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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

03
Out18

Fim

Fátima Bento

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O dia que escolhi para morrer amanheceu com um sol tímido a espreitar por entre as nuvens. Saltei da cama, fui diretamente para a casa de banho e enfiei-me debaixo do duche morno. Enrolei a toalha felpuda à volta do meu corpo, e olhei-me no espelho, o cabelo a pingar, as gotas de água a escorrer pelos ombros, pelos braços. Deixei-me estar assim uns momentos, a formar duas pequenas poças de agua no chão, mesmo por debaixo das minhas mãos. Acordei daquele torpor para onde tinha deslizado, embrulhei o cabelo numa toalha, e tratei da pele: hidratei, apliquei o fond de teint e o iluminador, finalizei com o pó. Espalhei um pouco de blush no alto das bochechas e nas pálpebras superiores, e apliquei uma camada de máscara nas pestanas. Sequei o cabelo, voltei para o quarto e olhei a cama desfeita, marcas da última noite que escolhi passar contigo, pistas em que se adivinhava a forma do teu corpo no colchão. Vesti o vestido, preto e clássico, pequei nos sapatos e levei-os na mão até à cozinha onde preparavas o pequeno almoço.

 

Sorri quando entrei, mal vi a mesa alta posta, dois individuais e no centro um pequeno molho de flores frescas dentro  da minha jarra favorita. Atravessei a cozinha a saltitar e abracei as tuas costas, encostando o rosto na tua pele. Inspirei o teu cheiro, que guardei na gaveta da memória.

 

Comemos com a cumplicidade de dois amantes que perpetuam a paixão da noite nas pequenas coisas de todos os dias. Os sorrisos e as palavras meio sussurradas, a felicidade que transpirava e se abria como uma rosa aveludada dentro do peito.

 

Enfiei os pés nos sapatos, peguei na carteira, onde coloquei o telemóvel, e peguei nas chaves do carro. Saímos, cada um no seu carro, demorei mais um pouco, vi-te manobrar e acenaste-me em despedida, um até logo que não se iria concretizar. Quis gravar tudo na memória, cada momento, cada imagem.

 

Limpei a lágrima que se assomava, e pus o carro em movimento. Fiz o caminho até ao trabalho em piloto automático, estacionei, passei o cartão na entrada e dirigi-me ao meu gabinete. Aceitei o café que a secretária me ofereceu, e tirei a  pasta da gaveta enquanto o bebericava. Abri-a e espalhei as folhas, fotos do meu corpo por dentro, a preto e branco e a cores, contraste de tanto que não devia ser, nem estar, sobre coisa nenhuma. Recostei-me na cadeira e fechei os olhos. Respire fundo, tirei o maço de envelopes da gaveta,chamei a secretária e indiquei que estes deviam ser entregues por estafeta nos endereços referidos, precisamente às 12:30h. Quando saiu, deixei-me estar, olhos fechados com força. Apertei os maxilares até os dentes rangerem, entre a raiva e a impotência, enquanto voltei a ouvir as palavras do medico, um mês, dois no máximo. Lamento...como se ele soubesse o quanto lamentar. 

 

Olho o relógio e passam poucos minutos do meio dia. Batem-me na vidraça, empurram a porta,vens almoçar? Não, tenho umas coisas para adiantar, respondo no estupor do nada que faço e pareço, ali sentada as folhas espalhadas à minha frente. relembro cada momento que gravei na memoria enquanto me dirijo à porta e dou a volta à chave. procuro o batom vermelho na carteira e com ele escrevo um DESCULPEM, em letras enormes transversal a meia dúzia de folhas de papel que, espero, completem a razão que apresento nas cartas que estão prestes a ser entregues.

 

Abro a janela imensa, e sento-me no parapeito. Não noto a agitação que se começa a formar no outro lado da parede de vidro. Olho o abismo e penso em tudo o que amo tanto, e despeço-me mentalmente de cada um desses pormenores. Apoio a ponta de um pé no calcanhar oposto e deixo cair o sapato, repetindo o gesto no outro: sempre gostara de estar descalça. Fecho os olhos, aperto os maxilares com força, para evitar o chocalhar dos dentes. E deixa-me cair no vazio, sem ouvir já os batimentos frenéticos na porta do seu gabinete.

 

#desafiodeescritacriativa

 

03
Out18

E se alguém lhe oferecer flores... - selfcare #3

Fátima Bento

pexels-photo-386015.jpeg

 

... poderá muito bem ser você!

