Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

10
Out18

Morte

Fátima Bento

mirror.jpeg

 

Caminhava altiva, o olhar fixo num ponto imaginário em frente, pescoço direito, queixo levemente erguido.

 

Quando a via passar na rua, todos os dias a caminho do Instituto, imaginava como seria bom estar dentro dos seus sapatos, caminhar os seus passos, sentar-se à sua mesa com os seus pais, comer os mesmos pratos, ter os mesmos amigos. Imaginava-a numa vida tão perfeita e cor de rosa como nos filmes que devorava, em que o final era sempre feliz e às vezes lhe faziam escorrer uma lágrima, em luto por aquilo que não tinha e desejava acima de tudo o mais.

 

Os seus dias eram difíceis, tão difíceis como nem conseguia contar. A mãe perfeita que lhe exigia ainda maior perfeição que a própria, as quezílias entre os progenitores, as lágrimas da avó quando as coisas se descontrolavam e a mãe exercia aquele terror psicológico que a caracterizava, sobre si, tão jovem e impotente, que só conseguia entender que tinha feito mal, e que se a mãe se zangava era porque ela se portava mal e merecia, e a avó que chorava em silêncio e lhe fazia sinais para que se calasse por detrás das costas da mãe, e ela perdida no medo e na culpa. E o pai que chegava sempre tão tarde...

 

A primeira vez que lhe passou pela cabeça acabar com a sua vida, lembra-se bem, tinha 12 anos acabados de fazer. Estava a lavar a banheira, de chuveiro na mão, para ali mergulhar e ficar só com os seus pensamentos abafados pelo calor húmido do substituto amniótico e foi acometida pela clarividência de que o fim resolveria tudo. As noites em que ficava deitada em frente à porta trancada do quarto da mãe, a acumular poças de lágrimas na passadeira enquanto implorava desculpa sem saber de quê, no pânico de ter feito algo tão mau, tão mau, tão mau, e na aflição de não se lembrar o quê. Isso poderia acabar, se ela fizesse algo para o efeito.

 

Um dia quebrou numa consulta, as lágrimas transformara-se em soluços convulsivos, chamaram o psiquiatra, e ela ouvia-os a fazer perguntas, mas não conseguia responder a nada, só conseguia chorar, numa torrente ininterrupta de dor acumulada e dúvidas, tantas dúvidas, como responder, como contar, como sequer achar que lhe faziam mal, quando era ela que fazia tudo errado, era ela quem provocava as situações?

 

O diagnóstico foi taxativo, depressão major, e embora com relutância, o psiquiatra acabou por lhe receitar medicação, primeiro placebos, e com o passar dos anos, comprimidos a sério, depois narcóticos, daqueles que meia caixa e adeus.

 

E ela continuava a ver a outra, que já nem era inveja o que lhe causava, só uma raiva surda que a comia por dentro, quando passava do lado de fora da janela, com o seu andar seguro, a sua atenção focada, as certezas que adivinhava no olhar que tentava descortinar... e o rancor escalava, porque é que ela pode ter tudo, o passado, o presente, o futuro, e ela estar aqui neste buraco negro num passado que não queria, num presente que renegava, num futuro que não teria, repetia para si própria, a mão na maçaneta da porta, o último recurso na calha, se nada mais funcionar, abro a porta, apago a luz e vou-me embora, ninguém vai sentir a minha falta, adeus.

 

Um dia ouviu a porta abrir-se e anteviu que a outra saía como habitualmente, na sua indumentária imaculada, na sua maquilhagem perfeita, na sua postura segura, e não aguentou mais. saíu de sopetão, dirigiu-se à outra, agarrou nos seus cabelos que difundiam aquele aroma a champô caro, e arrastou-a uns bons metros, de rojo pelo chão, um sapato para cada lado, a roupa a rasgar-se, e a maquilhagem, ah, a maquilhagem que com tanto prazer esborratou, entre estalos e tentativas de a sufocar, a mão aberta sobre o rosto, a base, o batom, tudo numa mistura inconsistente, riu da cara de palhaço com que deixara a outra enquanto se levantava, riu da fraca figura ali, esconsa, no chão, onde estava agora a postura segura, o andar reto, o olhar determinado? Mãos na cintura, observou o trabalho que acabara de fazer como se de uma obra de arte se tratasse. 

 

... o olhar determinado?

