Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

10
Mar21

Rosa

Desafio Caixa de lápis de cor

pexels-photo-4197491 (1)a.jpeg

 

Sempre gostara de cor de rosa. Objetos rosa, roupa rosa, sapatilhas rosa... na escola chamavam-lhe Rosa, não por ser o seu nome, mas por tudo o que a rodeava ser dessa cor. Vivia uma vida que pintava de cor de rosa, e via-a através de óculos com lentes da mesma cor.  

 

Naquela manhã, no caminho para o colégio, fez um desvio e dirigiu-se para o bosque que ficava por detrás do Centro Comercial do Concelho. Não era a primeira vez que ali se dirigia, embora ninguém soubesse que passava ali muito tempo. Caminhou resoluta por entre os troncos das árvores, rodeou a grande pedra coberta de musgo que existia antes da clareira, e continuou por entre fetos que lhe passavam largamente a altura dos joelhos - alguns chegavam mesmo até às suas coxas. Distraída, passava a mão na folhagem enquanto se embrenhava floresta dentro com a passada certa de quem sabia onde se dirigia. 

 

Calçava ténis rosa com meias curtas brancas, e não se notavam pegadas por entre a vegetação rasteira. Subitamente o caminho que fazia ficou inclinado, e ela começou a subir; o esforço devido à inclinação fê-la estugar o passo, ao contrário do que seria de esperar. A subida acabava abruptamente num penhasco e ali chegada ela sentou-se no chão, colocou a mochila rosa ao seu lado e escondeu o rosto nas mãos. Aos arquejos da difícil subida juntaram-se os soluços que acompanhavam as lágrimas que lhe lavavam o rosto. Sentia-se só, tão só que o seu peito doía de tristeza.  

 

Mal lhe dera a notícia, ele tinha-lhe dito que não o voltaria a ver, e garantiu que isso acontecia: já tinham passado quatro meses e dele nem sinal. Tinha feito todas as consultas em segredo no Centro de Saúde e fora uns dias antes fazer o exame. A barriga começava a notar-se e se até ali conseguira disfarça-la usando a roupa mais folgada, chegava aquela altura em que não só se ia tornar difícil continuar a esconder, como precisava de todo o apoio que conseguisse. Assim, deixou o relatório da ecografia sobre a bancada da cozinha, para a mãe encontrar e ficar a saber que ia ser avó. 

 

Ocorreu-lhe mais uma vez o quanto a mãe se ia sentir desapontada, certamente, como provavelmente ia achar que ela se tinha tornado alguém que não merecia a sua confiança. Enrolou os braços à volta do corpo, num abraço solitário e os soluços ficaram mais intensos durante uns minutos até que se sentiu cansada, com os olhos pesados, e deitou-se na relva macia. Adormeceu quase de imediato, os cabelos louros espalhados contra o verde, como num aro de luz. A brisa soprava suave, e o tempo passou devagar velando pelo seu sono.    

  

E sonhou. Desde que soube que desejou que o seu bebé fosse uma menina, e no seu sonho um botãozinho rosado era colocado no seu colo e ela sentia uma amor tão grande, tão esmagador, que sentia que tudo tinha valido a pena. Acordou com os olhos rasos de água e com o coração envolvido no calor de uma felicidade tranquila e imensa. Sorriu-se, a si e à menina que sabia ter no ventre. Afagou a barriga, ajeitou o cabelo e pôs-se de pé, iniciando o caminho que a levaria de regresso a casa. 

 

Foi pensando no que a esperava, e acreditou; acreditou ser possível que a mãe, passado o choque inicial, partilhasse a sua felicidade. Continuou, mais uma vez passando pela vegetação, saindo da floresta, enquanto pensava em nomes para a sua pequenina. E foi com um sorriso quase impercetível e receio que desceu a sua rua. Ao aproximar-se da casa onde vivia, viu a mãe sentada nos degraus da entrada e o seu coração ficou apertadinho. Tentou ler nos olhos desta qual a emoção que sentiria, mas estava longe e tinha os seus sentidos embotados de receio.  

 

E foi só quando a mãe transpôs o portão e abriu os braços com os olhos ainda húmidos, que ela começou a correr e quando caiu naquele abraço acolhedor, teve a certeza: nada voltaria a correr mal. 

 

- Também deste desafio:

Narciso

Ela

Tua

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a Marquesa a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

35 comentários

Comentar post

Pág. 1/2