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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

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24
Jul18

A serio????? (Insatiable a 10/08)

Fátima Bento

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Acabei de ver o trailer da série Insatiable, que estreia dia 10 de Agosto no Netflix. Resumidamente, uma gordinha vítima de bullying na escola perde peso, e resolve vingar-se de quem a humilhou antes. O tema do bullying e consequente vingança é recorrente - e real, basta recordarmos que uma boa parte dos massacres ocorridos em liceus americanos são atribuídos a ex alunos que passaram por isso.

 

Portanto esta serie tem tudo para ser um sucesso... mexe (em mau) com as ditaduras da beleza e da dieta, com os estereótipos da beleza advogados por (praticamente) toda a sociedade, e com o bullying. Para abrilhantar o ramalhete, conta com um abaixo assinado de cem mil assinaturas para o seu cancelamento.

 

Na minha opinião, formada pelo que se pode ver no trailer abaixo, a redenção poderia  ser conseguida pelas vestes da justiceira em que se torna... mas isso fez-me logo vir à memória, como disse atrás, os massacres... portanto, só me admira a petição contar apenas 100.000 assinaturas... 

 

 

Provavelmente verei, quanto mais não seja para cimentar uma opinião concreta; isto de dizer mal de coisas que nem vemos, já cansa... mas a ideia parece-me um pouco perversa, para dizer o mínimo. Mas dá dinheiro, não dá?

Sigaaaa!!!! 

28
Abr17

Bullying e outras violências

Fátima Bento

Mesmo agora li nos destaques um post sobre uma das séries do ano (até ao momento), Por 13 razões, que vi quando estreou, de duas penadas, e que mexeu comigo. Pensei em escrever sobre o assunto mas achei que faltaria qualquer coisa, e a mesma pede uma abordagem cuidada... depois entrei em reclusão, e não o fiz.

 

E agora estou aqui a escrever sobre uma das razões (transversal, de resto) que levaram Hanna, 17 anos, ao suicídio. O bullying.

 

Quase toda a gente, de uma forma ou outra passa por situações no secundário, que deixam marcas. Não, não nos formam (quando muito deformam...). E cada um reage à sua maneira, sendo que a grande maioria supera e seguem em frente, com maiores ou menores cicatrizes. Mas nunca indiferente.

 

Apontar o dedo a reações extremas como a da personagem principal da série/livro - principalmente depois de ver os 13+1 episódios da série - pode querer dizer uma mão cheia de coisas, nomeadamente mostrar uma incapacidade de empatizar com terceiros, ou ter passado - ou estar a passar - por situações similares e achar que, se eu aguento, ela também tinha de aguentar.

 

Infelizmente as coisas não são assim tão lineares.

 

Porque a vida das Hanna's desta vida não começa no primeiro episódio duma série, e o que se passa antes cria o contexto, conferindo-lhe uma pele mais ou menos fina, uma capacidade maior ou menor para lidar com as contingências de uma escola secundária, e da vida, de resto. Porque às vezes existem maiores ou menores patologias - ou mesmo apenas uma pequena falha na auto estima que se agiganta - que inferem uma reação mais intensa às pequenas coisas e qual jogo de espelhos, multiplicam o sofrimento ao infinito. E, muitas vezes, tornam o ato de continuar demasiado difícil.

 

Não estou a, nem quero falar da serie, não hoje, não aqui. Talvez um dia destes escreva sobre a mesma e há tanto a dizer sobre ela, desconstruí-la é um jogo fantástico, mas hoje não.

 

Hoje falo das vitimas de bullying. Das que se levantaram, sacodem e seguem em frente a fazer pressão sobre a ferida, até que esta não passe de uma marca indelével, e das que não o conseguem fazer. Das que deprimem, passam a ter ataques de ansiedade, das que mudam de escola uma, duas, três vezes, e para nada, das que ficam com fobia de multidões. Das que recolhem à concha, a trancam e deitam fora a chave e se recusam a voltar a sair de casa e pôr os pés na escola. Das que se deitam na cama e não se levantam mais, a não ser por motivos fisiológicos. Das que insistem, até que não podem mesmo mais e se atiram para baixo de um carro, ou tomam uma ou duas caixas de comprimidos dos pais, ou cortam os pulsos.

 

Nenhuma, NENHUMA dessas reações é reprovável, nem sinal de fraqueza. Cada um de nós tem o seu ponto de rutura, aquela linha traçada no chão que quando ultrapassada provoca reações inesperadas.

 

É triste e exasperante, frustrante, quando alguém se suicida. Não deve haver revolta maior para quem fica vivo, e que o que nos leva a gritar porquê. E para nos apaziguar os esqueletos que temos no armário, vomitamos uma sentença: cobardia.

 

Oh, o incómodo de alguém nos obrigar a olhar para o espelho da nossa vulnerabilidade, e que não, não somos super pessoas, não temos as costas assim tão largas para carregar este mundo e o outro. E assim, torna-se mais fácil apontar o dedo e dizer que o suicida era fraco e incapaz de lidar com o que tantos lidam. Como se fossemos todos exatamente iguais, clones uns dos outros, com os mesmos pontos fracos e fortes, e a dor que sentimos - tal como a que provocamos no outro - tenha precisamente os mesmos contornos, a mesma graduação, e tenhamos todos as mesmas armas a brandir no momento X pelo qual todos passam, da mesma forma. 

 

O bullying é uma das formas mais abjetas de nos reduzirem - ou de reduzirmos o outro - até ao pó que se chega a sentir. O nada. 

 

E não vou aqui pregar que só uma rede de amigos, só uma comunidade alerta pode ajudar, prevenir. Porque tantas vezes só sabemos tarde demais.

 

Não vou é suportar nunca que se diga que o bullying tem de ser superado e que o suicídio é cobardia.

 

Porque garanto que quem fala assim não sabe do que fala.

 

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