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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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02
Out18

Simplicidade

Fátima Bento

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Tinha os dedos enfarruscados da tenaz com que empilhava as brasas no borralho da cozinha. Limpou as mãos ao avental, endireitou as costas, mão apoiada na lombar, ai os meus rins, e dirigiu-se ao cântaro. Encheu o púcaro de água, deitou-lhe umas ervas secas, e colocou-o sobre a trempe posicionada sobre as brasas. Sentou-se no banco de madeira e estendeu as mãos para o calor. Iluminadas pelas labaredas que se iam soltando de quando em vez, as suas mãos perdiam-se em frieiras, calos, verdadeiros mapas da estrada da sua vida.

 

Não olhava para as mãos, que conhecia de cor sem nunca ter reparado; ao invés, fixava a dança tímida do fogo, das brasas incandescentes, e deixava a mente vaguear por lugares que não sabia sequer.

 

Os pais costumavam juntar-se a ela em frente da fogueira, lembrava-se bem, e o pai, sempre com o seu chapéu preto na cabeça, costumava colocar um punhado de milho numa cama que fazia em meio à cinza, milho esse que estourava e era uma festa comê-lo quentinho, ao mesmo tempo que soprava a fuligem, a mesma que agora lhe enfarruscava os dedos.

 

Alzira tinha sido das mais sortudas do Lugar: tinha ido à escola, embora não tivesse chegado a tirar a quarta classe: quando entrara na terceira, a mãe tinha caído à cama, tízica, e dali só tinha saído para enterrar no cemitério da vila, roupas negras e a estranheza duma dor que a devorava e não conseguia exprimir. Depois desse dia não voltou mais a ouvir o sino que a chamava para aquela sala que tinha o crucifixo de Deus Nosso Senhor ao lado do quadro de ardósia.  

 

A partir daí a sua vida foi a casa, cozinha, a roupa do pai, limpar, alimentar os animais, plantar batatas no pequeno retângulo de terra fértil em frente à casa, e acompanhar o progenitor às hortas próximas onde cultivavam milho, cevada, trigo...

 

A vida foi passando por ela, os dias a suceder-se às noites, a Primavera ao Inverno, numa cadência ritmada: Esqueceu os sonhos que nunca teve, agarrou-se a tudo o que lhe dava prazer, os queijos e enchidos que fazia, a arca cheia de carne da matança do porco guardada em salmoura, que lhes chegava para um ano, o leite que as cabras davam. Todos os dias encimava a cabeça com a rodilha e o cântaro, que levava deitado e trazia direito, o pescoço reto num andar de bailarina sem sapatilhas de ponta.

 

O pai um dia sucumbiu, sem conseguir respirar nem explicar o que sentia, chamados os bombeiros foi transferido para a capital, cancro na garganta, nada a fazer, ficou-se ali, voltou para ser enterrado ao lado da mãe. 

 

Quedou-se na casa sozinha, e perpetuou os dias iguais como até ali, até o corpo lhe começar a falhar, e foi-se limitando às quintas mais perto, e depois remeteu-se a plantar aquele pedaço de terra junto à casa com o que lhe fazia falta para consumir. Manteve as galinhas, os coelhos, mas deixou as cabras e os porcos, que já era trabalho que não obedecia à cadência a que os seus dias se tinham reduzido.

 

Uma coisa a tinha acompanhado ao longo de todas aquelas décadas de trabalho árduo, algo que lhe tinha tornado o fardo mais leve: a fé inabalável, a ida à missa que não falhava ao domingo, fizesse sol ou chuva, a sua Senhora de Fátima, o seu Cristo na cruz.

 

Pegou na pega de trapos e tirou o púcaro, passando o liquido para a caneca através do passador de rede fina. Deitou as folhas de camomila no lixo e preparou-se para levar o chá para o quarto. Afastou as brasas, garantindo que não irromperiam em chamas, e saiu da cozinha.

 

Lavou a cara, vestiu a camisa de noite, e afastou as cobertas. Acendeu a pequena vela no altar improvisado onde estavam as imagens da sua devoção, ajoelhou.se e rezou. Não pediu nada, apenas agradeceu por tudo quanto a vida lhe tinha trazido. Fez o sinal da cruz, sentou-se na cama e sorveu o chá, onde adicionara duas colheres de chá de açúcar, com prazer. Deitou a cabeça na almofada e apagou a luz. 

 

Enquanto adormecia, ainda teve tempo de sentir aquela felicidade de quem tem tudo aquilo que conhece e precisa para ser feliz. Adormeceu finalmente, na certeza de que o sol se ergueria na manhã seguinte.

 

 

À minha tia Lúcia

 

#desafiodeescritacriativa

 

 

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