 

Hoje, de caminho para casa (ou mesmo no intervalo de almoço) ofereça-se flores. Dependendo do que pode investir, escolha uma ou duas flores, ou um bouquet com as suas favoritas. Quando chegar a casa, ponha-as num recipiente (que pode ser um bule, um copo bonito, a sua imaginação é que manda), e coloque-as num local de que goste muito, e onde as possa ver. 

 

Se quiser - e puder - tire uns dez minutos, acenda uma ou duas velas, ponha uma musica relaxante (na app Calm há-as para todos os gostos, e essa parte da aplicação é gratuita), sente-se confortavelmente... e medite: comece por fechar os olhos, concentre-se na respiração... depois abra os olhos e observe atentamente a flor... as pétalas, a cor, a textura... permita-se observar, calmamente, e abarcar cada pormenor. Depois volte a concentrar-se na respiração, feche os olhos... mexa as extremidades - dedos das mãos, dos pés... - lentamente, e abra os olhos.

 

Espero que se sinta mais sereno e tranquilo!

 

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Dia #01 As suas regras

Dia #02 Coma um arco Íris

 

03
Dez16

Calendário do Advento #3 - Uma surpresa por dia nem sabe o bem que lhe fazia!

Fátima Bento

Ora imaginem fazer isto, seja como um miminho para vocês, seja para surpreender os miúdos ou a cara metade num lanche especial?

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Como?

Faça um chocolate quente cremoso e OU cubra comuma camada de espuma de leite OU de chantili. O boneco de neve é composto por marshmallows e palitos de aperitivo.

Para as feições, use uma bisnaga daquelas para decorar bolos, ou coloque um pouco de nutella levemente aquecida dentro de um saco plástico a que cortou um pequeno canto e desenhe.

Voilá!

08
Abr16

O retiro - dia 3. (Acreditem que foi MESMO assim...)

Fátima Bento

Acordei para o meu terceiro dia com a sensação de 'aproveita hoje que amanhã acaba'...

Tomei o pequeno almoço já de fato de banho vestido, levantei as toalhas na receção e desci para a piscina.

Quando entrei fiquei surpreendida pela positiva com a temperatura ambiente, superior à da véspera, o que me pareceu um bom principio. Já tinha despido o top, indo começar a tirar as calças, e eis que surge uma funcionária do hotel a pedir muita desculpa mas que a piscina se encontrava fechada

(bom eu JURO que não arrombei nada!)

devido ao banho turco estar a ser reparado

(ora, tivesse-me eu lembrado de o experimentar na véspera e era mais uma flor a juntar ao ramalhete...)

Faço o reparo de que me deveriam ter informado minutos antes, na receção, quando levantei as toalhas, ou haver uma qualquer indicação visível... e eis que vejo dois trabalhadores surgirem, como se chamados à boca de cena.  Ante o meu espanto, ela continua 'peço desculpa, vão ser só mais uns dez minutos, se não se importa de voltar daqui a pouco' e eu a repetir o tudo bem não tem importância enquanto me vestia (?!?) e que já se ia tornando habitual - ao mesmo tempo que, por dentro, repetia a meu mantra.

Decidida a continuar a, pelo menos TENTAR tirar coelhos da cartola, dirijo-me ao balcão de receção do SPA. Posso fazer um spa de mãos ou pés, ou quem sabe uma pequena massagem (serviços pagos à parte) enquanto espero para poder usar o que paguei para usar, penso. Solicito o serviço e "não é possível. A técnica não se encontra aqui, tem de marcar com antecedência...” alego que devia ter sido informada no momento do check in, dão-me razão (obrigadinha...) e, entre o perdida e o teimosa, insisto para a tarde. A resposta mantém-se negativa, 'posso tentar ligar mas digo-lhe já que quase de certeza, não vai ser possível'.  E arremata com a repetição de ' tem de marcar com antecedência’. Ok, obrigada (por nada), viro costas e meto-me no elevador direto para o quarto. Onde estavam a proceder à arrumação, pelo que esperei no lounge que ficava em frente à porta. Sem me passar dos carretos!

              sou mesmo aplicadinha nas coisas, quando é para descansar É PARA DESCANSAR, ouviste, Fátima?

20160317_130939.jpg

E quando acabam a faxina do aposento, enfio-me por ele dentro, direto para... a caminha pois. Where else?

Nada irritada, mas bastante incomodada decido não descer para almoçar. Deixo-me ficar mais tempo de papo para o ar e como um pacotinho de bolachas de água e sal e uma gelatina. 

