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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

31
Jul17

A Rosa e o génio

Fátima Bento

Estava na sala, e enquanto isso, tirei duas ou três fotos, acabando por desistir porque a falta de luz deixava tudo entre o laranja e o vermelho, saturação e "temperatura" altíssima, e eu que ainda sabia menos que hoje regular aquilo, achei que não devia estragar (mais) o que queria perfeito.

Foi tudo como esperava, as piadas blasé de quem até nem está a dizer uma mas podem rir se quiserem, tudo acompanhado de um sorriso condescendente. E eu ali pendurada nas entrelinhas das palavras, das frases, encantada por estarmos na mesma sala. Eu que nem gosto sobremaneira de estar em pé fiquei encostada à parede durante uma hora inteirinha, e mais o tempo em que me pus na fila e aguardei a minha vez de lhe estender o livro para que o gatafunhasse. E quando esta chegou, face a face, olhos nos olhos e por entre o sorriso saiu a pergunta nome? - Fátima - ah, tantas Fátimas que houveram naquela altura, lembra-se, que confusão! - Bom, o primeiro nome não é Fátima, é Rosa, mas prefiro Fátima... - a sério, que prefere Fátima? Eu, era Rosa, diz enquanto escreve Para Fátima, e assina por baixo.

E repete, eu, era Rosa!

ALA.jpg

 

E eu saio da sala, depois do agradecimento de que me fogem as palavras, e o olhar perscrutador de quem quer olhar para trás do meu rosto,

a pensar na frase. 

 

Já passaram muitos meses, para cima de um ano. E eu continuo a murmurar a mesma graçola, de mim para mim: pode ser, então não pode?? Rosa Lobo Antunes se calhar até lhe ficava bem...

E rio-me para mim em silêncio.

02
Ago16

Memória de elefante, António Lobo Antunes.

Fátima Bento

Ui, escrever sobre ALA é um risco; para mim e para os outros. Para mim porque me perco, para os outros porque ficam nauseados da admiração que transborda em qualquer texto que escrevo com alusão ao autor.

 

Escritor com E grande.

 

A ver se consigo cingir-me ao essencial sem pegar nas palavras do seu primeiro livro,

 

 

os meus livros não são autobiográficos. Não escrevo sobre mim nos meus livros pois não Piedade*? Não... bem, escrevi os primeiros, o Memória de Elefante e Os Cus de Judas são autobiográficos, mas foi só. Não escrevo sobre mim nos meus livros...

 

assumidamente autobiográfico e desatar a dissertar sobre o que penso, acho e sinto.

ALA escreve, mais que ao correr da pena, ao correr do pensamento. E se nós começamos por pensar no bolo de chocolate que vamos fazer para o lanche de domingo, e de enfiada, às tantas acabamos a recordar o último dia de praia do verão de 2001, e tudo faz sentido na nossa cabeça, o que é que a escrita do autor tem? que o transforma no 'bicho-papão' dos livros-difíceis-de-ler-e-compreender,

 

 

Os meus livros não são difíceis. Acha, que os meus livros são difíceis? Não, não são difíceis...

 

que se compram e deixam na estante, pequeninos que nos sentimos em face a uma obra de tal envergadura, a olhar para a lombada como se temêssemos que ao lhe pegarmos, ele nos engula de um trago.

Isso e se oferecem no Natal, peito cheio de presunção intelectualóide para o pai, o tio, o senhor doutor, o último livro do Lobo Antunes!, porque fica bem - e a Dom Quixote sabe, que escolhe dezembro para lançar o novo, o último, que está nos escaparates dois meses antes, mas assim reacendem-se os ânimos e recorda-se a resposta fácil à prenda difícil.

Quanto ao livro que dá titulo ao post, é o primeiro que ALA escreveu. Ou melhor, publicou, que quando lemos as cartas de Angola que escreveu à mulher, entendemos que escrever, sempre escreveu, mas nada que considerasse suficientemente bom para publicar, e lá estou eu a perder-me nas curvas outra vez, dizia então que é o primeiro livro que escreveu - e eu ainda não tinha lido, apesar de o ter recomendado a não sei quantas pessoas que me diziam o habitual, que-ALA-é-difícil-por-isso-só leio-as-crónicas, então começa pelo inicio, nem tentes agarrar num dos últimos, que é mergulhar de cabeça sem conhecer o rio e a profundidade do mesmo.

