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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

31
Mai17

Viagem

Fátima Bento

Sabem todos - sim acredito que TODOS os que aqui vêm com alguma regularidade - que faço psicoterapia, mais propriamente psicoterapia analítica, há três anos. Não saberão, penso, que vou para o terceiro mês de duas sessões semanais, a despeito de uma, como até aí. 

 

Primeira reação de quem sabe: mas estás pior?

 

Não. 

 

Aumentar o número de sessões não quer dizer que a pessoa "esteja pior" (obrigatoriamente, pelo menos). No meu caso, foi aproveitar uma brecha em que as coisas estavam a encaixar nos espaços certos a uma velocidade de meter respeito, e aproveitar o embalo. E tem sido fantástico.

 

Não entrando em pormenores, a minha vida foi, desde tenra idade complicada (um eufemismo mesmo eufemístico). Fazer esta jornada na companhia do meu querido amigo, sem julgamentos, e com aceitação incondicional, fez-me desabrochar, descobrir o meu âmago, e decidir o que quero e não quero na minha vida; o que cabe no que quero fazer dela e o que não cabe. E quem.

 

E aceitar. Aceitar, para poder alterar alguma coisa se assim o decidir. É assim um bocadinho como alguém que se está a afogar: esbracejando aflitivamente, perde o controlo de tudo o que eventualmente o poderia ajudar a sobreviver... se conseguir parar de lutar contra os elementos, se se deixar até afundar um pouco, ir com a corrente sem lutar, pode, no momento certo, bater com os pés e coordenar os movimentos por forma a manter-se à tona até vir ajuda, ou mesmo arriscar umas braçadas. Só depois de aceitarmos as coisas como elas são, mesmo, podemos trabalhar para as mudar. Se (ainda) o quisermos fazer.

 

E aprender algo tão lógico e óbvio é tão difícil!

 

(Re)Construir a Rosa Fátima tem sido um trabalho que começou no limpar os alicerces, e erigir tudo, pedra a pedra - pedras dos meus destroços em redor. E às vezes olho para a pessoa que sou hoje e tenho um orgulho enorme no resultado do trabalho que temos feito. Nunca pensei que pudessesse um dia vir a sentir-me tão completa como estou agora.

 

E ainda tenho um muito razoável caminho a percorrer. E vale cada passo...

 

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14
Mar17

Fechar o circulo

Fátima Bento

Às vezes procuro, e não a encontro. Ainda não descobri os esconderijos que sei que tem e que protege com unhas e dentes. Quando a encontro, muitas vezes está alheada compenetrada em transformar uma situação desfavorável numa forma de brincar, de contrariar quem, ao impor-lhe um castigo, desejava vê-la triste. E de costas lá no fundo da despensa, vai brincando com os brinquedos que foi levando para aí e guardando religiosamente para a vez seguinte que fosse para lá enviada, por um zangado e omnipotente dedo em riste.

 

Se quando a encontro aí, me aproximo devagar e lhe pouso a mão no ombro com ternura, levanta o olhar e dá-me um sorriso débil, enquanto nos seus enormes olhos, juntando-se à tristeza permanente que neles habita, surgem lampejos de perguntas às quais não sei dar resposta 

 

porque me deixaste aqui tanto tempo,

porque não me ajudaste, porque não a impediste,

porque a deixas-te fazer-me tudo, reduzir-me a nada.

 

Dobro os joelhos e, pondo-me à altura dela, abraço-a e peço-lhe desculpa. Digo-lhe que não consegui, que não pude enfrentá-la, que não pude enxotá-la, que não lhe pude dizer que estava errada, que magoava... quis, quis muitas vezes mas não fui capaz.

 

Ela volta-se para o pequeno fogão, mexe um qualquer cozinhado que tem na caçarola, e deixa a pairar no ar "se quisesses mesmo tinhas feito", frase gravada no nada que se agita no ar quieto. Concentro-me no perfil, no queixo que fecha com força, nos gestos que traem alguma emoção que recusa deixar sair. 

Agarro-a pelo ombro e obrigo-a a ficar de frente para mim, olhos nos olhos, sem palavras. Abraço-a com força, levanto-a comigo, e com ela ao colo deixo a despensa, a casa, enquanto lhe sussurro ao ouvido "... não te vai voltar a fazer mal, não te vai voltar a fazer mal, não te vai voltar a fazer mal..." e galgamos ruas, passeios, estradas, prédios, casas, carros, meses, anos... e vê-mo-nos aqui, hoje.