 

 

Uma dúvida trespassou-lhe a memória e recordou que a outra não fizera um gesto que fora, para se defender.

Debruçou-se sobre ela e olha-a nos olhos, em busca de uma sombra da determinação que adivinhara, mas que na verdade nunca conseguira confirmar. Limpou-lhe o rosto com a manga da blusa e recuou. Os olhos que via eram os mesmos que ensopavam a passadeira do corredor, em frente à porta da mãe. O rosto, o seu reflexo.

Ficou sentada ao lado do corpo inerte, testa encostada aos joelhos, dias, semanas, meses? Veio a si quando ouviu a voz da avó, então, hoje não vais ao Instuituto? Olhou para o espaço vazio ao seu lado e só conseguiu dizer, não, cancelaram a aula.

 

Amanhã, avó, amanhã lá estarei.

 

#desafiodeescritacriativa

 

10
Out18

Carta fechada

Fátima Bento

pexels-photo-320267.jpeg

 

Casara de branco com toda a simbologia inerente. Eram brancos os lençóis de algodão, cabeção e fronhas bordadas com o seu novo monograma, agulha empunhada com esmero, para que o homem que a tinha escolhido e fora falar com o seu pai das suas boas intenções, casamento e sustento garantido, sem grandes luxos, mas o parco rendimento certinho, não se arrependesse da escolha que fizera. 

 

Assustava-a a perspetiva da noite, daquela, a primeira noite, e envergonhada aproximara-se da mãe e perguntara o que esperar. A mãe, desconfortável, continuara a lavar a loiça com energia renovada na força com que usava o  esfregão, e dissera-lhe que os homens tinham certas necessidades e que fazia parte das suas obrigações enquanto sua mulher, satisfazê-las. Disse-lhe tens de lhe dizer que sim! Mas a quê, mãe? Ao que ele te disser. Agora vai dar a lavagem aos porcos, que já deviam ter comido, rai' da rapariga, sempre com a cabeça no ar... 

 

E chegou o dia. Depois dos votos repetidos em ladaínha em frente ao senhor padre, depois do almoço que o pai da noiva fez questão de oferecer, um porco inteirinho regado ao vinho que já o seu avô fazia, depois de receber os olhares de inveja das solteiras casadoiras e o olhar sombrio das outras, das casadas com os homens que já bem bebidos as mandavam calar com gestos agressivos, mulheres que quando a olhavam sorriam um sorriso que não lhes chegava aos olhos e repetiam, enquanto lhe apertavam as mãos, o casamento é uma carta fechada, frase que já tinia nos seus ouvidos das tantas vezes que escutara ao longo do dia. Depois de se sentir tão cansada, de lhe doerem os pés dos sapatos que a mãe tinha guardado do próprio casamento, e que apertavam os seus, maiores, depois de ouvir os homens a gargalhar, a cantarem canções das quais já nem conseguia entender a letra, o seu Manel aproximou-se dela, acompanhado pelo coro dos outros homens a darem vivas e a encorajarem o homem, pegou-lhe na mão e levou-a com ele a montarem na carroça que os ia levar à sua nova casa, e partiram.

 

Na manhã seguinte, a marca de sangue no branco do lençol que alindara com tanto brio e cuidado, confirmou a dor que sentia, e confundiu-lhe os sentimentos, as ideias, porquê a nudez, porquê o peso sobre ela, porquê a dor, porquê o sangue, ninguém lhe falara do sangue... apressou-se a retirar o lençol da cama e a levá-lo para lavar, para esfregar bem, pôr à cora, o que fosse necessário para tirar aquela mancha, a mancha da vergonha da sua ignorância, do pudor devastado, da raiva que sentia agora...

 

Entrou na cozinha com o lençol entronchado nos braços, e ouviu a porta abrir-se, era ele que entrava, cravou os olhos no chão, e a lembrança da noite anterior fê-la tremer. Sentiu-o aproximar-se e os pés colados ao chão não a deixavam fugir nem desaparecer, e o ar que não lhe queria sair do peito, o sufoco...

