meu pai ralhou, como eu bem sei que os grandes fazem naquelas alturas. Ainda o estou a ver, com o seu casaco de malha castanho, cor do chocolate que estava no chão, nos armários, nas paredes e eu ainda tinha nas mãos, e fora a causa de tal rebuliço, vermelho como um tomate, a ralhar e a dizer que eu podia ter caído, ou ter-me cortado com a faca, ou... não me lembro do resto.

 

Fiquei de castigo, sem comer Tulicreme durante um mês - vocês imaginam o que é isso? Só de pensar que ainda faltam duas semanas... - e fui recambiado para o meu quarto... sem lanchar.

 

Na altura fiquei muito zangado, disse que a culpa tinha sido do gato, estúpido do Pompom (belhec), que deixou o pobre Zorro cego de raiva (não sei o que o gato fez ao cão mas deve ter sido mesmo lixado... ) e se não fosse isso, o Tulicreme não tinha caido ao chão e sujado tudo. Mas eu sei bem que a culpa foi minha, que devia ter esperado que a minha mãe viesse me dar o lanche. Aprendi a lição, nunca mais faço asneiras... pelo menos dessas!

 

- Também deste desafio:

Homenagem

Real

Inesquecível

Rosa

Narciso

Ela

Tua

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a Olga, a Marquesa a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada um, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". 

 

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