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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

09
Jul19

Até para sempre

Fátima Bento

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Mia, 18/02/2005 - 07/07/2019

 

Publiquei há dois dias atrás, no Instagram, uma foto acompanhada pla frase "A Mia foi para o céu dos gatos". Ontem imaginei o céu noturno e senti que ela seria uma nova estrela. Todos estes lugares comuns nos veem à cabeça quando nos dói, e queremos fazer uma vida normal. E tomamos fielmente os comprimidos para adormecer depressa.

 

A noite passada ainda recordei, e quase pude sentir, as costas dela nas minhas, destapadas, como ela fez todas as noites durante 12 anos (os primeiros dois foram difíceis), As duas esticadas. Antecipei a sua falta ao meu colo no Inverno, dentro do edredão.

 

Queria chorar a falta que ela me faz, a importância, o amor que me deu nestes últimos catorze anos, mas não consigo, a emoção está toda bloqueda cá dentro.

 

O Ippo e a Piccolina andam tristes. Eu faço mimo, mas não brinco. Pode ser disso, pode ser porque sentem a sua falta... mas esta casa está sombria (a despeito do sol), quando estou sozinha.

 

E pensar que tive para cima de um ano para me preparar... é que não há como.

 

Não há mesmo como...

 

04
Set17

Como é que se lida com isto?

Fátima Bento

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Há sete anos atrás escrevi no Diário de uma dona de casa 2.0 sobre um exercício que a Professora Helena Marujo - que leciona Psicologia Positiva na Universidade de Lisboa - fazia, nomeadamente quando as pessoas não conseguiam (assim sem pensar muito) dizer o que as faz feliz, ou pelo menos, quando foi a última vez que se sentiram felizes.

 

- é incrível a quantidade de pessoas que balbuciam e não sai nada...

porque não sabem a primeira, nem se lembram da segunda...

 

E então o exercício que usava para desbloquear e pôr em perspetiva uma série de ideias que andam a voar dentro das nossas mentes tem tanto de simples como de, à primeira vista, macabro: consiste em fazer hoje, bem e de saúde, o próprio epitáfio. Isso ajuda a que as pessoas se descubram, tentem ver-se pelos olhos dos outros. O exercício tem efeitos positivos - pelo menos na grande maioria das vezes.

 

Hoje lembrei-me vagamente do que escrevi na altura, fui à procura e confirmei: na minha lápide estaria apenas a palavra mãe - porque foi isso que eu escolhi ser: ficar em casa com os miúdos 24/7, e estar 100% disponível (na medida do possível, que existem situações que não controlamos e fazem esse 100% mirrar).

Acrescentava na altura que uma frase mais compostinha seria Uma mãe (quase) perfeita. E afirmava, - acreditando piamente - que os meus filhos tirariam os parêntesis e a palavra dentro deles...

 

GRANDE IDIOTA...

 

Ora se há coisa que a minha descendência direta relegou para último plano foi o que investi de mim no processo maternal. As memórias estão distorcidas recordando apenas o menos bom e o mau, consistindo isso maioritariamente nas fases em que passei por crises depressivas agudas - e em que só não me suicidei porque, apesar de achar naquele momento, que eles ficariam melhor sem mim, não lhes queria impor o selo de serem filhos de uma suicida, da culpa que despertaria neles inevitávelmente (as crianças acham sempre que são culpadas) e de terem que superar o facto. Por isso fui furando os dias, a custo, atravessando-os como um bulldozer. Mas contar-se-hão pelos dedos das mãos os dias em que não saí, de todo, da cama, mesmo nas piores fases.

 

Dei-lhes tudo o que tinha para dar. Não havia mais nada nem mais ninguém. Ao contrário do que prego, e preguei nas formações parentais, coloquei os meus filhos, e nem em primeiro lugar: em único.

Não estive parada... fui fazendo parte das A.P. das escolas por onde iam passando, e co-organizando festas, celebrações... escrevi um livro de pedagogia, trabalho de fim de formação, um bê-a-bá para pais de primeira viagem (até isso é carimbado como arrogância da minha parte, mesmo sendo um trabalho, e apesar das pressões para o fazer não o ter publicado por achar que, apenas por ser mãe, não tinha autoridade para ensinar nada a ninguém... ainda assim)

 

E agora é a verbalização da incapacidade de perdoar o tempo que passei na cama (em agonia depressiva), por ter deixado um vazio no meu lugar, um void, e o fazer sentir sozinho (a presença da irmã não conta (e dessa também tenho queixas e acusações, não pensem que me safo...) 

 

E andei seis anos a saltitar de psicólogo em psiquiatra e em psicólogo... por ele ter uma depressão. Se a tivesse de facto, não compreenderia?

 

Digam-me: como é que se vive com isto? 

 

Porque eu não sei...

 

17
Jun16

Coragem ou cobardia? Existe sequer discussão?

Fátima Bento

Há uns dias atrás almocei com uma amiga que já não via há algum tempo. Pareceu-me um pouco abatida e deprimida, o que relacionei com o facto dos seus problemas na tiróide terem descolado, e os nódulos estarem bastante maiores, sendo que se preparava para fazer uma biopsia.

O triste disto tudo é que a vida da minha amiga está tão enrolada, tão cheia de nós e embaraços, que, quando lhe disse: "Calma, vais ver que vai correr tudo bem", ela olhou-me nos olhos, bem no fundo, e disse-me com uma tranquilidade misturada com tristeza, que me desarmou:

"Preferia que não".

Assim.

Fiquei a olhar para ela e em segundos acorreram-me à mente os 'N' casos que todos conhecemos, quanto mais não seja de ouvir falar, de pessoas que 'com a vida perfeita' se suicidam, semeando a perplexidade entre os que ficam.

A minha amiga confidenciou-me estar farta de lutar (conhecendo a história de vida dela, não posso deixar de entender), se sentir extenuada, e ter vontade de largar tudo, bater com a porta, mas não querendo magoar quem ama e sabe que a ama. Então, disse-me com uma lógica desarmante, uma situação terminal seria a solução perfeita: ninguém se sentiria abandonado, e ela poderia finalmente, descansar. Claro que seria doloroso e desesperante, mas com dor e desespero já ela tivera contato, e para mais, "nunca pensaria ir para o céu [é uma ironia da própria] a cantar o fandango e a tocar castanholas".

Fiquei colada à cadeira, a mexer o café sem conseguir encarar aqueles olhos claros que não se desviavam de mim. 

Dizer-lhe o quê? Incorrer naquele lugar comum de fazer um inventário do que ela tem de bom na vida - segundo a minha pessoa? Ou, pior, entregar-lhe numa bandeja aquele outro, sem qualquer tato, "não-digas-disparates" (e-não-digas-que-vais-daqui).

Pensei que dava tudo por um digestivo ou um ansiolítico. Levantei os olhos e encarei aquela mulher forte, e senti-me uma alforreca. Uma mulher que encarava a morte sem pestanejar. E eu a arfar por um calmante...

Respirei fundo. Devolvi o seu olhar profundo, e pus a minha mão sobre a dela. Depois de um silêncio cúmplice, disse-lhe:estou a aqui. E aqui estarei.

 

E juro que vou cumprir a minha promessa.

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