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Porque Eu Posso

... e 'mái nada!

Porque Eu Posso

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10
Out18

Morte

Fátima Bento

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Caminhava altiva, o olhar fixo num ponto imaginário em frente, pescoço direito, queixo levemente erguido.

 

Quando a via passar na rua, todos os dias a caminho do Instituto, imaginava como seria bom estar dentro dos seus sapatos, caminhar os seus passos, sentar-se à sua mesa com os seus pais, comer os mesmos pratos, ter os mesmos amigos. Imaginava-a numa vida tão perfeita e cor de rosa como nos filmes que devorava, em que o final era sempre feliz e às vezes lhe faziam escorrer uma lágrima, em luto por aquilo que não tinha e desejava acima de tudo o mais.

 

Os seus dias eram difíceis, tão difíceis como nem conseguia contar. A mãe perfeita que lhe exigia ainda maior perfeição que a própria, as quezílias entre os progenitores, as lágrimas da avó quando as coisas se descontrolavam e a mãe exercia aquele terror psicológico que a caracterizava, sobre si, tão jovem e impotente, que só conseguia entender que tinha feito mal, e que se a mãe se zangava era porque ela se portava mal e merecia, e a avó que chorava em silêncio e lhe fazia sinais para que se calasse por detrás das costas da mãe, e ela perdida no medo e na culpa. E o pai que chegava sempre tão tarde...

 

A primeira vez que lhe passou pela cabeça acabar com a sua vida, lembra-se bem, tinha 12 anos acabados de fazer. Estava a lavar a banheira, de chuveiro na mão, para ali mergulhar e ficar só com os seus pensamentos abafados pelo calor húmido do substituto amniótico e foi acometida pela clarividência de que o fim resolveria tudo. As noites em que ficava deitada em frente à porta trancada do quarto da mãe, a acumular poças de lágrimas na passadeira enquanto implorava desculpa sem saber de quê, no pânico de ter feito algo tão mau, tão mau, tão mau, e na aflição de não se lembrar o quê. Isso poderia acabar, se ela fizesse algo para o efeito.

 

Um dia quebrou numa consulta, as lágrimas transformara-se em soluços convulsivos, chamaram o psiquiatra, e ela ouvia-os a fazer perguntas, mas não conseguia responder a nada, só conseguia chorar, numa torrente ininterrupta de dor acumulada e dúvidas, tantas dúvidas, como responder, como contar, como sequer achar que lhe faziam mal, quando era ela que fazia tudo errado, era ela quem provocava as situações?

 

O diagnóstico foi taxativo, depressão major, e embora com relutância, o psiquiatra acabou por lhe receitar medicação, primeiro placebos, e com o passar dos anos, comprimidos a sério, depois narcóticos, daqueles que meia caixa e adeus.

 

E ela continuava a ver a outra, que já nem era inveja o que lhe causava, só uma raiva surda que a comia por dentro, quando passava do lado de fora da janela, com o seu andar seguro, a sua atenção focada, as certezas que adivinhava no olhar que tentava descortinar... e o rancor escalava, porque é que ela pode ter tudo, o passado, o presente, o futuro, e ela estar aqui neste buraco negro num passado que não queria, num presente que renegava, num futuro que não teria, repetia para si própria, a mão na maçaneta da porta, o último recurso na calha, se nada mais funcionar, abro a porta, apago a luz e vou-me embora, ninguém vai sentir a minha falta, adeus.

 

Um dia ouviu a porta abrir-se e anteviu que a outra saía como habitualmente, na sua indumentária imaculada, na sua maquilhagem perfeita, na sua postura segura, e não aguentou mais. saíu de sopetão, dirigiu-se à outra, agarrou nos seus cabelos que difundiam aquele aroma a champô caro, e arrastou-a uns bons metros, de rojo pelo chão, um sapato para cada lado, a roupa a rasgar-se, e a maquilhagem, ah, a maquilhagem que com tanto prazer esborratou, entre estalos e tentativas de a sufocar, a mão aberta sobre o rosto, a base, o batom, tudo numa mistura inconsistente, riu da cara de palhaço com que deixara a outra enquanto se levantava, riu da fraca figura ali, esconsa, no chão, onde estava agora a postura segura, o andar reto, o olhar determinado? Mãos na cintura, observou o trabalho que acabara de fazer como se de uma obra de arte se tratasse. 

