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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

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19
Jun18

Nós as gordas (e a tirania do politicamente correto)

Fátima Bento

E se nos deixássemos de paninhos quentes? Sim, somos mulheres reais (mais real é difícil, se nos cortarem, sangramos). Mas não somos (obrigatoriamente) "fortes", e quando passamos o 44, garantidamente não somos cheínhas: somos gordas.

 

Há algumas coisas que me irritam, uma delas é o medo das palavras. Quando era miúda, quem morria de cancro morria "de uma doença má" - deus nos livre de alguém dizer a palavra cancro! Quando eu tinha 15 ou 16 anos tive tuberculose, andei em tratamento uns meses largos, e passou. Mas aqui d'el rei, o que eu tinha era uma mancha no pulmão. Claro que eu colocava o palavrão em cada frase que cabia... era tuberculose, porra! Mancha no pulmão era na radiografia!

 

E hoje, em 2018, há ainda um número maior de coisas que não se dizem, há ainda mais palavras que assustam, que ofendem! O que eu acho - e quem sou eu... - é que vivemos numa era de con**has que se melindram por dá cá aquela palha... há que engrossar a nossa casca, man up!, independentemente do nosso género. Irra!

 

O preto é preto.

O gay é maricas.

Eu sou gorda.

 

Façam lá o favor de encaixarem! A ginástica que é preciso para não ofender as pessoas hoje em dia... é obra! Não podemos falar de escolhas sexuais a não ser usando tecnicismos: as pessoas deixaram de conseguir rir de si próprias????

 

Gente, o Victor veste o 38, tal como o Tomás, e eu o 46. Costumo dizer que quando vamos na rua quem nos vê diz que eles estão magrinhos porque eu como tudo e não sobra nada para eles. E acho imensa piada à coisa - hão-de convir que é engraçado... imaginem a cena e coloquem-lhe a legenda...

 

De resto, a par com o medo das palavras vem o medo dos números. A pessoa está gorda. A pessoa não se pesa porque tem medo dos dígitos que vai ver. 

 

OY!!!!!!

 

Não é que o peso seja superior ou inferior, não é que fique a vestir um tamanho abaixo ou acima por saber quanto pesa! Canudo, são números!

 

princesas1.png

 (via)

 

Portanto chega de passar verniz na verdade. Somos gordas. E existem coisas de que gostamos todas, e coisas que nos são difíceis, coisas que nos são impossíveis, outras que nos são mais ou menos caraterísticas... por isso, a partir de hoje vai haver uma nova rubrica aqui no blogue que se vai chamar Nós as Gordas. Não terá dia certo, pelo menos por enquanto, mas vou já adiantar que amanhã será publicado o primeiro. E depois, o vosso feed back influenciará a sua periodicidade...

 

Haverá coisas sérias, coisas leves, coisas alegres, outras tristes... 

 

Se se sentem capazes de seguir uma verdade sem purpurinas, o caminho é por aqui. Já chega de enfeitar a realidade - porque não há necessidade. A verdade é que, vistamos o casaco do tamanho que vestirmos, por baixo somos nós. Sempre. E não é uma palavra que vai alterar a coisa. 

 

E deixem que vos diga que se não merecemos gostar de nós quer pesemos dois ou três dígitos, vou ali e já venho...

 

 

Nota: estes posts não apelam a que, mesmo que se aceite o facto de estar acima do peso ideal, a pessoa deixe de prestar atenção à saúde. Por isso, aconselho toda a gente (e não apenas as/os gordos) a ir ao médico de família pedir análises E mostrar os resultados ao mesmo. Se houver problema, siga as indicações do médico.

 

Eu tenho a sorte de estar tudo normal, mas não sou bitola para ninguém...

 

#nósasgordas

30
Mai18

Disto de viver com depressão

Fátima Bento

Não tenho ido ao ginásio; estou a atravessar uma crise depressiva, que ando a ver se corro à vassourada, mas ainda não ultrapassei, e não tenho tido vontade de ir a lado nenhum... por mim passava os dias inteiros a ler, ver Netflix e jogar Farmville. Intervaladamente.

 

Não sei quantos de vocês sabem, mas a depressão entrou na minha vida, oficialmente, quando tinha 12 anos, altura em que foi registado o meu primeiro episódio de depressão major... e até hoje, alapou-se a mim, e tenho sido obrigada a conseguir viver com ela.

 

Desde que comecei a fazer psicoterapia, há quatro anos atrás, fui gradualmente aprendendo a gerir algumas das situações que despoletavam crises depressivas, a entendê-las e a lidar com elas. Há dois anos que não estou medicada, e as duas sessões de psicoterapia analítica que faço semanalmente ajudam-me imenso. Agora cheguei àquele ponto em que quase consigo fazer o diagnóstico sozinha e apresentá-lo ao meu médico, que o disseca e aprofunda. E entrei por isso na fase de entender, de dentro para fora, que é necessário fazer mudanças. E isso é tão difícil... óbvio, mas difícil, porque se trata de construir algo novo, ao lado dos traumas mais enraizados. De deixar de dar atenção ao que me paralisou ao longo dos anos, e criar algo que me liberte... e neste momento, a constatação disso faz-me sentir mais presa. Com menor capacidade de me mexer. 

 

De há umas duas semanas a esta parte, acordo e faço uma birra eu não quero acordar, eu não me quero levantar, eu não quero viver as próximas horas, mesmo antes de abrir os olhos, e de fazer um gesto que seja.

Estou como que dentro de uma caixa de acrílico, a tentar não pensar, a menos que queira ligar o pensamento. E a fazer o que não me faz sentir especialmente bem nem especialmente mal. Como que se estivesse a pôr o tempo em suspenso... até me sentir com forças para fazer o que devo.