 

Manel segurou-lhe o queixo entre o polegar e o indicador e levantou-lhe a cabeça, até os olhares se cruzarem. Desculpa, disse-lhe com os olhos tristes. Desculpa que sei que fui desajeitado, que sei que te magoei, só posso ter magoado, grande besta, tinha bebido, sabes, não me medi... desculpa, e estendeu-lhe um molho de flores silvestres apanhadas ali no campo à volta da casa. Nunca mais, disse-lhe nunca mais te magoo, quero fazer-te feliz, tão feliz quanto conseguires ser, foi por isso que quis casar contigo, entendes? Não para seres minha pertença, minha criada, mas para estares ao meu lado e caminharmos juntos.

 

Sofia ouviu a sua avó em silêncio, dentro do seu vestido branco de princesa, e deixou as lágrimas rolarem. A avó aproximou-se e secou-lhas com a ponta do lenço de cambraia, shh, rapariga, não chores, hoje é o dia mais feliz da tua vida! Acredita: eu não sabia, mas foi o meu... agora deixa-me ir, que todos nos esperam... amanha-te rapariga, põe-te ainda mais linda!

 

E a velha senhora saiu, apoiada na sua bengala, aproximou-se da cadeira onde Manel estava sentado e ocupou a do lado. O marido pegou-lhe na mão e levou-as aos lábios. Ela sorriu e ficaram assim, de mão dada durante toda a cerimónia, na certeza da promessa cumprida há tantos anos atrás. 

 

#desafiodeescritacriativa

 

09
Out18

Fruto da terra

Fátima Bento

pexels-photo-257840.jpeg

 

Beatriz era uma rapariga quase perfeita. E se digo quase, digo-o na certeza de que a perfeição não só não existe, como é sobre valorizada, remetendo ao anonimato tanta beleza digna de admiração.

 

Mas não havia vivalma que não virasse o pescoço quando Beatriz passava, alheia à agitação que causava, aos queixos que caíam, ao burburinho das mulheres casadas que quando sozinhas inventavam intrigas e quando se passeavam de marido de baixo do braço, espetavam despudoradamente o cotovelo entre as suas costelas, o que os fazia contorcer de dor - sim, que elas não deixavam o seus créditos por mãos alheias, e se é meu, não mexe.

 

Eu tinha um particular prazer em observá-la, nos dias de Verão, sentada no rebordo da fonte no centro da praça, a chapinhar o rosto e a nuca com a água na tentativa de aliviar a canícula. Deleitava-me a vê-la trincar com vontade uma fatia das melancias que as vendedoras expunham nas suas bancas em dia de feira. Aquela gota de liquido vermelho que lhe escorria pelo queixo e que ela limpava com as costas da mão, gesto acompanhado de uma gargalhada descontraída e bem disposta.

 

A todo o esplendor da sua formosura juntava-se um coração de ouro: a mãe já tinha perdido a conta ao número de animais que resgatara e que coabitavam irmãmente no seu quintal, desde gatos e cães a ouriços caixeiros, tartarugas, e pássaros que encontrava estropiados. Um jardim zoológico doméstico, chamava-lhe o pai, ao que ela respondia com mais uma gargalhada cristalina.

 

Um dia Beatriz foi-se embora. deixou a terra onde nascera e crescera, para continuar os estudos numa cidade maior, mais longe.

 

Na pequena vila, em dia de feira, podia jurar que a podia ouvir, na sua gargalhada quase musical, enquanto as melancias iam sendo compradas em metades pelas senhoras agora mais tranquilas com o afastamento da tentação...

 

#desafiodeescritacriativa

 

 

07
Out18

O gato

Fátima Bento

box.jpeg

 

Ninguém sabia o que a pequena caixa tinha dentro. Sabiam que tinha uma fechadura, mas nunca ninguém lhe tinha visto a chave. Nem sabiam sequer o material de que era feita, apenas que não se partia quando caía ao chão - coisa que raramente acontecera, já que a avó sempre a guardara em prateleiras altas, onde os miúdos nem chegavam depois de crescerem..

 

Ninguém adivinhava o conteúdo, mas a avó pedira que lha levassem ao hospital. Foi a única coisa que pedira.

 

E camisa de noite, robe, pantufas, avó? Quero lá saber disso! Se for preciso, ando com as camisas do hospital, a mostrar o traseiro a toda a gente, que me importa?Traz-me a caixa castanha, só quero a caixa castanha!

 

Birrenta, a avó. 