 

Eu sentada com uma pequenita que pode ter quatro, seis, oito anos enroscada no meu colo a dormir confiante enquanto lá fora chove, está vento, mas isso não a preocupa.

 

Sente-se mais segura, a pequenita.

 

Passo a minha mão direita no seu cabelo liso, cabeça encostada que está ao meu ombro esquerdo, e ela mexe-se por forma a enroscar-se mais em mim. Por uns parcos segundos abre o olhos e embora ainda exista neles uma sombra de tristeza, já não existe mágoa.

 

E agora deixamos sarar as feridas de uma vida, assim abraçadas, enquanto o vento lá fora açoita as árvores mas nem ele, nem ninguém que já o tenha feito, nos voltará a tocar.

 

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21
Fev17

Diazinhos de merda #2 - às vezes é tão demais, que só vale berrar BASTA

Fátima Bento

Passei de uma  a duas sessões de psicoterapia por semana. Isto quer dizer, ao contrário do que se pode pensar, que estou com uma evolução super favorável, e ao aumentar as sessões, intensificam-se os resultados.

Quem sofre é a conta bancária, mas no meio disto tudo vão-se os (quais?) anéis e fiquem os dedos.

 

E esta semana é a semana em que dobramos pela primeira vez. Ontem fui, voltei, e depois de estar em casa há umas horas começaram a suceder-se merdas atrás de merdas, que deixaram o pipól (eu e o mais que tudo) atolados, tanto que hoje até acordei atordoada.

 

Que porra, nós devemos ter uma parede branca atrás de nós, que se mexe quando nos mexemos. E volta na volta, lá vem um pelotão de fuzilamento. Ontem foram três, à vez, mas numa sequência perfeita. E ra-ta-ta de um lado, e ra-ta-ta de outro, e ra-ta-ta do terceiro. E quem se põe à frente é sempre o marido, e ontem, é pá, foi demais, ninguém merece - muito menos ele. E ainda por cima tem de lidar com as minhas idiossincrasias, que só por si já são dose.

 

Já chega. Já chega de aturar os outros, de fazer esforços, sacrifícios, de pensar neles de os pôr em primeiro lugar. Ainda não estou capaz de dar o corpo às balas, mas pelo menos posso tentar empurrá-lo para longe do alvo.

 

CHEGA.

 

Ou ganham juízo, ou podem procurar outra parede onde mijar, que nós já aplicámos a tinta refletora..

 

Foda-se!

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28
Out16

Gata escondida com o rabo de fora - ou A verdadeira história da tábua de engomar...

Fátima Bento

E lá comprei a bendita tábua de engomar, com menos 2 ou 3 cm de altura que eu quando está fechada, e com quase 50 cm de largura de area de passagem. Uma coisita pikena, pertantes.

 

{Parenesis 1 - no passado sábado fui buscar os óculos progressivos. O máximo que tinha usado tinham sido lentes intervision, vai daí, o progressivo é um mundo novo que me deixa um bocadinho à nora, e atordoada, que a informação que o cérebro lê vai, amiúde, distorcida...}

 

 

Agora imaginem-me a empurrar um carrinho de supermercado com uma bisarma daquelas dentro, que bloqueava completamente a visão do meu lado esquerdo, e a ver tudo dessincronizado... foi penoso. Acreditem que a minha promenade ontem pelo hiper foi de pôr à prova os mais resistentes - mas levei a tarefa a bom porto.

 

Ora passo na caixa, pago as compras - que encheram dois eco bags, além do trambolho-mor, e pronto, eis que me dirijo ao Rocinante que, tadinho, até deve ter ficado sem fala quando me viu ao longe.

 

Treinada pelas ocasionais compras no Ikea, coloquei os sacos e afins na mala, e agarrei na tábua - que não é leve mas não me matou - levantei-a e passei por cima dos bancos traseiros, e aventei um ó pá tu vais fechar não vais? (falar sozinha é o meu nome do meio), enquanto, devagar, baixava a porta.

 

Atão não fechas?????