 

É como se ao longo da minha vida tivesse construido castelos de areia que colapsavam sucessivamente (não interessa, aqui, como), que reconstruia, para logo depois recomeçar, e recomeçar... e agora que me começo a inteirar de algumas formas de evitar esse colapso, tenho de ir buscar areia a outro espaço da praia e construir outro castelo, com o que aprendi, perto do antigo - mas sem perder tempo e/ou energia a olhar para o lado, porque não interessa o que ocorreu antes, porque está no passado.... e só interessa o que vou fazer agora.

 

E só me apetece adiar o agora.

 

Na última sessão chegámos fundo, mesmo fundo. E - ca#%&lho! - amanhã é feriado (nunca uma sessão me fez a falta que a de amanhã faz); tenho de ir até segunda para tirar mais dúvidas e conseguir um suporte mais claro, mais estável para avançar. Porque se sempre me senti capaz de avançar sozinha (pelo menos pensava eu que era capaz, mas tem sido um bocadinho o repetir o mesmo à espera de resultados diferentes), neste momento assumo preciso de apoio, do apoio que só quem me conhece da forma que o meu terapeuta conhece, me pode dar. 

 

Por isso, a menos que eu tenho uma epifania, daqui até segunda feira as coisas não vão mudar assim tanto: vou continuar a jogar ao jogo do empata, que é uma das coisas em que (infelizmente) sou boa. Raios partam...

 

Uma coisa garanto: nunca estive tão perto de me resolver... e tão longe, porque ter a chave na mão mete medo, e começar a reconstruir-me é paralizante... mas eu chego lá...!

 

light-at-the-end-of-the-tunnel-waheeda-ramnath.jpg

 (via)

09
Ago16

Qual é o teu maior medo?

Fátima Bento

A pergunta foi feita assim, largada qual papel anónimo num qualquer cesto para reciclagem, qual é o teu maior medo? Penso que vamos ter de esperar um bom bocado pela resposta, já que não sei nem faço a mínima ideia, sempre me foi reconhecida a bravura de não ter medo de nada, que ouvi aplicada nas situações mais diversas, enquanto cá dentro a criança estava silenciosa sob ameaça, sem conseguir esconder todos os papões dentro do armário, o que lhe provocava alguns tremores discretos, e invisíveis a quem me elogiava a bravura.

Onde está o meu calcanhar de Aquiles? que tenho de desvendar e pôr à mostra mesmo em surdina, que seja só para eu ver.

Vejo-me pequenita, numa sala de aula vazia, quadro de ardósia e estrado, na secretária da professora uma cadeira de ângulos austeros a gritar o desconforto que provoca a quem nela se sente, vazia. Estou sentada no chão, sobre o estrado, a um quadro de parede de distância do lugar ausente da chefe da sala, e escondo a testa nos joelhos, enquanto abraço as pernas em soluços mudos. O relógio da parede deixa escorrer as horas sem mudar os ponteiros de sítio, e ao passar do tempo nada muda, continuo no mesmo lugar nos mesmos preparos de lágrimas ranhosas, a professora ausente, a sala ausente de turba condizente com a sua função.

 

Sinto um arrepio e olho em volta; distingo as vozes, cheiros e sons que asseguram a minha presença na igreja devotada à sagrada cafeína em que me encontro, grandes baldes de misturas doces e aveludadas sob tampas brancas, é para levar ou beber aqui, qual é o seu nome, já chamamos, Fátima!. E enquanto tamborilo os dedos na mesa a que lancei amarras enquanto espero, noto que a resposta à pergunta é tão clara quanto o liquido no copo de água que pedi para hidratar a espera. Óbvia e pasmo!, insidiosamente desconfortável, que me quero capaz, capaz sozinha.

 

 

Tenho medo de não ser gostada. 

 

Quisera conseguir agradar a todos, porque a indiferença me dói mais de que o ódio ou a raiva. Tenho medo, mais de que de não ser alvo de sentimentos fofinhos decorados com nuvens cor-de-rosa, de ser atirada para o oblívio, de me ser retirado corpo, presença e sombra, de ser transformada em menos que uma memória, invisível que me queiram e possam, na sua indiferença. 

Não existe em mim pinga de receio, penso enquanto me dirijo ao balcão de recolha como um cãozinho bem treinado que escuta o seu nome, obrigado, Fátima!, de estar ou ficar sózinha, mesmo se a maioria das vezes gosto de companhia, gosto da cumplicidade que não se consegue quando estamos acompanhados apenas de nós próprios. Mas não agito um crucifixo, de retro!, aos momentos de solidão - ou sózinhez? - que me deixam a sós com as minhas dúvidas, os meus pensamentos, as minhas cogitações, já que gosto bastante da minha companhia e não me custa estar nua em frente ao espelho.

Mas em resposta à pergunta no título, tenho medo que não gostem de mim a ponto de me prenderem num esquecimento falso que dói tanto como se fora sincero e verdadeiro. 

Crescida que fiquei mais de que com o passar dos dias, com os mergulhos que dei fundo, cada vez mais fundo, acompanhada ao longe por um salva-vidas atento, e interveniente se solicitado ou necessário, entendi nas entranhas, sem a juda do cogito, que não é possível aspirar à unanimidade do gostar - e que por si é um contracenso. E daí a começar a deixar fluir a personalidade que se esconde debaixo de um sem-número de camadas de teias de aranha construídas por falsos pressupostos servidos em bandejas de prata com campanulas enganadoras do conteúdo, é um pulinho.

Mas isso... isso serão outras núpcias...

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