 

E lá foi a equipa de futebol, manos e primos, todos netos da avó, bisnetos à mistura, direto para a divisão a que a avó apelidava de biblioteca e que era um pequeno quarto forrado com estantes até ao teto, tão carregadas de livros que nem se conseguiam contar, e onde estava um cadeirão de orelhas e um pequeno aquecedor a óleo, mais um candeeiro de pé - nunca ninguém percebera se ela tinha alguma vez lido os livros que se encontravam por detrás, uma vez que a única vez que lhe perguntaram ela franziu o cenho e vociferou, disparates, vocês só se interessam por disparates, olha agora! arremessado com tal impacto que nunca mais lhe perguntaram. Ficou assinalado como um dos "mistérios da avó".

 

Um dos primos, filho da Carlota, a segunda filha da avó a partir da mais velha, teve um dia a ideia de criar um Caderno dos Mistérios da Avó, onde figuravam desde aqueles envelopes antigos que ela guardava no fundo da última gaveta da cómoda, já amarelecidos pelo tempo, de que nunca falara a ninguém, passando pela forma sui generis com que a avó matraqueava as teclas do piano enquanto todas as crianças dançavam a bom dançar, acompanhadas pelas gargalhadas da senhora que não acertava qualquer harmonia e se justificava com um, para quem aprendeu sozinha, toco mesmo bem!, e ria outra vez, e as crianças faziam coro e riam e dançavam até os dedos da avó se cansarem, Também figuravam os bolos bons de lamber os dedos que ela fazia sem receita, medidas ou balança. 

 

Mas o maior, mesmo o maior de todos os mistérios da avó, era o conteúdo caixa castanha.

 

E assim se explicava a azáfama de toda a trupe quando se enfiou biblioteca dentro - alguns até tiveram de ficar de fora, que a divisão era pequena para tanta gente - em busca da caixa castanha. Percorreram prateleira a prateleira, lombada a lombada, deixaram cair palavrões, mas a caixa? Onde estava a caixa?

 

Até que a Matilde, a mais novinha das bisnetas da avó, de quem tinha herdado o nome, apontou para o alto e disse ali, ali! 

 

E foi assim, sem compreender como é que uma criaturinha tão pequenita conseguira ver a caixinha numa prateleira tão alta que o Artur, que tinha quase dois metros, teve de ir buscar o escadote para alcançar.

 

E foi uma corrida de volta ao hospital com a caixa bem segura, ai que é desta que vamos saber o que ela tem dentro, é desta que a avó conta, num alvoroço em que pareciam todos miúdos das mesmas idades.

 

Lá chegados só não correram para o quarto da senhora porque o bom senso exige um certo decoro no que concerne aos corredores dos hospitais, mas mal se viram à porta do quarto, entraram todos à uma, braço estendido empunhado a caixa, Está aqui! Está aqui! 

 

Só depois repararam na maquina com gráficos coloridos e números, e bips ritmados, e a seguir a enfermeira entrou aflita, que não podiam estar ali, nunca tantos e naquele momento, ninguém. A avó abriu os olhos e foi buscar ao seu âmago as forças para mandar calar a enfermeira naquele tom que usava para pôr as tropas em ordem e concluiu, tragam-me a caixa. 

 

Com respeito a Matilde aproximou-se da avó com o mesmo nome e colocou-lhe a caixa entre as mãos de dedos magros e ossudos. A avó sorriu-lhe o sorriso mais doce de todos os sorrisos doces, disse-lhe para se chegar mais perto, e sussurrou-lhe ao ouvido, após o que lhe tocou com as pontas dos dedos nos lábios enquanto fazia o som shhhh. A menina aquiesceu. 

 

Toda a família saíu devagar, em silêncio, cientes do momento que se avizinhava. Antes de sair, a pequena Matilde olhou para trás, e viu a avó abraçada à caixa, o seu maior tesouro.

 

Foram todos para a sala de espera, e entre cafés e silêncios ricos se passaram as horas seguintes. Os pequenos dormiam ao colo dos pais quando a enfermeira voltou a entrar na sala para anunciar o que sabiam. Entre lágrimas e abraços as crianças foram acordando estremunhadas, perguntando o que se passava, os pais explicando que havia mais uma estrela no céu. A enfermeira inquiriu se se queriam despedir-se da avó Matilde antes de a levarem - como se fosse necessária a pergunta - e toda a família se dirigiu para o quarto, passos lentos da tristeza que lhes pesava no coração, semblante carregado de dor. No grupo destoava a pequena neta com o nome da avó, que sorria e caminhava resoluta, furando a comitiva, enquanto pensavam coitadinha, não sabe o que é a morte... chegados ao quarto, Matilde neta dirigiu-se à cama de Matilde avó trepou para cima desta e, antes que alguém tivesse tempo de dizer espera, pôs a mão no decote da avó e puxou o cordão de ouro de onde pendia um medalhão. Abriu-o, ante o olhar estupefacto de todos, e tirou de dentro uma pequeníssima chave, que estendeu à mãe. 