 

As pessoas dizem que a minha escrita é difícil de entender porque pegam no livro e querem entendê-lo usando a SUA chave; ora cada livro tem a sua própria chave, e temos 'de nos deixar ir' até a encontrar...

1507-1 (2).jpg

 

 

Memória de Elefante dá-nos uma chave para o estilo de escrita/leitura das obras de ALA: seguimos a linha de pensamento do narrador, com as suas subidas, descidas, curvas e contracurvas, com memórias em mistura com expetativas... como cada um de nós pensa. Sem UMA forma concreta à laia de sujeito e predicado, mas a perder-se nas pregas da memória, nos arrebites da vontade caprichosa que a mente exige como prerrogativa.

 

Memória de Elefante é o primeiro na prateleira. Outros se lhe seguem, perfilados como soldadinhos de chumbo à espera da troada de carga!! saída dos pulmões de um general em miniatura.

 

E é isto.

 

António Lobo Antunes deixa-me à deriva nas palavras, perdida na ideia que quero passar. Se o livro é bom? Não mo vão perguntar, pois não?

 

Opiniões há que apontam ALA como o menino bem a desmultiplicar-se na arte do palavrão fácil, e que reduzem a sua escrita a um exagero de metáforas alinhavadas entre si por um discurso inútil. Quem advoga tais argumentos, nunca o leu, mesmo que tenha ido da primeira à última página de todos os livros que publicou.

 

ALA não se lê palavra a palavra: sente-se nos espaços.

 

 

Nota de rodapé:

em itálico, parafraseadas, frases de António Lobo Antunes aquando do lançamento de 'Da Natureza dos Deuses', em dezembro último. 

*nome da sua editora, que o acompanhava na mesa, aquando do referido lançamento, e a quem se dirigia como que ancorando-se à presença (re)conhecida numa sala cheia de admiradores desconhecidos.

{e assim passo três horas e meia, a polir o que queria perfeito. Ler ALA faz-me disto...}

21
Mar14

Cacilda, por António Lobo Antunes (publicado na VISÃO 1096, de 6 de março)

Fátima Bento

Pontos prévios:

  • O titulo do post diz quase tudo o que há para saber: o titulo da crónica, quem a escreveu, onde foi publicada.
  • Toda a gente que me conhece sabe da minha pancada pelo António L. Antunes. 

O que falta contar é a angústia que está subjacente a este texto. Sente-se, em meio aos sorrisos que nos afloram os lábios, a critica social, a impotência, a solidão... podemos ler e cingir-nos às palavras, ou mergulhar um nadinha mais fundo e ler as entrelinhas. Não é difícil, não é complicado. Mas no final, deixa-nos um travo amargo. 

{ Das melhores crónicas dele na Visão nos últimos tempos. Na minha opinião, claro... }

 

« Cacilda

Se alugasse um dos quartos ajudava-me a pagar a renda da casa, se alugasse os dois dormia na sala mas ficava com a renda paga. Encolhendo-me dá para caber no sofá, o problema é a coluna, o médico preveniu

- Tem que dormir direita

e eu, de manhã, toda torcida, sem me conseguir mexer, afligida pela claridade que entra pelas persianas e me acorda logo de madrugada, puxando-me de sonhos confusos, com as pernas dormentes, não mencionando que os hóspedes têm que passar por aqui se querem ir à cozinha e o barulho dos chinelos, pssss, pssss, pssss, arrepia-me. Claro que finjo que continuo a dormir, claro que finjo não reparar nos gestos feios que atiram na minha direção e na palavra

       - Velha 
que, sinceramente, aos cinquenta e seis anos me dói, embora concorde que pareço mais do que a minha idade, também é natural com a vida que tive, o trabalho de limpeza no armazém, o meu marido com o problema do álcool, que o vinho dava-lhe para a bruteza