E recomeço: visto o fato-de-banho, pego nas toalhas e desço à piscina. A temperatura ambiente agradável da manhã tinha descido. A água estava ainda mais fria (!!!) que na véspera e eu fiquei na espreguiçadeira a não-pensar-em-nada enquanto não enregelei com o fato de banho molhado. Quando tal aconteceu, passei pela casa da partida receção num pulinho sem receber os 200 euros, entreguei as toalhas subi ao quarto e repeti a rotina da véspera: liguei o ar condicionado primeiro, enfiei-me na cabine e a seguir, na cama. Desta vez ainda tiritava (acho que era nervoso miudinho - muita coisa a correr menos bem... - uma vez que já não havia razão para sentir frio). Mais uma horinha de sono, e jantar.

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AH! O JANTAR!

Chego ao restaurante e sento-me, notando que as mesas estão disposta de forma um pouco diferente - e que há mais dois empregados de que nas outras noites. Peço o meu prato, vou debicando o meu vinho, começo a comer um risotto de pato absolutamente divino quando... o restaurante é invadido por umas dezenas de, presumo, médicos, ou técnicos de saúde, a julgar pelos temas de conversa, que me estragam literalmente o jantar. Primeiro, e principalmente por isso, porque fazem uma barulheira insuportável, e depois, porque estar a comer e a ouvir 'discursar ' (presumívelmente seria um dos oradores do congresso, ou lá o que foi, a quem se tinham esquecido de informar que a palestra terminara) sobre a artéria X, a artéria Y e a veia não sei dos quantos e o... olhem, o raio que o parta! Acabei o restante pato em dois tempos, sorvi duas garfadas de risotto (ainda estou com o prato atravessado, de não o ter usufruído!) engoli o resto do vinho, fiz sinal ao empregado, assinei o papel e desandei de rompante porta fora! 

Já foi demais, mesmo!

Desço ao bar, pensando - e bem - que, se estavam todos lá em cima, ali estaria algum silêncio, e bebi três Baileys, enquanto li uns capitulos de 'Revenge wears Prada', a ver se acalmava. Quando vejo uma parede a desaparecer (painéis rebatíveis, fantástico!) e a sala a duplicar de tamanho, calculo que os senhores doutores lá de cima já estarão nos cafés e trato de pedir a conta e recolher ao quarto.

Chegada ao mesmo, pego no poncho, enrolo-me nele e decido ir à varanda apanhar ar. Abro os cortinados, até ao fim, e... não é possível passar para a varanda. Abrir, abre: aí uma nesga de 20 ou 25 cm, e depois os cortinados não a deixam abrir mais. Só me faltou fazer o pino, mas não havia mesmo maneira.

Pensais vós que me saltou a tampa? Não, não saltou. Para quê? Pensei, num suspiro, que era mais uma a juntar às reclamações que ia colocar em lista e entregar no dia seguinte aquando do check out.

Na última manhã, depois do pequeno almoço dei uma volta pelo exterior e fotografei, coisa que não me tinha apetecido fazer antes.

DSC_0124.JPGDSC_0125.JPG

DSC_0128.JPG(o meu quarto não era nenhum destes...)

Depois fui ao quarto, arrumar as últimas coisas, sentei-me à consola e fiz a minha lista. No momento de pagar, agrafei um cartão de visita, e entreguei. Pediram-me muitas desculpas (de desculpas, trouxe a barriga cheia!) e disseram que iam entregar à direção.

Último acto desta tragicomédia:

antes de sair, decido ir tomar um café ao bar que abrira às 10:00h (eram 12:30h, mais ou  menos) e pedi para me guardarem a bagagem no depósito enquanto o fazia. Claro com certeza!, e lá desci. Esperei. Bati com o anel no balcão do bar para me fazer notar; andei às voltas de um lado para o outro - os saltos altos no pavimento faziam ruído. Já a bufar, sento-me numa das poltronas, saco do telemóvel e ligo para a receção. Atendem como uma chamada exterior - que o era - e eu informo que "acabei de fazer o check out, e há dez minutos que estou no bar à espera E NÃO ESTÁ CÁ NINGUÉM. Fazem o favor de mandar alguém para me tirar um café?"

Vem uma das rececionistas, e peço também uma garrafa de água. E a conta, já (senão saía de lá no final do dia, a julgar pela amostra...) . Acto continuo informam-me que o café e a agua são oferta do hotel.

OBRIGADINHO!

(e agora estão com inveja? Estão? Pois é, uma pessoa tira uns dias para descansar e só não arranja uma úlcera porque a mente é mais forte que a matéria, pelos vistos. CARAMBA!)

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