 

A mãe, meio a medo pegou na pequena caixa e abriu a fechadura. Dentro estava um saquinho plástico com um pó fininho, e a foto de um gato branco.

 

Foi isto que a avó te disse? Perguntou a mãe a Matilde. Xiim. E dixe tameim que não xoraxem, que ela tava felix porque ia ter com o melhor amigo dela, e vai tá xempe a olhar por nóx todox.

 

#desafiodeescritacriativa

 

03
Out18

Fim

Fátima Bento

envolepe.jpeg

 

O dia que escolhi para morrer amanheceu com um sol tímido a espreitar por entre as nuvens. Saltei da cama, fui diretamente para a casa de banho e enfiei-me debaixo do duche morno. Enrolei a toalha felpuda à volta do meu corpo, e olhei-me no espelho, o cabelo a pingar, as gotas de água a escorrer pelos ombros, pelos braços. Deixei-me estar assim uns momentos, a formar duas pequenas poças de agua no chão, mesmo por debaixo das minhas mãos. Acordei daquele torpor para onde tinha deslizado, embrulhei o cabelo numa toalha, e tratei da pele: hidratei, apliquei o fond de teint e o iluminador, finalizei com o pó. Espalhei um pouco de blush no alto das bochechas e nas pálpebras superiores, e apliquei uma camada de máscara nas pestanas. Sequei o cabelo, voltei para o quarto e olhei a cama desfeita, marcas da última noite que escolhi passar contigo, pistas em que se adivinhava a forma do teu corpo no colchão. Vesti o vestido, preto e clássico, pequei nos sapatos e levei-os na mão até à cozinha onde preparavas o pequeno almoço.

 

Sorri quando entrei, mal vi a mesa alta posta, dois individuais e no centro um pequeno molho de flores frescas dentro  da minha jarra favorita. Atravessei a cozinha a saltitar e abracei as tuas costas, encostando o rosto na tua pele. Inspirei o teu cheiro, que guardei na gaveta da memória.

 

Comemos com a cumplicidade de dois amantes que perpetuam a paixão da noite nas pequenas coisas de todos os dias. Os sorrisos e as palavras meio sussurradas, a felicidade que transpirava e se abria como uma rosa aveludada dentro do peito.

 

Enfiei os pés nos sapatos, peguei na carteira, onde coloquei o telemóvel, e peguei nas chaves do carro. Saímos, cada um no seu carro, demorei mais um pouco, vi-te manobrar e acenaste-me em despedida, um até logo que não se iria concretizar. Quis gravar tudo na memória, cada momento, cada imagem.

 

Limpei a lágrima que se assomava, e pus o carro em movimento. Fiz o caminho até ao trabalho em piloto automático, estacionei, passei o cartão na entrada e dirigi-me ao meu gabinete. Aceitei o café que a secretária me ofereceu, e tirei a  pasta da gaveta enquanto o bebericava. Abri-a e espalhei as folhas, fotos do meu corpo por dentro, a preto e branco e a cores, contraste de tanto que não devia ser, nem estar, sobre coisa nenhuma. Recostei-me na cadeira e fechei os olhos. Respire fundo, tirei o maço de envelopes da gaveta,chamei a secretária e indiquei que estes deviam ser entregues por estafeta nos endereços referidos, precisamente às 12:30h. Quando saiu, deixei-me estar, olhos fechados com força. Apertei os maxilares até os dentes rangerem, entre a raiva e a impotência, enquanto voltei a ouvir as palavras do medico, um mês, dois no máximo. Lamento...como se ele soubesse o quanto lamentar. 