       - Andas a enganar-me sua vaca

eu que nunca o enganei, palavra de honra, aceitei uma ocasião um beijo de um vizinho e fugi logo, nem sei como aquilo aconteceu. O vizinho, que era viúvo, teve um ataque um mês depois, os bombeiros levaram-no e até hoje. Das duas uma, ou bateu a bota ou está, de boca à banda, num lar, sem conhecer as pessoas. Se aquilo acontecesse comigo o que preferia eu? Bater a bota ou ficar para ali, a receber uma sopinha que nem consigo engolir, de fraldas, a cheirar a comida azeda, no meio de colegas de fraldas, a cheirarem a comida azeda, ao lado de um sujeito que grita o tempo inteiro? Talvez bater a bota e ter sossego, mas quem me irá pôr flores na jarrinha da lápide? E quem me garante que não se ouvem, lá em baixo, as conversas dos vivos

- Sabe o que me disse o médico, dona Isaura?

ou

- Ao menos com ele ali quietinho tenho paz

e bengalas que se afastam no sentido do portão

- Caiu na asneira de confiar em doutores

misturadas com latidos de cães e aquelas máquinas infernais, de consertar passeios, a estremecerem o mundo, obrigando os ossos da gente a chocalharem sem fim. Isto optando por não referir a hipótese de esbarrar com o meu marido entre raízes

- Andas a enganar-me sua vaca?

à procura de um calhau perdido para me aleijar com ele, comigo a tentar escapar de campa em campa

- Deixa-me em paz, Dionísio

ou o vizinho do beijo, a cheirar a comida azeda

- Sua jeitosona sua jeitosona

prendendo-me a saia numa gargalhadinha feroz.

Portanto estou num dilema, como dizia o meu chefe

- Estou num dilema entre despedir o Cosme e não despedir o Cosme 

porque o Cosme se abotoou com uns dinheiros da caixa, a justificar-se

- É por conta dos três meses de ordenado que me deve

e, além disso, media um metro e noventa e tinha um cunhado polícia. Mas alugar um dos quartos ajudava-me a pagar a renda e almoçar de vez em quando uma postazita de peixe com grelos por causa da dieta

(o médico

- Peixinho, peixinho, que é mais saudável do que caviar)

mastigada sem pressa a fim de durar mais tempo. E depois pode ser que o hóspede deixasse umas sobras no balde, no meio de cascas e, com sorte, talvez descobrisse por lá um restito de febra. A falta de dinheiro é um problema, tenho a luz em atraso, tenho o gás em atraso, esta semana, depois de escurecer, vou andar para aí a bater nas paredes, palpando o ar à cata do sofá e magoando a barriga na esquina da mesa. Já não me fiam na farmácia, a dona da mercearia faz que não me conhece, até se fartar de me ver palpar melões e me gritar

- Andor

ela que, durante anos, considerei uma amiga, casada com um homem no género do meu marido, permitindo-nos comparar más sinas e nódoas negras. Ainda pensei procurar o meu chefe mas quem aceita uma empregada de limpeza de cinquenta e seis anos, mesmo mostrando o bilhete de identidade

- Está aqui no cartão, repare

competente, educada, honesta? Talvez o melhor seja deixar esta casa com os tarecos e tudo, e sair para rua ao acaso. É capaz de haver lugares vagos debaixo das pontes ou nas entradas dos prédios, é capaz de existirem homens decentes

- Velha mas jeitosona

desejosos de dividirem comigo os cobertores, o caldo da paróquia e o sabão do balneário público, capazes de me oferecerem metade do seu degrau no coreto

- Agarradinhos cabemos

e dormimos um contra o outro, na eventualidade de não ressonarem muito, com um rafeiro, preso por uma corda, aos pés, aquecendo-nos os joanetes, e passarmos as tardes num banco de jardim, lado a lado, disputando migalhas aos pombos, apanhando-as com um prego espetado no fim de uma vara, ou até, com sorte, apanhando um pombo mais distraído e chamar-lhe faisão.»

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