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... e 'mái nada!

... e 'mái nada!

Tua

Desafio Caixa de lápis de cor

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Amava-o desde que me lembrava de ser alguém. Ainda na escola recordava ficar a vê-lo ao longe, e a sonhar como seria se ele gostasse de mim. Sentia um alvoroço quando estava perto, o estômago era um frasco de borboletas imperador, que batiam as suas asas de azul forte contra o vidro. E nas férias passava horas na  janela do meu quarto a olhar para a varanda da sua casa, aguardando ansiosamente que este surgisse e fosse possível, finalmente, vislumbrar o objeto do meu encantamento.

 

As figuras que fazemos na adolescência, penso com um sorriso. 

 

Hoje, uma década volvida, encontro-me no banco traseiro do carro, a caminho da igreja, onde ele já deve ter chegado. Aliso a saia do vestido - que é importante que nenhuma ruga ali surja sorrateiramente - e observo depois as mãos, mais propriamente o anelar direito, que exibe o anel que me deu num aniversário, anos antes, e que faço questão de usar neste dia. Tão boas as recordações... naquele dia recebi o mais terno e doce beijo que me fez sentir que toda a espera valera a pena.

 

Estive do seu lado em todos os maus momentos, quando o pai faleceu de doença prolongada foi em mim que se apoiou e, quando a sua relação de anos terminou, foi o meu ombro que ensopou com lágrimas e desabafos. E mesmo de todas as vezes em que ele desfiou desvelos pela recente ex namorada, mantive-me firme - e não raras vezes lhe quis gritar que era demasiada informação. A plenos pulmões.

 

Mas a verdade - e eu sabia-o - é que era a sua maior amiga e ele precisava de mim. E fui-me deixando estar presente, oferecendo o ombro para os desabafos tristes e o ouvido para os entusiasmados, com direito a ser a primeira a saber quando fazia uma nova conquista, e quando a descartava. Não raras vezes, na euforia que sentia por mais uma vez ele ter chegado à conclusão que aquela também não era "a tal", confessei à almofada que acreditava estar um passo mais perto do dia em que ele havia de perceber que essa, era eu. O dia em que veria que eu estivera todo o tempo do seu lado e esperara pacientemente que se apercebesse que sempre me amara. Como firmemente acreditava. 

 

Perdida nos meus pensamentos, nas memórias da minha vida e da dele entrelaçadas durante tanto tempo, mal me apercebo quando o carro para em frente à pequena igreja. Levanto a cabeça e preparo-me: é chegada a hora de me apear e dirigir à entrada da mesma. Sinto um desconforto no estômago, as borboletas que ainda hoje lá residem estão enlouquecidas de ansiedade. Dirijo-me à entrada, e todas as imagens que fiz do dia em que oficializaríamos a vontade de ficar juntos para sempre, todos os sonhos, se  perfilam de ambos os lados do acesso fazendo como que um corredor por onde devo passar. Reconheço-os. Avanço, empurro a porta, e entro.

 

À minha frente os bancos estão repletos de rostos, uns familiares, outros desconhecidos. Deixo-me ficar na penumbra e observo-o, as costas largas, os músculos torneados que se adivinham por baixo do casaco. Preparo-me para avançar, e um arrepio percorre-me, nunca senti julho tão frio. Avanço pela nave, e quando os nossos olhos se cruzam e ele sorri, as lágrimas ameaçam brotar em catadupa. Pisco os olhos rapidamente e retribuo o sorriso. Prestes a chegar, oiço a marcha nupcial e ocupo o meu lugar. Parabenizo-me por não chorar, embora esteja mortinha por fazê-lo. E quando todas as cabeças rodam em direção à entrada da igreja, a minha faz o mesmo e vejo-a: linda, de branco, a mais bela aparição. As lágrimas soltam-se e sei. Sei que era preciso estar aqui hoje para entender que nunca mais, que não vai nunca ser verdade, que ele nunca ver aquilo em que nunca reparou. Passo a mão no rosto para limpar o meu segredo. E depois do sim, depois do aplauso, depois do casal atravessar a igreja em direção ao sol quente de Verão, deixo-me ficar sentada, dando livre curso ao caudal preso na minha garganta que finalmente me transborda os olhos.

 

E no meu âmago, as borboletas cansadas de uma vida a voltear e embater contra os vidros desistem finalmente. Uma a uma, deixando, no fundo do frasco, o pó azul da sua existência.

 

- Também deste desafio:

Imortal

O menino de sua mãe

Acalanto da memória

Conforto

 

Neste desafio participo eu, a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Imsilva, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,  a Gorduchita, a Miss Lollipop, a Ana Mestre a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue,  José da Xã e o João-Afonso Machado.

Todas as quartas feiras e durante 12 semanas publicaremos um texto novo inspirado nas cores dos lápis da caixa que dá nome ao desafio. Acompanha-nos nos blogues de cada uma, ou através da tag "Desafio Caixa de lápis de Cor". Ou então, junta-te a nós ;)

 

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