 

Ok. Tirei as chaves da fechadura da porta da bagageira - onde deixo sempre por pavor de alguma vez as fechar dentro desta e estar a uma distância de casa suficientemente grande entrar em parafuso), e abro as portas do carro - que já teve fecho central mas com a idade vai perdendo faculdades, meu rico menino.

Baixo um dos bancos traseiros, mas nem me perguntem o que eu esperava com a coisa, assim sem mais. 

 

Ó IDIOTA, TENS E TIRAR O COISO ATRÁS DOS BANCOS QUE TAPA A BAGEIRA!

 

 

Suspiro. Dou a volta a maldizer a minha vida... baixar já baixara, agora retirar, nunca. A ver, a ver. Claro que para facilitar não tirei a tábua, que continuou ali, fazendo eu tudo com uma mão enquanto amparava o peso da dita com a outra... às tantas lá consigo tirar o coiso, deixo-o pousar sobre os sacos de compras, e respiro fundo

UFA,

já está! e fecho a bagageira.

 

Vou pôr o carrinho no 'estacionamento dos carrinhos' e entro para o automóvel, louca por chegar de vez a casa! Estendo a mão para agarrar na chave e a enfiar na ignição e... qu'é dela????

 

Qu'é da chave do carro? 

Tiro tudo da carteira, de certeza que pus aqui!! (com um gremlin a gargalhar-me ao ouvido).

 

Népia.

 

(o gremlin começa a cantar o clássico na-na-na-na-na-NA!, enquanto se rebola no chão agarrado ao estômago e aponta para mim já a chorar de tanto rir).

 

Ok, encho o peito de ar e assumo. Deixei-as na bagageira.

 

Pensa rápido, já estás aqui há horas... certo, vamos lá baixar o outro banco e vasculhar.

Buga!

 

Baixo o outro banco e a primeira coisa que vejo é o mega saco cheio de eco bags vazios. Ahhhh!!!!!, tiro e ponho sobre a tábua. Depois o primeiro saco das compras, ahhhh!!!!! : para fora do carro, chão. Saco do Celeiro ahhhh!!!!!, também sobre a tábua. Segundo saco de compras ahhhh!!!!!, arrasto-o na bagageira, para junto da caixa que entre outras coisas tem a caixa de ferramentas do gajo.

 

 {Parentesis 2 - não sei  se conseguem visualizar a cena: com os dois bancos rebaixados, eu estava de fora do carro a fuçar na bagageira, cujo ponto forte sempre foi ser grande, mas que ontem me fez olhar para o tamanho de outro ângulo...é que às tantas, de fora já só haviam pernas e rabo...}

 

- E oiço O SOM.

 

My precious!!!!  Afasto mais um nadinha o saco e ei-las! Agarro-as como se a minha vida dependesse disso, meto os sacos de qualquer maneira possível, e ponho o corcel a mexer, tirem-me deste filme. E DEPRESSA!

 

Antes desta epopeia, enviara uma mensagem ao marido, que chegara do trabalho, não troques de roupa, preciso que venhas ao carro (para transportar a puta da tábua). Quando estaciono o bólide, pego no telemóvel. Resposta: já foste! (também, quase uma hora depois...)

 

Ok.

 

Arregacei as mangas, tirei o raio da tábua, pu-la dentro da escada. Retirei os sacos das compras, coloquei junto à porta. E agora põe lá 'o coiso' no sítio - se nunca o tinha tirado, também nunca o tinha posto, duh! Mas depois daquilo tudo, foi como limpar o cu a meninos.

 

Quando entrei na escada um dos meus gajos já tinha levado o chaimite para cima, graçádeu! Arrastei-me, e mais aos sacos, escada acima.

 

Entrei em casa e disse ao marido

Irra que se eu puder complicar uma coisa, eu complico, dasse! 

Ainda nos havemos de rir desta história, mas canudo estou p'a morrer... e contei-lhe.

 

A meio já dava valentes gargalhadas. 

 

Agora a sério: se eu não nascesse... vocês sabem o resto...

02
Out16

49, número mais inconveniente... 365 dias dele! Venham os 50 que é fofinho e redondinho...

Fátima Bento

Ponto prévio: estou a escrever no telefone, pelo que não vou editar... tough.

Só quando chegar a casa.

Ora bem, eis-me entrada no último ano dos quarenta; venham os 50: só não gosto do número 49...porque não.

