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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

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10
Out18

Carta fechada

Fátima Bento

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Casara de branco com toda a simbologia inerente. Eram brancos os lençóis de algodão, cabeção e fronhas bordadas com o seu novo monograma, agulha empunhada com esmero, para que o homem que a tinha escolhido e fora falar com o seu pai das suas boas intenções, casamento e sustento garantido, sem grandes luxos, mas o parco rendimento certinho, não se arrependesse da escolha que fizera. 

 

Assustava-a a perspetiva da noite, daquela, a primeira noite, e envergonhada aproximara-se da mãe e perguntara o que esperar. A mãe, desconfortável, continuara a lavar a loiça com energia renovada na força com que usava o  esfregão, e dissera-lhe que os homens tinham certas necessidades e que fazia parte das suas obrigações enquanto sua mulher, satisfazê-las. Disse-lhe tens de lhe dizer que sim! Mas a quê, mãe? Ao que ele te disser. Agora vai dar a lavagem aos porcos, que já deviam ter comido, rai' da rapariga, sempre com a cabeça no ar... 

 

E chegou o dia. Depois dos votos repetidos em ladaínha em frente ao senhor padre, depois do almoço que o pai da noiva fez questão de oferecer, um porco inteirinho regado ao vinho que já o seu avô fazia, depois de receber os olhares de inveja das solteiras casadoiras e o olhar sombrio das outras, das casadas com os homens que já bem bebidos as mandavam calar com gestos agressivos, mulheres que quando a olhavam sorriam um sorriso que não lhes chegava aos olhos e repetiam, enquanto lhe apertavam as mãos, o casamento é uma carta fechada, frase que já tinia nos seus ouvidos das tantas vezes que escutara ao longo do dia. Depois de se sentir tão cansada, de lhe doerem os pés dos sapatos que a mãe tinha guardado do próprio casamento, e que apertavam os seus, maiores, depois de ouvir os homens a gargalhar, a cantarem canções das quais já nem conseguia entender a letra, o seu Manel aproximou-se dela, acompanhado pelo coro dos outros homens a darem vivas e a encorajarem o homem, pegou-lhe na mão e levou-a com ele a montarem na carroça que os ia levar à sua nova casa, e partiram.

 

Na manhã seguinte, a marca de sangue no branco do lençol que alindara com tanto brio e cuidado, confirmou a dor que sentia, e confundiu-lhe os sentimentos, as ideias, porquê a nudez, porquê o peso sobre ela, porquê a dor, porquê o sangue, ninguém lhe falara do sangue... apressou-se a retirar o lençol da cama e a levá-lo para lavar, para esfregar bem, pôr à cora, o que fosse necessário para tirar aquela mancha, a mancha da vergonha da sua ignorância, do pudor devastado, da raiva que sentia agora...

 

Entrou na cozinha com o lençol entronchado nos braços, e ouviu a porta abrir-se, era ele que entrava, cravou os olhos no chão, e a lembrança da noite anterior fê-la tremer. Sentiu-o aproximar-se e os pés colados ao chão não a deixavam fugir nem desaparecer, e o ar que não lhe queria sair do peito, o sufoco...

 

Manel segurou-lhe o queixo entre o polegar e o indicador e levantou-lhe a cabeça, até os olhares se cruzarem. Desculpa, disse-lhe com os olhos tristes. Desculpa que sei que fui desajeitado, que sei que te magoei, só posso ter magoado, grande besta, tinha bebido, sabes, não me medi... desculpa, e estendeu-lhe um molho de flores silvestres apanhadas ali no campo à volta da casa. Nunca mais, disse-lhe nunca mais te magoo, quero fazer-te feliz, tão feliz quanto conseguires ser, foi por isso que quis casar contigo, entendes? Não para seres minha pertença, minha criada, mas para estares ao meu lado e caminharmos juntos.

 

Sofia ouviu a sua avó em silêncio, dentro do seu vestido branco de princesa, e deixou as lágrimas rolarem. A avó aproximou-se e secou-lhas com a ponta do lenço de cambraia, shh, rapariga, não chores, hoje é o dia mais feliz da tua vida! Acredita: eu não sabia, mas foi o meu... agora deixa-me ir, que todos nos esperam... amanha-te rapariga, põe-te ainda mais linda!

 

E a velha senhora saiu, apoiada na sua bengala, aproximou-se da cadeira onde Manel estava sentado e ocupou a do lado. O marido pegou-lhe na mão e levou-as aos lábios. Ela sorriu e ficaram assim, de mão dada durante toda a cerimónia, na certeza da promessa cumprida há tantos anos atrás. 

 

#desafiodeescritacriativa

 

09
Out18

Crie um ritual diário - selfcare #9

Fátima Bento

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Um rituais são securizantes, e tal como o matinal assinala que é hora de acordar, o noturno avisa-nos que é altura de desacelerar e preparar corpo e espírito para descansar.

 

A foto acima propõe um ritual de limpeza, cuidado cosmético, e nenhuma diz acorda! ou adormece! melhor que estas - mas não são as únicas rotinas que podem ser implementadas. Quem disse que essas não fazem já parte do seu dia-a dia? Se não fazem, digo eu, comece por aí.

 

No entanto, pode escolher uma para quando chega a casa: colocar as chaves sempre no mesmo lugar, tirar os sapatos, dirigir-se à cozinha, ligar a chaleira e escolher uma saqueta de um chá de que goste particularmente, usando uma caneca escolhida especialmente para esse momento...pode também trocar de roupa, fazer uns alongamentos ou dez minutos de meditação: aquilo que lhe der mais prazer.

 

Lembre-se de o fazer sempre na mesma altura. Seja regular, pois só assim se torna num ritual.

 

E não ligue às ideias que dei: simplifique, e faça uma à sua medida. Pequenina. 

 

E só sua.

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Dia #01 As suas regras

Dia #02 Coma um arco Íris

Dia #03 E se alguém lhe oferecer flores...

Dia #04 O bom do H2O

Dia #05 Pare, Esculte, Olhe, Sinta

Dia #06 Ande descalço

Dia #07 Uma hora inteirinha...

Dia #08 Seja o Tio Patinhas da energia...

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