 

Olho o relógio e passam poucos minutos do meio dia. Batem-me na vidraça, empurram a porta,vens almoçar? Não, tenho umas coisas para adiantar, respondo no estupor do nada que faço e pareço, ali sentada as folhas espalhadas à minha frente. relembro cada momento que gravei na memoria enquanto me dirijo à porta e dou a volta à chave. procuro o batom vermelho na carteira e com ele escrevo um DESCULPEM, em letras enormes transversal a meia dúzia de folhas de papel que, espero, completem a razão que apresento nas cartas que estão prestes a ser entregues.

 

Abro a janela imensa, e sento-me no parapeito. Não noto a agitação que se começa a formar no outro lado da parede de vidro. Olho o abismo e penso em tudo o que amo tanto, e despeço-me mentalmente de cada um desses pormenores. Apoio a ponta de um pé no calcanhar oposto e deixo cair o sapato, repetindo o gesto no outro: sempre gostara de estar descalça. Fecho os olhos, aperto os maxilares com força, para evitar o chocalhar dos dentes. E deixa-me cair no vazio, sem ouvir já os batimentos frenéticos na porta do seu gabinete.

 

#desafiodeescritacriativa

 

02
Out18

Simplicidade

Fátima Bento

fogo.jpeg

 

Tinha os dedos enfarruscados da tenaz com que empilhava as brasas no borralho da cozinha. Limpou as mãos ao avental, endireitou as costas, mão apoiada na lombar, ai os meus rins, e dirigiu-se ao cântaro. Encheu o púcaro de água, deitou-lhe umas ervas secas, e colocou-o sobre a trempe posicionada sobre as brasas. Sentou-se no banco de madeira e estendeu as mãos para o calor. Iluminadas pelas labaredas que se iam soltando de quando em vez, as suas mãos perdiam-se em frieiras, calos, verdadeiros mapas da estrada da sua vida.

 

Não olhava para as mãos, que conhecia de cor sem nunca ter reparado; ao invés, fixava a dança tímida do fogo, das brasas incandescentes, e deixava a mente vaguear por lugares que não sabia sequer.

 

Os pais costumavam juntar-se a ela em frente da fogueira, lembrava-se bem, e o pai, sempre com o seu chapéu preto na cabeça, costumava colocar um punhado de milho numa cama que fazia em meio à cinza, milho esse que estourava e era uma festa comê-lo quentinho, ao mesmo tempo que soprava a fuligem, a mesma que agora lhe enfarruscava os dedos.

 

Alzira tinha sido das mais sortudas do Lugar: tinha ido à escola, embora não tivesse chegado a tirar a quarta classe: quando entrara na terceira, a mãe tinha caído à cama, tízica, e dali só tinha saído para enterrar no cemitério da vila, roupas negras e a estranheza duma dor que a devorava e não conseguia exprimir. Depois desse dia não voltou mais a ouvir o sino que a chamava para aquela sala que tinha o crucifixo de Deus Nosso Senhor ao lado do quadro de ardósia.  

 

A partir daí a sua vida foi a casa, cozinha, a roupa do pai, limpar, alimentar os animais, plantar batatas no pequeno retângulo de terra fértil em frente à casa, e acompanhar o progenitor às hortas próximas onde cultivavam milho, cevada, trigo...

 

A vida foi passando por ela, os dias a suceder-se às noites, a Primavera ao Inverno, numa cadência ritmada: Esqueceu os sonhos que nunca teve, agarrou-se a tudo o que lhe dava prazer, os queijos e enchidos que fazia, a arca cheia de carne da matança do porco guardada em salmoura, que lhes chegava para um ano, o leite que as cabras davam. Todos os dias encimava a cabeça com a rodilha e o cântaro, que levava deitado e trazia direito, o pescoço reto num andar de bailarina sem sapatilhas de ponta.

 

O pai um dia sucumbiu, sem conseguir respirar nem explicar o que sentia, chamados os bombeiros foi transferido para a capital, cancro na garganta, nada a fazer, ficou-se ali, voltou para ser enterrado ao lado da mãe. 

 

Quedou-se na casa sozinha, e perpetuou os dias iguais como até ali, até o corpo lhe começar a falhar, e foi-se limitando às quintas mais perto, e depois remeteu-se a plantar aquele pedaço de terra junto à casa com o que lhe fazia falta para consumir. Manteve as galinhas, os coelhos, mas deixou as cabras e os porcos, que já era trabalho que não obedecia à cadência a que os seus dias se tinham reduzido.