Prontx. Estou no Alentejo ( mesmo no final de Setúbal, mas JÁ é Alentejo) - para passar um dia diferente. Depois conto. Por agora ficai com uma ou duas fotos. Volto na Terça se não for antes...

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Não sei sequer se estas são as melhores escolhas, mas como não tenho NEM wi-fi NEM rede para dados no quarto, fico-me por aqui... Amanhã conversamos ( e editamos...)

19
Set16

Das melhores férias de que tenho memória

Fátima Bento

Ainda não contei praticamente nada sobre as FÉRIAS

- que merecem mesmo as maiúsculas quase todas do alfabeto -

deste ano

- só não merecem mais porque foram estupidamente curtas...

 

Bom, quando chegámos à quinta, constatámos que não tínhamos rede para o telemóvel - ali só MEO - internet, ficava no risquinho único, pelo que até dava para ir às redes sociais e dar à língua (o que fiz com os meus filhos), e daria para postar, agora para abrir o que quer que fosse, debalde. Televisão nos quartos, nananinanão, só numa "área comum" que tinha um sofá. Mais nada.

Ora, foi chegar e 'pendurar as botas' tecnológicas, mediáticas, the works.

 

- e foi tão bom, tão bom! 

 

Acompanhei os fogos na Madeira à hora de almoço - íamos à vila almoçar, e o restaurante tinha a tv ligada. Não sendo eu a pessoa da família mais ligada ao pequeno écran, não conseguia despegar os olhos da dita (sem som, como se quer), de tal maneira que o Victor se sentava de costas para a mesma - ele que até é o gajo que mal entra em casa pega no comando e dá-lhe no ON. Mas tirando aqueles mais-ou-menos 30 a 40 minutos diários, não havia (sobre)carga informativa para os meus neurónios; as férias foram mesmo férias.

 

No segundo dia já tinha perdido o tino: nem sabia que dia da semana era, nem há quanto tempo estávamos naquele paraíso. Fundamentalmente os nossos dias eram passados com dois medidores temporais: combinámos com o estalajadeiro que o nosso pequeno almoço seria às 9:30h, pelo que uns trinta minutos antes, se ainda estivesse a dormir, o marido acordava-me. Vestia o caftã por cima do fato de banho e descíamos. Tomávamos o pequeno almoço (fresquíssimo, semi biológico) sob uma pérgola, numa grande mesa de madeira marcada pelo tempo, e havia sempre um gato muito meigo que nos fazia companhia. O gato e vespas.

 

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Depois, subíamos ao quarto, eu pegava no saco onde tinha os protetores e duas revistas, e íamos para a piscina. Quando o calor se tornava insuportável, estava na hora de ir almoçar. Enfiava o vestido de malha de algodão, calçava as sandálias e ala para a vila. Quando regressávamos, repetíamos a indumentária da manhã, e voltávamos para a piscina. O jantar era leve, iogurtes, fruta, bolachas... ainda íamos até às camas de rede, onde bebíamos uma última sidra/cerveja e ficávamos até cansar. Depois, recolhíamos ao quarto, hora do duche e de mimar a pele, e deitávamo-nos. Umas noites líamos outras nem isso.

 

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O Victor adormecia primeiro, eu ficava a ouvir as cigarras, os grilos, as rãs...e o sapo, que vinha saltar para a escada que acedia ao quarto enquanto fazia um croack valente que abafava o coachar das rãs. E lá ao fundo, às vezes, ouvia-se um mocho.

À volta haviam javalis, muitos. Havia um empregado encarregado de lhes deixar sacas de comida de noite, e de manhã não havia uma migalha de sobra... e viamos corvos, milhafres... e haviam umas borboletas coloridas, grandes e lindas que vinham espreitar ao final da tarde, quando as libélulas já se tinham recolhido. E vespas. De manhã, tarde e final da mesma.

 

Nestes dias usei duas mudas de roupa, além do caftã e dos dois fatos de banho - um para de manhã e outro para de tarde. Calcei uns flip flops e umas sandálias rasas. Podia, por isso, ter levado um saco minúsculo com a roupa. Até isso foi um super no brainer

 

Ao correr dos dias perdi vocabulário, perdi até palavras simples, esqueci autores e nomes de livros, tudo. O meu cérebro manteve apenas em funcionamento os serviços mínimos, pelo que, enquanto estive fora, nem UM livro li. Dembulei pelas paginas das quatro revistas que levei comigo, e pouco mais.