 

... o olhar determinado?

 

 

Uma dúvida trespassou-lhe a memória e recordou que a outra não fizera um gesto que fora, para se defender.

Debruçou-se sobre ela e olha-a nos olhos, em busca de uma sombra da determinação que adivinhara, mas que na verdade nunca conseguira confirmar. Limpou-lhe o rosto com a manga da blusa e recuou. Os olhos que via eram os mesmos que ensopavam a passadeira do corredor, em frente à porta da mãe. O rosto, o seu reflexo.

Ficou sentada ao lado do corpo inerte, testa encostada aos joelhos, dias, semanas, meses? Veio a si quando ouviu a voz da avó, então, hoje não vais ao Instuituto? Olhou para o espaço vazio ao seu lado e só conseguiu dizer, não, cancelaram a aula.

 

Amanhã, avó, amanhã lá estarei.

 

#desafiodeescritacriativa

 

11
Nov16

And yet...* - Leonard Cohen, 1934 - 2016

Fátima Bento

Não posso falar muito sobre ele... por muito que gostasse. Para mim sempre foi aquele grande poeta que me deixava deprimida, e que invariávelmente acabava por desistir de ouvir em prol de não me começar a arrastar pelo chão da casa, e de não me fechar no meu cinzento antracite. No entanto sei bem o seu valor inestimável e a perda absoluta que é a sua morte, apenas amenizada pelo legado que nos deixa.

 

Ainda este ano, aquando do lançamento do seu último álbum, declarou estar pronto para morrer. Mais tarde num aremesso de "and yet", garantiu que estava pronto para viver para sempre.

 

Assim será.

Obrigado por tudo.

 

* segundo o Mec, hoje no Ipsílon/Público, numa belíssima homenagem

17
Jun16

Coragem ou cobardia? Existe sequer discussão?

Fátima Bento

Há uns dias atrás almocei com uma amiga que já não via há algum tempo. Pareceu-me um pouco abatida e deprimida, o que relacionei com o facto dos seus problemas na tiróide terem descolado, e os nódulos estarem bastante maiores, sendo que se preparava para fazer uma biopsia.

O triste disto tudo é que a vida da minha amiga está tão enrolada, tão cheia de nós e embaraços, que, quando lhe disse: "Calma, vais ver que vai correr tudo bem", ela olhou-me nos olhos, bem no fundo, e disse-me com uma tranquilidade misturada com tristeza, que me desarmou:

"Preferia que não".

Assim.

Fiquei a olhar para ela e em segundos acorreram-me à mente os 'N' casos que todos conhecemos, quanto mais não seja de ouvir falar, de pessoas que 'com a vida perfeita' se suicidam, semeando a perplexidade entre os que ficam.

A minha amiga confidenciou-me estar farta de lutar (conhecendo a história de vida dela, não posso deixar de entender), se sentir extenuada, e ter vontade de largar tudo, bater com a porta, mas não querendo magoar quem ama e sabe que a ama. Então, disse-me com uma lógica desarmante, uma situação terminal seria a solução perfeita: ninguém se sentiria abandonado, e ela poderia finalmente, descansar. Claro que seria doloroso e desesperante, mas com dor e desespero já ela tivera contato, e para mais, "nunca pensaria ir para o céu [é uma ironia da própria] a cantar o fandango e a tocar castanholas".

Fiquei colada à cadeira, a mexer o café sem conseguir encarar aqueles olhos claros que não se desviavam de mim. 

Dizer-lhe o quê? Incorrer naquele lugar comum de fazer um inventário do que ela tem de bom na vida - segundo a minha pessoa? Ou, pior, entregar-lhe numa bandeja aquele outro, sem qualquer tato, "não-digas-disparates" (e-não-digas-que-vais-daqui).

Pensei que dava tudo por um digestivo ou um ansiolítico. Levantei os olhos e encarei aquela mulher forte, e senti-me uma alforreca. Uma mulher que encarava a morte sem pestanejar. E eu a arfar por um calmante...

Respirei fundo. Devolvi o seu olhar profundo, e pus a minha mão sobre a dela. Depois de um silêncio cúmplice, disse-lhe:estou a aqui. E aqui estarei.

 

E juro que vou cumprir a minha promessa.

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