 

Uma coisa a tinha acompanhado ao longo de todas aquelas décadas de trabalho árduo, algo que lhe tinha tornado o fardo mais leve: a fé inabalável, a ida à missa que não falhava ao domingo, fizesse sol ou chuva, a sua Senhora de Fátima, o seu Cristo na cruz.

 

Pegou na pega de trapos e tirou o púcaro, passando o liquido para a caneca através do passador de rede fina. Deitou as folhas de camomila no lixo e preparou-se para levar o chá para o quarto. Afastou as brasas, garantindo que não irromperiam em chamas, e saiu da cozinha.

 

Lavou a cara, vestiu a camisa de noite, e afastou as cobertas. Acendeu a pequena vela no altar improvisado onde estavam as imagens da sua devoção, ajoelhou.se e rezou. Não pediu nada, apenas agradeceu por tudo quanto a vida lhe tinha trazido. Fez o sinal da cruz, sentou-se na cama e sorveu o chá, onde adicionara duas colheres de chá de açúcar, com prazer. Deitou a cabeça na almofada e apagou a luz. 

 

Enquanto adormecia, ainda teve tempo de sentir aquela felicidade de quem tem tudo aquilo que conhece e precisa para ser feliz. Adormeceu finalmente, na certeza de que o sol se ergueria na manhã seguinte.

 

 

À minha tia Lúcia

 

#desafiodeescritacriativa

 

 

01
Out18

A Pegada

Fátima Bento

Abro a porta e responde-me o silêncio que reverbera nas paredes. Vazia. Uma casa vazia de ti, vazia de nós. Sem estarmos juntos, posso ser eu, mas nunca nós. E poderei, mesmo, ser eu?

 

Quem sou eu sem ti?

 

De quem é o reflexo no espelho quando o olho? O que aconteceu ao casal que estava nas fotos que nos enchem as paredes, os aparadores. O que nos aconteceu? O que nos resta dos anos que passamos juntos, da vida que construímos juntos, o que farei com os planos que fizemos, do futuro que inventámos e para o qual começámos a caminhar devagar, passo a passo?

 

Sento-me no sofá, encosto a cabeça e fecho os olhos. Respiro fundo e deixo a emoção sair-me olhos fora num dilúvio soluçante. Acabo por me enrolar e adormecer, em posição fetal.

 

Quando acordo, já a luz do dia tomou um tom alaranjado de sol que se põe. Endireito-me no sofá, tento endireitas as rugas que se formaram na roupa. Levanto-me, vou até à casa de banho e molho o rosto com água fria, que também esfrego nos pulsos. Levanto os olhos e volto a ver aquela pessoa que não sei quem é, que me devolve o olhar com igual estranheza.

 

Oiço a chave na porta e apresso-me a ir para a entrada. Maria entra casa dentro com um sorriso de orelha a orelha, e corre para o seu peluche preferido. A avó entrega-me a sua mochila e não pode evitar dar-me um abraço apertado, enquanto me molha o ombro com lágrimas disfarçadas. Té…té diz Maria com o ursito de peluche em riste. Tété qué papa!

 

Baixo-me à sua altura. No seu rostinho os teus olhos brilham de entusiasmo, e a sua gargalhada soa como a esperança que nasce, tímida, no meu peito.

 

Deixaste-nos a dor da tua ausência, mas a tua essência ficou na nossa filha. Perdi-te mas fiquei com a melhor parte de ti. A pegada indelével que deixaste nesta vida.

smiley.jpeg

 

#desafiodeescritacriativa

 

 

01
Out18

Escrita criativa - e eu que não tenho juízo nenhum...

Fátima Bento

Bom, fui às leituras e primeiro foi o texto da Happy. Depois foi o da 3ºFace, que me levou à fonte da partilha, a Totó. E eu sou uma fraca. Como o meu mês não está a transbordar - um dia destes conto como estou a elaborar os desafios do selfcare... - não resisti e resolvi fazer. Se houvesse dúvidas, a palavra de amanhã é Vela, e eu amanhã faço anos... vendido!

 

totó.png

 

Já a seguir, o primeiro texto (não se habituem mal, que isto não vai ser um chorrilho de posts todos os dias, ok? ...)

 

Sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

...porque outubro é quando quisermos...

mini.JPG

 

Pesquisar

A ler agora

pet.JPG

 

... e também

xmas book.JPG

 

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Sigam-me aqui:

Bloglovin.JPG

 

Instagramem-me:

Aqui e agora