 

O embate do regresso foi maior quando me vi de novo em casa. Apesar e ter perdido a conta dos dias, as férias tinham durado menos de uma semana.

 

A fazer? Só esperar - com força - para o ano alargar o tempo fora para dez dias. Nem mais nem menos...

09
Ago16

Qual é o teu maior medo?

Fátima Bento

A pergunta foi feita assim, largada qual papel anónimo num qualquer cesto para reciclagem, qual é o teu maior medo? Penso que vamos ter de esperar um bom bocado pela resposta, já que não sei nem faço a mínima ideia, sempre me foi reconhecida a bravura de não ter medo de nada, que ouvi aplicada nas situações mais diversas, enquanto cá dentro a criança estava silenciosa sob ameaça, sem conseguir esconder todos os papões dentro do armário, o que lhe provocava alguns tremores discretos, e invisíveis a quem me elogiava a bravura.

Onde está o meu calcanhar de Aquiles? que tenho de desvendar e pôr à mostra mesmo em surdina, que seja só para eu ver.

Vejo-me pequenita, numa sala de aula vazia, quadro de ardósia e estrado, na secretária da professora uma cadeira de ângulos austeros a gritar o desconforto que provoca a quem nela se sente, vazia. Estou sentada no chão, sobre o estrado, a um quadro de parede de distância do lugar ausente da chefe da sala, e escondo a testa nos joelhos, enquanto abraço as pernas em soluços mudos. O relógio da parede deixa escorrer as horas sem mudar os ponteiros de sítio, e ao passar do tempo nada muda, continuo no mesmo lugar nos mesmos preparos de lágrimas ranhosas, a professora ausente, a sala ausente de turba condizente com a sua função.

 

Sinto um arrepio e olho em volta; distingo as vozes, cheiros e sons que asseguram a minha presença na igreja devotada à sagrada cafeína em que me encontro, grandes baldes de misturas doces e aveludadas sob tampas brancas, é para levar ou beber aqui, qual é o seu nome, já chamamos, Fátima!. E enquanto tamborilo os dedos na mesa a que lancei amarras enquanto espero, noto que a resposta à pergunta é tão clara quanto o liquido no copo de água que pedi para hidratar a espera. Óbvia e pasmo!, insidiosamente desconfortável, que me quero capaz, capaz sozinha.

 

 

Tenho medo de não ser gostada. 

 

Quisera conseguir agradar a todos, porque a indiferença me dói mais de que o ódio ou a raiva. Tenho medo, mais de que de não ser alvo de sentimentos fofinhos decorados com nuvens cor-de-rosa, de ser atirada para o oblívio, de me ser retirado corpo, presença e sombra, de ser transformada em menos que uma memória, invisível que me queiram e possam, na sua indiferença. 

Não existe em mim pinga de receio, penso enquanto me dirijo ao balcão de recolha como um cãozinho bem treinado que escuta o seu nome, obrigado, Fátima!, de estar ou ficar sózinha, mesmo se a maioria das vezes gosto de companhia, gosto da cumplicidade que não se consegue quando estamos acompanhados apenas de nós próprios. Mas não agito um crucifixo, de retro!, aos momentos de solidão - ou sózinhez? - que me deixam a sós com as minhas dúvidas, os meus pensamentos, as minhas cogitações, já que gosto bastante da minha companhia e não me custa estar nua em frente ao espelho.

Mas em resposta à pergunta no título, tenho medo que não gostem de mim a ponto de me prenderem num esquecimento falso que dói tanto como se fora sincero e verdadeiro. 

Crescida que fiquei mais de que com o passar dos dias, com os mergulhos que dei fundo, cada vez mais fundo, acompanhada ao longe por um salva-vidas atento, e interveniente se solicitado ou necessário, entendi nas entranhas, sem a juda do cogito, que não é possível aspirar à unanimidade do gostar - e que por si é um contracenso. E daí a começar a deixar fluir a personalidade que se esconde debaixo de um sem-número de camadas de teias de aranha construídas por falsos pressupostos servidos em bandejas de prata com campanulas enganadoras do conteúdo, é um pulinho.

Mas isso... isso serão outras núpcias...

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